União da Filosofia e do Espiritismo – 2o artigo
Assim, de início, a extensão e a solidez substancial permitem à nossa alma tomar diferentes formas e encerrar o tipo de todos os órgãos que constituem nosso organismo corporal. Serve, assim, de origem e sustentáculo aos nossos nervos, aos nossos sentidos, ao nosso cérebro, às nossas vísceras, aos nossos músculos e ossos, permitindo que nos encarnemos por meio desta lei da mutabilidade das moléculas corporais, tão conhecida de nossos modernos fisiologistas. Nossos cientistas supõem apenas, e erradamente, em nossa opinião, que essa lei seja efeito de uma força misteriosa da matéria, que se renova, se absorve, se escoa e se forma por si mesma, pois a matéria é inerte e nada forma por sua própria iniciativa. Evidentemente esta mutabilidade é efeito da atividade instintiva de nossa dupla essência anímica, que se acha sob o nosso envoltório. A existência desta lei prova que a nossa encarnação está na ordem da Natureza, visto ser contínua e, ao cabo de uma série de anos, nosso corpo se renova regularmente. A formação do nosso revestimento material, e a nossa encarnação sucessiva explicam-se, muito naturalmente, desta maneira. Mas, além disso, essa substancialidade extensa de nossa alma nos faz compreender igualmente o laço existente entre ela e o nosso corpo, porquanto, não passando o nosso organismo visível de cobertura do nosso organismo substancial, tudo quanto é sentido por um deve repercutir necessariamente no outro. As emoções da substância da alma devem abalar o corpo e o estado deste deve afetar, inevitavelmente, suas próprias disposições morais e intelectuais. Eis o primeiro ensinamento resultante da natureza concreta de nossa substância. O segundo ensinamento que daí retiramos é que a parte da substância de nossa alma, que não serve de tipo ao nosso organismo material, deve ser a base do nosso senso íntimo, daquele que recebe todas as nossas impressões morais e intelectuais, e que nos põe em contato com a própria substância divina, de sorte que nossa substância recebe as impressões da irradiação de todas as existências e de todas as atividades possíveis e se acha entre a origem primeira de todas as nossas noções. É da mesma maneira que recebemos o conhecimento de nós mesmos. Porque se perguntarmos a um céptico como pode afirmar-se, sem a menor reserva responderá: “É que eu me sinto”, pois o próprio céptico não pode duvidar de suas sensações. Entretanto, sentir-se não é todo o nosso conhecimento: o céptico também não pode negar que sabe que se sente. Ora, a percepção do nosso sentimento é conseqüência de nossa atividade intelectual, o que prova que nossa alma não só é passiva, mas, também, ativa, tem vontade, percebe, pensa e é livre por sua própria iniciativa. Nossos próprios órgãos funcionam sem que tenhamos consciência, de sorte que se é forçado a atribuir à nossa alma um segundo elemento, um elemento ativo, virtual, isto é, uma força essencial, que está atenta quando nossa sensibilidade está desperta e que, por efeito de seu próprio movimento, percebe, pensa e reflete por meio do nosso órgão cerebral, age auxiliada por nossos membros e anima nosso organismo com um movimento involuntário. É pela presença em nossa alma dessa dupla ordem essencial: da ordem substancial passiva e sensível, e da ordem virtual ativa e pensante, que nós sentimos, sabemos e temos consciência de nossa própria personalidade, sem nenhum auxílio do mundo exterior. Nossa força anímica é o nosso elemento espiritual por excelência, porque não tem, por si mesma, nem extensão nem solidez; só nos é conhecida por sua atividade. Desde que não quer, nem pensa, nem age, é como se não existisse; e se nossa alma não fosse substancialmente concreta, pela virtude de um outro elemento, nosso corpo não teria consistência e não passaria de um amontoado de pó; nem mesmo poderia existir na erraticidade, pois se perderia no nada, a menos que se admitisse, com o espiritualismo, um mistério impenetrável, que lhe permitisse existir sem ter extensão nem solidez, suposição que o Espiritismo e as leis naturais tornam completamente inadmissível. Entretanto, é nossa força essencial que Leibniz considera como sendo nossa substância, sem levar em conta a sua natureza fugidia; e a escola espiritualista francesa o repete, a seu exemplo, sem se deter nessa confusão ilógica. Todavia, não basta chamar força a uma substância para que esta realmente o seja, e considerar essa substância imaginária como sendo o fundo de nosso ser, para que se saia do vazio das abstrações. Uma substância não é tal senão por seu estado concreto, sua extensão e sua solidez, por mais sutil que a queiramos conceber e é o que nossa escola espiritualista se compraz em passar em silêncio. Eis aí uma outra causa de sua impotência moral e filosófica. Nossa força essencial é o princípio de nossa atividade; ela nos anima, mas não nos constitui. É o princípio de nossa vida, mas não o de nossa existência. Está por toda parte em nossa substância, espalha-se com ela em todo o nosso ser e dele recebe diretamente as impressões, sem o nosso concurso voluntário. É por esta íntima união de nossos dois elementos essenciais que nosso organismo funciona espontaneamente; que nossas sensações despertam a seguir nossa atenção e nos levam, sem outro intermediário, a perceber a causa de nossas impressões; que nossa consciência é um conjunto de sentimentos e de reflexões e que toda noção, seja qual for o seu objeto, exige que o sintamos e o saibamos. Desde então somente nós estamos certos de sua existência. É por este mesmo processo que temos conhecimento do Ser Supremo. Temos a sensação de sua presença por nosso senso íntimo, e nos explicamos esta sensação sublime por nossa razão, porque o ideal do verdadeiro, do bem e do belo está, inicialmente, em nosso coração, antes de nos entrar na cabeça. Os povos selvagens nisto não se enganam; não duvidam de Deus; apenas o imaginam conforme o nível de sua grosseira inteligência, ao passo que vemos nossos cientistas a querelar sobre a sua personalidade, porque nada pretendem admitir, a não ser pela força de seu raciocínio, e porque se debatem em abstrações, sem ponto de apoio na ordem sensível. Tal a constituição de nossa alma. Ela se compõe de dois elementos bem distintos entre si e, não obstante, indissoluvelmente unidos; porque jamais e em parte alguma esses elementos se encontraram separadamente: toda substância tem sua força e toda força tem sua substância. Assim, esta dualidade se acha reunida na essência de tudo o que existe; está na matéria, na alma, em Deus. Nós o repetimos: esta distinção na unidade é necessariamente admissível, porque cada um desses elementos está bem caracterizado; porque têm suas propriedades respectivas e sua modalidade categórica; e porque é uma lei universal que um mesmo princípio não pode ter efeitos contrários, que qualidades que se excluem revelam outros tantos princípios particulares. Mas sua unidade não é menos peremptória, porque nenhuma função, nenhuma faculdade, nenhum fenômeno se produz em nós e alhures sem o concurso simultâneo desses dois elementos irredutíveis. É esta unidade na dualidade constante de nossa alma que nos explica ainda esse fenômeno psicológico importante, a saber: a espontaneidade instintiva de todas as nossas faculdades e de todas as nossas funções, assim como a formação do nosso caráter e da nossa natureza moral íntima. Efetivamente, nossas impressões se nos conservam e se reproduzem involuntariamente, de sorte que, como a substância é o elemento passivo e permanente de nossa alma, é preciso que se lhe atribua a propriedade de conservar as nossas sensações, de concretizá-las em si e de transmiti-las à atenção de nossa força essencial. Sendo essas impressões de toda espécie, forma-se em nós, por esta propriedade conservadora, uma ordem moral, intelectual e prática permanente, que se manifesta por nossa atividade instintiva e espontânea, que nos inspira os sentimentos e as idéias e guia os nossos atos sem o nosso concurso voluntário e, muitas vezes, à nossa revelia. Além disso, esses sentimentos e essas idéias adquiridas se agrupam em nossa alma e nos produzem novas idéias e novas imagens, que estávamos longe de esperar. As funções psicológicas de nossa substância, unida à nossa força essencial, são, assim, multiplicadas e nos formam uma natureza moral, intelectual e prática espontânea, que é o fundo do nosso caráter, a origem de nossas disposições naturais. Desse modo, a nossa substância encerra, em estado latente, ou em potencial, como se exprime a escola, todas as nossas qualidades, todos os nossos conhecimentos, todos os nossos hábitos passados em estado permanente. Em conseqüência, a ela e à sua atividade instintiva é que se deve atribuir a memória, a imaginação, o espírito e os sentidos naturais, bem como a origem de nossas idéias e sentimentos.
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Mês Novembro
Ano 1863