Objetivo final do homem na Terra
Outrora os homens eram atrelados à charrua e sacrificados em trabalhos gigantescos. A construção das muralhas da Babilônia, onde vários carros marchavam lado a lado, a edificação das Pirâmides e a instalação da Esfinge custaram mais de dez batalhas sangrentas. Mais tarde os animais foram subjugados juntamente com os homens e vimos, na jovem Lutécia, bois atrelados arrastarem o carro onde se refestelavam os reis indolentes da segunda raça. Este preâmbulo tem por objetivo mostrar aos que nos ouvem, que todas as perguntas feitas neste simpático centro aos Espíritos têm sua solução, por um ou outro de nós. Esse caro Jacquard, essa glória do tear, esse artesão engenhoso que caiu como um valente soldado no campo de honra do trabalho, tratou um lado das questões econômicas que se ligam ao labor humanitário. Ele me pôs um pouco em causa; falando das modificações que eu tinha feito na arte do tecelão, chamou-me, a bem dizer, para fazer a minha parte nesse concerto espiritual. Eis por que, encontrando entre vós um médium, como eu nascido na velha cidade dos Allobroges, esta rainha do Grésivaudan, dele me apodero com a permissão de seus guias habituais e venho completar por uma parte a exposição que meu ilustre amigo de Lyon vos deu por outro médium. Em sua dissertação, aliás muito notável, ainda exprime certas queixas que, sob o inventor, descobrem o operário cioso de seu ganha-pão e temeroso do desemprego homicida; sente-se que o pai de família se apavora com a suspensão do trabalho, do qual depende a vida dos seus; adivinha-se o cidadão que freme ante o desastre que pode atingir a maioria de seus compatriotas. Na verdade esse sentimento é dos mais honrosos, mas denota um ponto de vista de certa estreiteza. Venho tratar da mesma questão que Jacquard, se não mais largamente que ele, ao menos de um ponto de vista mais geral. Contudo, devo constatar, para homenagear a quem de direito, que a generosa conclusão da comunicação de meu amigo resgata amplamente o lado defeituoso que assinalo. O homem não foi feito para ficar como instrumento ininteligente de produções; por suas aptidões e seu lugar na Criação, por seu destino, é chamado a outra função, além da máquina, a um outro papel, que não o do cavalo de carrossel; deve, nos limites fixados por seu adiantamento, chegar a produzir cada vez mais intelectualmente e, enfim, emancipar-se desse estado de servilismo e de engrenagem sem inteligência, a que, durante tantas gerações, ficou escravizado. O operário é chamado a tornar-se engenheiro, a ver seus braços laboriosos substituídos por máquinas mais ativas, mais infatigáveis e mais precisas; o artesão deve tornar-se artista e conduzir o trabalho mecânico por um esforço do seu pensamento, e não mais por um esforço braçal. Aí está a prova irrecusável desta lei tão vasta do progresso, que rege todas as humanidades. Agora que vos é permitido entrever, por uma escapadela na vida futura, a verdade dos destinos humanos; agora que estais convencidos de que esta existência não passa de um dos elos de vossa vida imortal, podeis exclamar: Que importa que cem mil indivíduos sucumbam, quando uma máquina foi descoberta para fazer o trabalho desses cem mil? Para o filósofo, que se eleva acima dos preconceitos e interesses terrenos, o fato prova, com muita singeleza, que o homem não estava mais em seu caminho, quando se consagrava a esse labor condenado pela Providência. Com efeito, é no âmbito de sua inteligência que o homem, doravante, deve fazer passar a grade e a charrua que fecundam; é unicamente por sua inteligência que poderá e deverá chegar ao melhor. Rogo que não deis às minhas palavras um sentido por demais revolucionário; não! Mas deixai-lhes o sentido largo e superior, que comporta um ensinamento espírita, que se dirige a inteligências já avançadas e prontas a compreender todo o alcance de nossas instruções. Está provado que, se de hoje para amanhã, o artesão abandonasse o tear que o faz viver, sob pretexto de que, num dado momento, este seria substituído por um mecanismo ou qualquer outro invento, por certo seguiria uma via fatal e contrária a todas as lições dadas pelo Espiritismo. Mas todas as nossas reflexões não têm senão um objetivo: demonstrar que ninguém deve gritar contra um progresso que substitui braços humanos por molas e engrenagens mecânicas. Além disso, é bom acrescentar que a Humanidade pagou largo preço à miséria e que, penetrando cada vez mais em todas as camadas sociais, a instrução tornará cada indivíduo mais e mais apto para funções inteligentemente chamadas liberais. É difícil a um Espírito, que se comunica pela primeira vez a um médium, exprimir seu pensamento com muita clareza. Assim, relevareis o desconcerto de minha comunicação, cuja conclusão aqui está em duas palavras: O homem é um agente espiritual que deve chegar, num tempo não muito distante, a submeter ao seu serviço e para todas as operações materiais a própria matéria, dando-lhe por único motor a inteligência, que desabrocha nos cérebros humanos. Vaucanson
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Mês Março
Ano 1864