Esta ordem substancial instintiva existe incontestavelmente em nossa alma. Cada um se reconhece uma natureza moral permanente, disposições intelectuais e hábitos próprios, que lhe facilitam a carreira e a conduta, se forem bons; ou que impede o sucesso e o arrasta em desvios deploráveis, se forem maus. Só os nossos filósofos não percebem, porque, não admitindo, como já fizemos notar, uma ordem psicológica substancial, condenam-se a atribuir tudo o que é resistente em nossa alma à influência da matéria, e a confundir tudo o que é sensível e vivo com a nossa inteligência. É verdade que Aristóteles reconhecia no homem uma ordem potencial, onde todas as nossas qualidades estão em potencial; mas o define mal e também a confunde com a matéria. Desde então, ninguém mais se ocupou dessa ordem especial, a não ser o Sr. Cousin. Mas este filósofo contemporâneo, não reconhecendo na alma senão a inteligência, só considerou a atividade espontânea, sem lhe buscar a origem no elemento permanente da nossa natureza anímica. Ele a designa como sendo a razão espontânea e instintiva, em oposição à razão refletida, sem se dar conta da contradição existente entre o instinto e a reflexão, qualidades que se excluem e que, evidentemente, não podem pertencer ao mesmo princípio! É por isso que o Sr. Cousin tira apenas conseqüências limitadas desta descoberta, razão pela qual a sua psicologia, como a sua escola, tornou-se uma ciência árida, ilógica e sem grande alcance.
Detenhamos agora o pensamento sobre o conjunto de observações que precedem, pois elas nos fizeram conhecer fenômenos psicológicos até hoje desconhecidos. Elas nos fizeram constatar em nossa alma a existência de duas ordens morais, intelectuais e práticas bem distintas e fortemente caracterizadas: uma se reportando perfeitamente às propriedades particulares de nossa substância, que são a permanência, a extensão e a solidez; a outra, as de nossa força essencial, que são a sua causalidade, sua inextensão e sua intermitência. A primeira é passiva, sensível, conservadora; a segunda é ativa, voluntária e refletida. A união íntima dos nossos dois elementos essenciais produz em nós, além disso, nossa tríplice atividade instintiva, que é o reflexo direto do estado verdadeiro de nossas qualidades e de nossos defeitos naturais.
Com efeito, de um lado, quanto mais sensível, delicada e conservadora for a nossa natureza substancial, e mais viva e enérgica a nossa atividade instintiva, tanto mais puros e elevados serão nossas idéias e sentimentos, justo o nosso bom-senso e fáceis e seguras a nossa memória e a nossa imaginação. Ao contrário, quanto menos aperfeiçoado for o nosso estado substancial, mais lentas e limitadas serão a nossa memória e a nossa imaginação, mais grosseiras as nossas idéias, mais vis os nossos sentimentos e mais obtuso o nosso senso comum. Mas, por outro lado, quanto mais enérgica, constante e flexível a nossa força causadora, mais fortes serão a nossa atenção, a nossa vontade, a nossa virtude e o nosso domínio sobre nós mesmos, mais alcance terão a nossa percepção, o nosso pensamento, o nosso juízo e a nossa razão e, enfim, maior a nossa habilidade e mais honrosa a nossa conduta, porque todas essas qualidades e faculdades derivam de nosso elemento virtual.
Ao contrário, quanto mais mole, entorpecida ou rígida a nossa força essencial, tanto mais a nossa brutalidade e a nossa covardia moral e intelectual se manifestarão em plena luz. Desse modo, o nosso valor tanto depende do estado das qualidades e das propriedades de um, quanto do outro elemento de nossa alma.
Tal o quadro sumário que apresenta a constituição íntima de nossa essência anímica, e que nos revela a nossa dupla faculdade de nos sentir e de nos saber. Esse quadro no-la mostra, para começar, em sua unidade viva, pois descobrimos o duplo princípio de sua atividade e de sua passividade, de sua permanência e de sua causalidade, de sua existência no tempo e no espaço, e de sua independência própria e distinta de Deus, do mundo e de seu envoltório material. Ele no-la mostra depois na sua diversidade maravilhosa, pois reconhecemos a origem de suas qualidades e de suas faculdades, de suas funções e de seu organismo, nas propriedades respectivas de nossos elementos essenciais e em seu concurso recíproco. Entretanto, este quadro não passa de um primeiro esboço e, contudo, fácil é nele notar o método de observação rigorosa que seguimos e que é o mesmo que Bacon descobriu, que Descartes introduziu na psicologia, que a escola escocesa aplicou e que a escola espiritualista e eclética observou em toda a sua doutrina. Encontramo-nos, pois, no mesmo terreno que o de toda filosofia séria e, se muitas vezes estamos em desacordo com as nossas celebridades acadêmicas, é que não podemos deixar de crer que a maioria dos fatos de consciência foi por elas mal observados e mal explicados.
Com efeito, o ecletismo espiritualista nos reconhece três faculdades principais: a vontade, a sensação e a razão. Estas faculdades se distinguem do nosso corpo, que é sólido e extenso, de modo que possuímos, necessariamente, uma alma inextensa e espiritual. Feita esta consideração, o ecletismo não pergunta como a nossa alma deve ser constituída para ser sensível, nem se a vontade e a razão, que são ambas ativas, não são duas manifestações de um mesmo princípio virtual. São perguntas que não o inquietam. Ele apenas sustenta que, dessas três faculdades, só a vontade de fato nos pertence, pois só ela é o resultado de uma força substancial inextensa, que é o princípio primordial do nosso eu. Aos seus olhos, a sensibilidade não passa de efeito do choque resultante da ação que a força do mundo exterior exerce sobre a nossa, por meio do nosso organismo. Mas, também, o ecletismo não pesquisa como a nossa força inextensa se liga ao nosso organismo, nem como, nesse isolamento inextenso, ela pode receber o choque, assim como não explica como podemos ser sensíveis. São pequenos mistérios que não poderiam detê-lo.
A razão, conforme o Sr. Cousin, é a faculdade soberana do conhecimento, mas é impessoal, isto é, não nos pertence, embora dela nos sirvamos. Dizer minha razão, segundo ele, é uma insensatez, pela mesma razão por que não se diz minha verdade. Tal motivo não nos parece muito concludente, mas, provavelmente, a falta é nossa. Com efeito, em seu sistema, a razão é o conjunto das verdades necessárias e universais, tais como os princípios da causalidade, da substância, da unidade, do verdadeiro, etc. A coleção destes princípios forma, pois, segundo ele, a razão divina, da qual participamos pela vontade inefável do Todo-Poderoso. Mas é aí que se deve crer sob palavra, pois não vimos precisamente como uma coleção de verdades, por mais universais que sejam, poderia constituir a razão divina e humana. Vulgarmente as verdades são leis e a razão é uma faculdade. Ora, eu vejo o Sol, mas jamais a faculdade de ver foi tomada pelo Sol, nem pelo menor de seus raios. Eis, pois, aí um novo mistério, a juntar aos precedentes; de sorte que, nessa doutrina, nada se explica por si, nada se liga e nossa alma aí só é representada como um conjunto heterogêneo de faculdades, de qualidades, de funções distintas, ligadas ao acaso, como folhas esparsas que tivessem sido reunidas num volume, sob o título pomposo de Doutrina filosófica do século XIX. O segundo prefácio da terceira edição dos Fragmentos filosóficos lhe trazem um resumo, interessante sob vários aspectos.