XIV
Em primeiro lugar, convém mencionar uma série de experiências feitas em Paris com Laurent V..., rapaz de 20 anos, que cursava o grau de licenciando em Filosofia. Os resultados foram publicados em 1895 nos Annales des Sciences Psychiques. O Sr. de Rochas resumiu-os assim:(141) “Tendo verificado que era sensitivo, quisera, por sua própria vontade, compreender a razão dos efeitos fisiológicos e psicológicos que poderiam ser obtidos por meio do magnetismo. Descobri casualmente que, adormecendo-o por meio de passes longitudinais, trazia-o a estados de consciência e de desenvolvimento intelectual correspondentes a idades cada vez menos adiantadas; passava, assim, sucessivamente a aluno de Retórica, de segunda, de terceira classe, etc., já nada sabendo do que se ensinava nas classes superiores. Acabei por levá-lo ao tempo em que aprendia a ler e deu-me, acerca da sua mestra e dos seus companheirozinhos de escola, particularidades que esquecera completamente na vigília, mas cuja exatidão me foi confirmada por sua mãe. Alternando os passes adormecedores e os passes despertadores, fazia-o subir ou descer, à minha vontade, pelo curso de sua vida.” Com os fatos que se vão seguir, vai dilatar-se o círculo dos fenômenos. Acrescenta o Coronel: “Há muito pouco tempo encontrei em Grenoble e Voiron três sujets que possuíam faculdades semelhantes, cuja realidade pude igualmente verificar. Vindo-me a idéia de continuar os passes adormecedores depois de tê-los levado à mais tenra infância e os passes despertadores depois de tê-los reconduzido à sua idade atual, fiquei muito admirado de ouvi-los narrar sucessivamente todos os acontecimentos de suas existências pretéritas, passando pela descrição do seu estado entre duas existências. As indicações, que não variavam nunca, eram de tal modo categóricas que pude fazer indagações. De fato verifiquei, assim, a existência real dos nomes, dos lugares e de famílias que entravam nas suas narrativas, posto que, no estado de vigília, de nada se recordassem; mas não pude achar nos documentos do estado civil vestígio algum das personagens obscuras que eles teriam vivido.” Extraímos outras minúcias complementares de um estudo do Sr. de Rochas, mais extenso que o precedente:(142) “Esses sujets não se conheciam. Uma, chamada Josefina, conta 18 anos, habita em Voiron e não é casada; a outra, Eugênia, tem 35 anos e vive em Grenoble; é viúva, tem dois filhos e é de natureza apática, muito franca e pouco curiosa; ambas têm boa saúde e procedimento regular. Pude, em virtude de conhecer suas famílias, verificar a exatidão de suas revelações retrospectivas em um sem-número de circunstâncias que nenhum interesse teriam para o leitor. Citarei somente algumas relativas a Eugênia, para dar-lhes uma idéia a tal respeito; são extratos das atas das nossas sessões com o Dr. Bordier, diretor da Escola de Medicina de Grenoble. Adormecida, transporto-a a alguns anos antes, vejo uma lágrima sobre os olhos; diz-me que tem 20 anos e que acaba de perder um filho. ... Continuação dos passes. Sobressalto brusco com grito de pavor; viu aparecerem ao seu lado os fantasmas da avó e de uma tia, falecidas havia pouco tempo. (Essa aparição, que se deu na idade a que a levei, causara-lhe impressão muito profunda.) ... Ei-la agora com onze anos. Vai à primeira comunhão; os seus pecados mais graves são ter desobedecido algumas vezes à vovó e, principalmente, ter tirado um soldo do bolso do papai; teve muita vergonha e pediu perdão. ... Aos nove anos – Sua mãe morreu há oito dias; é grande a sua dor. Seu pai, tintureiro em Vinay, acaba de mandá-la para a casa do avô, em Grenoble, para aprender a coser. ... Aos seis anos – Anda na escola em Vinay e já sabe escrever bem. ... Aos quatro anos – Quando não está na escola, cuida da irmãzinha; começa a fazer riscos e a escrever algumas letras. Passes transversais, despertando-a, fazem-na passar exatamente pelas mesmas fases e pelos mesmos estados de alma.” O Coronel faz experiências sobre o que ele chama o “instinto do pudor”, em diferentes fases do sono. Levanta um pouco o vestido de Eugênia, que, de cada vez, o abaixa com vivacidade ou dá-lhe sopapos. “Quando pequena, não reage contra esse procedimento; o pudor não acordou ainda.” “Josefina, em Voiron, apresentou os mesmos fenômenos relativamente ao instinto do pudor e à escrita em diferentes idades. (Seguem-se cinco espécimes mostrando o progresso de sua instrução, dos 4 aos 16 anos.) Até agora temos caminhado em terreno firme; observamos um fenômeno fisiológico de difícil explicação, mas que numerosas experiências e observações permitem considerar como certo. Vamos agora entrever horizontes novos. Deixamos Eugênia como criancinha amamentada por sua mãe. Tornando-lhe mais profundo o sono, determinei uma mudança de personalidade. Já não estava viva; flutuava numa semi-obscuridade, não tendo pensamento, nem necessidade, nem comunicação com ninguém. Depois, recordações ainda mais remotas. Fora antes uma menina, falecida muito novinha, de febre causada pela dentição; vê os pais chorando em volta de seu corpo, do qual ela separou-se muito depressa. Procedi depois ao despertar, fazendo os passes transversais. Enquanto desperta, percorre em sentido inverso todas as fases assinaladas precedentemente e dá-me novos pormenores provocados pelas minhas perguntas. Algum tempo antes da última encarnação, sentiu que devia reviver em certa família; aproximou-se da que devia ser sua mãe e que acabava de conceber... Entrou pouco a pouco, “por baforadas”, no pequenino corpo. Até aos sete anos viveu, em parte, fora desse corpo carnal, que ela via, nos primeiros meses de sua vida, como se estivesse colocada fora dele. Não distinguia bem, então, os objetos materiais que a cercavam, mas, em compensação, percebia Espíritos flutuando em derredor. Uns, muito brilhantes, protegiam-na contra outros, escuros e malfazejos, que procuravam influenciar-lhe o corpo físico. Quando o conseguiam, provocavam aqueles acessos de raiva, a que as mães chamam manhas.” Seguem-se longos pormenores, muito interessantes, sobre outras existências da personalidade, que fora em último lugar Josefina; e o Sr. de Rochas termina assim: “Em Voiron tenho por espectadora habitual das minhas experiências uma menina de espírito muito circunspeto, muito refletido, e de modo nenhum sugestionável, a Srta. Luisa, que possui em muito alto grau a propriedade (relativamente comum em grau menor) de perceber os eflúvios humanos e, por conseguinte, o corpo fluídico. Quando Josefina aviva a memória do passado, observa-se-lhe em volta uma aura luminosa percebida por Luisa; ora, essa aura torna-se, aos olhos de Luisa, escura, quando Josefina se acha na fase que separa duas existências. Em todos os casos Josefina reage vivamente quando toco em pontos do espaço onde Luisa diz perceber a aura, quer seja luminosa ou sombria. É muito difícil conceber como ações mecânicas, quais as dos passes, determinam o fenômeno da regressão da memória de maneira absolutamente certa até um momento determinado, e como essas ações, continuadas exatamente da mesma forma, mudam bruscamente, nesse momento, o seu efeito, para somente originarem alucinações.” Nada acrescentaremos a tais comentários, com receio de enfraquecê-los. Preferimos passar sem transição a outra série de experiências do Sr. de Rochas, feitas em Aix-en-Provence, experiências relatadas, sessão por sessão, nos Annales des Sciences Psychiques, de julho de 1905.(143) É sujet uma jovem de 18 anos, que goza de saúde perfeita e que nunca ouviu falar de magnetismo nem de Espiritismo. A Srta. Marie Mayo é filha de um engenheiro francês falecido no Oriente; foi educada em Beirute, onde fora confiada aos cuidados de criados indígenas; estava aprendendo a ler e escrever em árabe. Foi, depois, reconduzida à França e habita Aix, com uma tia. As sessões tinham como testemunhas o Dr. Bertrand, antigo presidente da Câmara Municipal de Aix, médico da família, e o Sr. Lacoste, engenheiro, a quem se deve a redação da maior parte das atas. Essas sessões foram em grande número. A enumeração dos fatos ocupa 50 páginas dos Annales. As primeiras experiências, empreendidas durante o mês de dezembro de 1904, têm por objeto a renovação das recordações da vida atual. A paciente, imersa na hipnose pela vontade do coronel, retrocede gradualmente ao passado e revive as cenas da sua infância; dá, em diferentes idades, espécimes de sua letra, que se podem examinar. Aos 8 anos escreve em árabe e traça caracteres que depois esqueceu. Obtém-se, a seguir, a renovação das vidas anteriores. Alternadamente, subindo o curso de suas existências à época atual, o sujet, sob o império dos processos magnéticos que indicamos, passa e torna a passar pelas mesmas fases, na mesma ordem, direta ou retrógrada, com uma morosidade, diz o coronel, “que torna as explorações difíceis para além de certo número de vidas e de personalidades”. Não é possível o fingimento. Mayo atravessa os diferentes estados hipnóticos e, em cada um, manifesta os sintomas que o caracterizam. O Dr. Bertrand verifica repetidas vezes a catalepsia, a contratura, a insensibilidade completa. Mayo passa a mão por cima da chama de uma vela sem a sentir. “Não tem nenhuma sensibilidade para o amoníaco; os olhos não reagem à luz; a pupila não é impressionada por um candeeiro ou vela que se lhe apresente de súbito muito perto da vista ou que rapidamente se retire”.(144) Em compensação, acentua-se a sensibilidade a distância, o que demonstra, com toda a evidência, o fenômeno da exteriorização. Citemos as atas:
TAG Valor
Título As vidas sucessivas – Provas experimentais – Renovação da memória
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino