União da Filosofia e do Espiritismo – 2o artigo
Pelo Sr. M. Herrenschneider – 2o artigo34 O PRINCÍPIO DA DUALIDADE DA ESSÊNCIA DA ALMA E O SISTEMA ESPIRITUAL DO SR. COUSIN E DE SUA ESCOLA No artigo anterior procuramos provar que se, em geral, os senhores livres-pensadores quisessem dar-se ao trabalho de examinar os motivos que lhes permitem afirmar-se, de dizer “eu”, chegariam ao conhecimento de sua dupla essência; convencer-se-iam de que sua alma é constituída de maneira a existir separadamente do corpo, tão bem quanto em seu envoltório, e compreenderiam a sua erraticidade quando, após a morte, ela tivesse deixado a sua matéria terrestre. De sorte que sua ciência, se fosse baseada sobre o verdadeiro princípio da constituição da alma, confirmaria os fatos espíritas, em vez de os contradizer com tanta persistência. Com efeito, nossa noção do eu compõe-se principalmente do sentimento e do conhecimento que temos de nós mesmos, e esses dois fenômenos íntimos, evidentes para todo o mundo, implicam peremptoriamente dois elementos distintos na alma: um passivo, sensível, extenso e sólido, que recebe as impressões; outro ativo, sem extensão e pensante, que os percebe. Em conseqüência, se possuímos, ao lado de um elemento virtual, um elemento resistente e permanente, diferente do nosso corpo, não podemos dissolver-nos pela morte; nossa imortalidade está provada e nossa preexistência é uma conseqüência natural. Nossos destinos, portanto, são independentes de nossa morada terrestre, e esta não passa de um episódio mais ou menos interessante para nós, conforme os acontecimentos que a enchem. A dualidade da essência de nossa alma, de acordo com tais observações, é um princípio importante, pois nos instrui sobre a nossa existência real e imortal. Mas é um princípio tanto mais importante quanto é a fonte única em que haurimos a consciência certa de nossa individualidade, sendo assim a origem de nossa ciência, da qual não podemos duvidar, e sobre a qual repousa todo o resto dos nossos conhecimentos. Efetivamente, começamos todos por nos conhecer, antes de perceber o que nos rodeia; e medimos por nossa medida tudo o que examinamos e julgamos. Assim, é indispensável observar, para o estudo da verdade, que nosso saber parte de nós, para voltar a nós; que há um círculo formado por nós mesmos, que nos envolve e nos enlaça fraternalmente, mau grado nosso. Os filósofos atuais o ignoram e o sofrem sem se aperceberem. É ele que os ofusca, que os cega e os impede de olhar além e acima deles. Assim, teremos muitas oportunidades de constatar sua cegueira. Ao contrário, os Antigos conheciam esse círculo e sua influência misteriosa, pois simbolizavam a Ciência sob a figura de uma serpente mordendo a própria cauda, depois de ter-se dobrado sobre si mesma. Aos seus olhos isto significava que nosso saber parte de um ponto dado, faz a volta de nosso horizonte intelectual e retorna ao ponto de partida. Ora, se esse ponto de partida for elevado e o olhar for penetrante, o horizonte será largo e a ciência vasta; se, ao contrário, o solo for raso e a visão turva, o horizonte será restrito e limitada a inteligência das coisas. Desse modo, tais quais formos pessoalmente, tal será o conjunto e o alcance dos nossos conhecimentos. Por este motivo torna-se evidente que a primeira condição da ciência individual é a de examinar-se a si mesmo, não só para distinguir suas qualidades, seus defeitos e seus vícios, mas, antes de tudo, para conhecer a constituição íntima do nosso ser e, depois, para elevar o nosso espírito e formar o nosso caráter. Por conseguinte, a verdadeira ciência não é feita para cada um. Aquele que a aspira não só deve ter inteligência e instrução, mas, sobretudo, ser sério, sóbrio, prudente, e não se deixar levar pelo capricho da imaginação, por sua vaidade, seus interesses, sua suficiência. O que deve guiar o verdadeiro amante da verdade é um amor desinteressado por esse objetivo venerado; é a vontade enérgica e constante de jamais parar e de separar rigorosamente o joio do trigo. Quanto mais o homem possui, tanto mais é calmo e nobre e melhor saberá discernir as veredas que o conduzirão à verdade; quanto mais leviano, presunçoso ou apaixonado, tanto mais corromperá com seu hálito impuro os frutos que colherá na árvore da vida. A primeira condição para chegar ao conhecimento das coisas é, pois, o caráter individual; é por esta razão que, na antiguidade, provas solenes precediam a toda iniciação. Hoje o saber é espalhado sem discernimento e cada um julga poder penetrá-lo; mas, também, mais que nunca a verdade é bem acolhida, enquanto as doutrinas mais estranhas encontram numerosos aderentes. Deveriam, pois, convencer-se de que os espíritos indiferentes, limitados pelas ciências exatas e naturais, levados pela imaginação, ou cheios de impertinência, são impróprios à pesquisa da verdade, e que seria mais prudente reservar esse nobre labor para alguns escolhidos. Entretanto, disposições mais sensatas hoje se manifestam pelo advento do Espiritismo; e, com efeito, os espíritas são homens bem-dispostos para a busca da verdade porque, separando-se do turbilhão geral que arrasta a sociedade, renunciaram por si mesmos às vaidades mundanas, aos princípios superficiais dos livres-pensadores e à superstição oficial dos cultos reconhecidos. Dão prova de sadia independência, de um amor sincero da verdade e de uma tocante solicitude por seus interesses eternos. São estas as melhores disposições morais para abordar os graves problemas da alma, do mundo e da Divindade. Para nosso bem eterno, experimentemos entender-nos e seguir juntos as pegadas que nos conduzirão à via sagrada. Porque temos necessidade de nos ajudarmos reciprocamente para alcançar o objetivo que todos buscamos: o de nos esclarecer apenas sobre o que é real e durável. Depois das disposições morais que acabamos de indicar, a coisa mais indispensável para bem se engajar na obra delicada da iniciação é o conhecimento do princípio da dualidade da essência da alma, porquanto é ele que constitui uma parte do misterioso segredo da Esfinge35. É uma das chaves da Ciência e, sem a possuir, tornam-se inúteis todos os esforços para o atingir. Por si só, esse princípio da essência da alma encerra, como conseqüências, as noções consideráveis que desejamos adquirir, enquanto todos os princípios secundários até hoje descobertos não se elevam bastante para dominar o vasto horizonte dos conhecimentos humanos e para lhes abraçar todos os detalhes. Os princípios inferiores afastam os que deles se servem no dédalo de numerosos fatos que não esclarecem; e é pela insuficiência de seus princípios primordiais que os filósofos se transviaram e se perderam nas sutilezas arbitrárias de suas doutrinas incompletas. Fatalmente levaram a confusão onde acreditavam tocar a verdade. Nessas matérias, mais delicadas que difíceis, só o princípio verdadeiro espalha a luz, resolve facilmente todos os problemas e abre as portas secretas que conduzem ao mais distante santuário. Ora, já sabemos que levamos conosco esse princípio e que, para o descobrir, basta que nos estudemos, com calma e imparcialidade. Sabemos que esse princípio é a dualidade de nossa essência anímica, de sorte que não nos resta senão desenrolar o fio cuidadosamente, do qual temos o nó mais importante. Não obstante, à medida que avançarmos em nosso estudo psicológico, consultaremos os trabalhos de nossos mais ilustres filósofos, a fim de reconhecer onde falharam e em que ponto suas doutrinas confirmam as nossas próprias pesquisas. Assim, como observamos acima, parece evidente que tudo quanto em nós se prende à ordem sensível depende da substância de nossa alma, porque é o seu elemento extenso e sólido que recebe todas as impressões exteriores e que se ressente de nossa atividade interior. Com efeito, nossa alma não poderia ser tocada de uma maneira qualquer, sem que, primeiro, apresentasse um obstáculo às oscilações do meio ambiente e, em seguida, às vibrações das emoções que nos afetam intimamente. Portanto, é essa maneira de ser muito natural que explica as nossas relações com tudo o que existe, com o que não somos, com o nosso não-eu moral, intelectual e físico, visível ou invisível. A solidez e extensão de nossa substância não devem, em princípio, ser rejeitadas. Entretanto, não é essa opinião que reina na Universidade e no Instituto. O espiritualismo a nega como absurda, sob o pretexto especioso de que a divisibilidade, que seria a sua conseqüência, implicaria a corruptibilidade da substância. Mas isto não passa de um mal-entendido, pois o que importa à corruptibilidade da natureza anímica é a simplicidade química de sua fluidez corporal e não a sua indivisibilidade mecânica, em falta da qual há mil maneiras de remediar, ao passo que, para ficar na verdade científica, é preciso evitar a admissão de um efeito sem causa, uma impressão possível sem resistência. Assim, a sensibilidade de nossa alma nada ensina à nossa escola espiritualista; liga gratuitamente os sentimentos à razão, atribui as sensações ao organismo material e não dá explicações sobre a conexão dessas diversas faculdades. Eis uma das causas de sua impotência filosófica. Quanto a nós, a sensibilidade de nossa alma é a prova irrecusável da solidez e da extensão de sua substância, e é a noção dessas propriedades que nos abre um vasto campo de observação.
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Mês Novembro
Ano 1863