Nota – O Sr. Leymarie, nosso colega, tendo certo dia levantado mais cedo que de costume e levado por uma força involuntária, sentiu-se induzido a escrever e obteve a seguinte dissertação espontânea: Uma geração de operários amaldiçoou meu nome.
Tinham razão? Estavam errados? Ah! o futuro deveria responder.
Eu tinha uma idéia fixa: a de aperfeiçoar e, sobretudo, economizar, suprimindo algumas mãos; como Vaucanson, eu queria simplificar o tear, que tomava a criança em baixa idade para dela fazer um pária singular, pálida, mirrada, débil, ar abobalhado, de linguagem burlesca, e que formava uma população à parte em minha cidade natal.
Meu Espírito vivia em contínua tensão; eu dormia para achar, ao despertar, um novo plano; em vez de imagens e sentimentos, meu pensamento era uma engrenagem, um cilindro, molas, polias, alavancas; em meus sonhos aparecia-me o meu anjo-da-guarda, que punha em movimento todas as minhas inspirações, todas as obras das mãos do homem. Haviam dito com razão: “Os mecânicos são os poetas da matéria.” As mais belas máquinas saíram prontas e acabadas do cérebro de um operário; as noções de mecânica que ele não possui, criou-as de novo; a paciência e a imaginação são os seus únicos recursos. Na verdade é uma inspiração dos Espíritos bons, desprezada pelas academias ou cientistas de profissão; mas não é menos certo que se Arquimedes e Vaucanson são os gênios da mecânica, os Virgílios, se quiserdes, não passam dessa paciência, aliada a uma viva imaginação, que cria todas as descobertas com que se honra a Humanidade; e isto por quem? Por monges, ceramistas, cardadores de lã, pastores, marinheiros, um operário da seda, um ferreiro ignorante.
Humilde operário, eu não era um gênio, mas, como tantos outros, um predestinado, chamado a simplificar um tear que amputava os membros, abreviando a vida de milhares de crianças.
Suprimi um suplício físico; servindo à indústria, servi ao gênero humano.
Deve-se admirar a Providência, que se serve do pobre Jacquard para transformar um tear que alimenta milhares, que digo eu? milhões de homens na Terra; e é um inseto, cujo túmulo assalaria, transforma e nutre dois quintos do globo. Deus não é um mecânico maravilhoso? Criou o bicho da seda, esse engenhoso artista, no qual fez encontrar o mais vasto problema de economia política. Que ensinamento para os orgulhosos e os indiferentes!
Questão de máquinas! terrível questão! Cada invenção arranca a ferramenta e o pão de populações inteiras; o inventor é, pois, um inimigo próximo e um benfeitor distante; decuplica o poder da arte e da indústria; multiplica o trabalho no futuro; merece bem da Humanidade, mas, também, não causa um mal no presente? O primeiro inventor da máquina de fiar destruiu o recurso de muita gente. Quem fiava a matéria bruta senão a mãe de família, a pastora, as velhas? Por mínimo que fosse o seu salário, ao menos as vestia, as fazia viver de alguma maneira.
Semelhantes aos inventores de verdades religiosas, políticas ou morais, os inventores de máquinas revolucionam a matéria; precursores do futuro, abrem violentamente seu caminho através dos interesses, espezinhando o passado; assim, esperando uma recompensa longínqua, são amaldiçoados por seus concidadãos.
Pobre Humanidade! És estúpida se te deténs, cruel se avanças. Conforme Deus, não deves ficar estacionária, se não quiseres perpetuar o mal; mas, para fazer o bem, és revolucionária a despeito de tudo.
E é por isto que neste tempo de transição Deus vos diz: Sede espíritas, isto é, profundamente imbuídos de iniciativa moral e desinteressada, isto é, prestes a todos os sacrifícios, a fim de que vossa assistência se realize.
Como o bicho da seda, rastejei penosamente, sustentado pelos Espíritos bons; como ele, construi o meu casulo, dando tudo o que tinha; como ele, meus contemporâneos me desprezaram; mas, também, como ele, o Espírito renasce das cinzas para viver verdadeiramente e admirar esse mecânico dos mundos, esse Deus de luz e de bondade, que quis mostrar à minha cidade natal esse Espírito de verdade que a vivifica e a consola.
Jacquard Depois de lida esta comunicação na Sociedade de Paris, na sessão de 12 de fevereiro de 1864, evocou-se o Espírito Jacquard, ao qual foram dirigidas as perguntas que se seguem, com as seguintes respostas.
(Sociedade Espírita de Paris, 12 de fevereiro de 1864 – Médium: Sr. Leymarie) Pergunta – Sem dúvida já deveis ter dado comunicações em Lyon; no entanto, não me lembro de ter visto comunicações vossas. Como foi que viestes dar a dissertação, que acabamos de ler, ao Sr. Leymarie, em Paris, e não em um dos centros espíritas de Lyon? Por que o Sr. Leymarie foi, de certo modo, constrangido a levantar-se bem cedo para escrever a comunicação? Enfim, que pensais do Espiritismo em Lyon?
Resposta – É natural que me tenha comunicado tanto em Paris quanto em minha cidade natal, porque os pais do médium são lioneses e, particularmente, porque conheci o seu avô, que me prestou importante serviço em circunstância excepcional. E depois, o médium me foi designado pelo Espírito de seu avô, que realiza no mundo dos Espíritos uma missão idêntica à minha. E como essa missão me deixa alguns instantes livres, julguei não abusar do sono do médium, cujo devotamento, como o de tantos outros, é dedicado à causa a que serve.
Também desejava que meus compatriotas tivessem notícias minhas pela Revista Espírita. Estando sempre junto a eles, partilhando de suas alegrias e tristezas, não cessando de lhes dizer: “Amai-vos e vos estimai”, eu queria, unindo a minha a outras vozes mais influentes, estimulá-los, nesse momento de desemprego e de dificuldade, a se prepararem contra as eventualidades, contra o inimigo.
Por Lyon podeis compreender o que pode o Espiritismo interpretado com bom-senso. Em que se tornaram as violências do passado, essas recriminações injustas, essas rebeliões que ensangüentaram a colméia lionesa? E esses cabarés, outrora testemunhas de cenas licenciosas, por que hoje se esvaziam? É que a família retomou seus direitos por toda parte onde penetrou o Espiritismo e se fez sentir a sua influência benéfica; e por toda parte os operários espíritas retornaram à esperança, à ordem, ao trabalho inteligente, ao desejo de bem fazer, à vontade de progredir.
Em meu tempo foi a minha invenção que, não mais tornando o tecelão escravo da máquina, pôde regenerar todo um mundo de trabalhadores; e, por sua vez, é o Espiritismo que transforma o espírito dessa população, dando-lhe a verdadeira iniciação à vida; é toda uma legião de Espíritos bons que vêm abrir os olhos à inteligência e ao amor corações até então pervertidos.
Hoje o Espiritismo entra em nova fase, pois é tempo das aspirações generosas. A burguesia, ainda submetida ao alto clero, fica como espectadora do combate pacífico que a idéia nova oferece ao non possumus do passado. E todos esperam o fim da batalha, a fim de se colocarem ao lado dos vencedores.
Assim, caros compatriotas, escutai e segui os conselhos de Allan Kardec: são os de vossos Espíritos protetores. É por eles que afastareis o perigo das colisões e, mesmo, das coalizões.
Quanto mais humildes e sérios, tanto mais fortes sereis. Os arrogantes arriarão a bandeira diante da verdade que os ofuscará; é então que se dará a transformação espiritual dessa grande cidade, que todos amamos e que quer bem particularmente à Sociedade Espírita de Paris, por sua fé no futuro e as boas esperanças que soube realizar.
Jacquard Na mesma sessão, enquanto Jacquard escrevia a comunicação que acabamos de ler, outro médium, o Sr. d’Ambel, obtinha outra sobre o mesmo assunto, assinada pelo Espírito Vaucanson.