Capítulo 21
Distribuíram-se em três graus: os discípulos, os professores e os mestres, o que vale dizer que o conhecimento de que dispunham os grandes mestres era ministrado por processos iniciáticos, à medida que o discípulo revelava condições de absorvê-lo e aplicá-lo rigorosamente, segundo os métodos e interesses da Ordem. A organização correspondeu generosamente ao apoio que recebeu de Ciro, muito contribuindo, com seus recursos, para consolidação das conquistas do rei persa, mas, por volta do ano 500 antes do Cristo, entrou em desagregação, especialmente por causa da tenaz perseguição de Dario Histaspes. Emigrações em massa espalharam-nos pela Capadócia e pela Índia, mas ainda eram uma força respeitável ao tempo de Alexandre, o Grande (356-323 a. C.) que, segundo Spence, sentiu-se enciumado de seus poderes. São profundas as implicações da magia em alguns cultos religiosos, mais intensamente, é claro, nos primitivos, tanto 13 AN ENCYCLOPAEDIA OF OCCULTISM, University Books, New York, 1960. quanto na medicina, na astrologia, no magnetismo, na alquimia e em certas correntes místicas que prevalecem até hoje. Lewis Spence declara, no seu erudito verbete, que, a seu ver, misticismo e magnetismo são idênticos para alguns ocultistas, entre os quais cita, em tempos recentes, Auguste Comte, o Barão du Potet e o Barão de Guldenstubbé, este último autor do livro LA REALITÉ DES ESPRITS, publicado em 1857.14 Sir James Frazer15 considera magia e religião uma só coisa, tão identificadas se acham entre si. Isto é provavelmente verdadeiro para as primitivas crenças, mas não para as religiões mais recentes, que embora conservem sinais exteriores dos antigos cultos — símbolos, ritos, fórmulas, encantações —, perderam contacto com os seus aspectos esotéricos. Um conceito reproduzido por Spence informa-nos que o apelo aos deuses constitui prática religiosa, enquanto a prática da magia tenta forçá-los à complacência. A religião é frequentemente oficial e quase sempre organizada, enquanto a magia é, usualmente, proibida e secreta. Embora Spence nos fale da magia na Pérsia, sabemos que ela floresceu amplamente no Egito, muito antes da época citada na sua obra. Os livros mediúnicos de Rochester, vários deles publicados pela FEB, narram, com minúcias de extremo realismo, processos terríveis de magia e ocultismo, como em O CHANCELER DE FERRO e ROMANCE DE UMA RAINHA. O segundo livro do Antigo Testamento — o Êxodo — especialmente nos capítulos de números 5 a 13, narra o duelo entre os magos egípcios e hebreus, ante a aturdida expectativa de todo o país. Já antes disso, no capítulo 4, os guias espirituais de Moisés conferem-lhe poderes ostensivos, pois certamente ele deveria conhecer bastante acerca dos rituais e da teoria que os sustentava. O Espírito que se apresenta como Jeová ordena que conduza o povo hebreu para fora do Egito, mas Moisés revela sua impotência em convencer sua gente a segui-lo. — Não acreditarão em mim — diz ele — nem ouvirão a minha voz, pois dirão: Jeová não te apareceu coisa alguma. — Que tens tu na mão? — pergunta-lhe Jeová. — Um cajado. — Atira-o ao chão. Mal atirado ao solo, o cajado transformou-se numa serpente. Ante o temor de Moisés, o Espírito disse-lhe que a agarrasse pelo pescoço, o que ele fez, voltando a serpente a ser um mero cajado. Essa mesma “mágica”, no melhor sentido da palavra, Moisés faria diante do Faraó e sua corte. Segundo Will Durant16, a crença na feitiçaria, na Idade Média, era praticamente universal. O LIVRO DA PENITÊNCIA, do Bispo de Exeter, condena as mulheres “que professam a faculdade de modificar a mente dos homens pela feitiçaria, ou encantamento, como do ódio para o amor ou do amor para o ódio, bem como enfeitiçar ou roubar os bens dos homens”, ou ainda as que declaram “cavalgar durante certas noites certos animais, com um bando de demônios em formas femininas, ou estarem em companhia de tais”. Quando a Igreja resolveu entrar em cena para coibir a prática, criou-se um clima de terror que, ao mesmo tempo em que combatia as crendices, parecia atribuir-lhes certa substância, que 14 Ver o artigo “O Tempo, o preconceito e a humildade”, em REFORMADOR, agosto de 1975. 15 THE GOLDEN BOUGH, MacMilian, New York, 1951, eruditíssimo tratado sobre magia e religião que, mesmo em forma condensada, apresenta-se com 827 páginas de texto. A obra completa consta de 12 volumes. 16 THE AGE OF FAITH, Simon and Schuster, New York, 1950. mais as autenticavam na imaginação do povo inculto, porque ninguém combate aquilo que não teme. As consequências dessas impiedosas perseguições foram danosas e lamentáveis para o entendimento do fenômeno mediúnico, e é bem provável que a notícia que os Espíritos superiores vieram trazer a Kardec, no século XIX pudesse ter sido antecipada de um século ou mais, se em vez de queimar os médiuns medievais, sob a acusação de que mantinham pactos com o demônio, procurassem estudá-los com respeito e interesse. A despeito disso, não foram poucos os prelados católicos que, durante toda a existência, mantiveram cultos paralelos de magia negra, com os seus estranhos rituais. Ao escrevermos este livro, o mundo moderno assiste, algo perplexo, a um fantástico ressurgimento da magia negra e da feitiçaria, por toda parte e, desta vez, não nos países menos desenvolvidos, ou primitivos, e sim nos de mais avançada tecnologia e mais sofisticada cultura, como a Inglaterra, os Estados Unidos, a França, a Itália. A Britânica, tanto quanto Sir James Frazer, atribui à magia origens nitidamente religiosas, sob a forma de cultos à base de animais sacrificados. Oferendas de sangue e de estranhas substâncias eram feitas para propiciar os deuses em troca de favores, fosse em benefício de alguém ou com a intenção de destruí-lo. Entre os ritos destinados a destruir um inimigo, por exemplo, o mais antigo, dramático e conhecido, consiste em modelar uma pequena estátua representativa da vítima, geralmente em cera, e, com os métodos apropriados, espetá-lo com agulhas e punhais. Seria impraticável, num resumo como este, repassar todo o campo da magia e empreender sua avaliação em termos de Doutrina Espírita; poderemos, não obstante, tentar oferecer algumas noções colhidas em alentados livros, facilmente encontráveis no mercado, praticamente em todas as línguas vivas. Um desses autores é o médico francês, Dr. Gérard Encausse, contemporâneo de Allan Kardec, que, sob o pseudônimo de Papus, escreveu abundantemente sobre o assunto. Seu filho, o Dr. Philippe Encausse, também médico, revelou igual interesse pela matéria, produzindo algumas obras sobre o assunto, como SCIENCES OCCULTES ET DÉSÉQUILIBRE MENTAL. Colheremos algumas informações na obra de Papus intitulada TRATADO ELEMENTAR DE MAGIA PRÁTICA17. Antes de mergulharmos no seu livro, creio útil transmitir ao leitor espírita uma ideia da posição de Papus em relação ao Espiritismo: “Existe, não obstante — escreve ele, à página 11 de seu livro —, uma forma de experiências mágicas próprias para as pessoas pusilânimes, e que aconselharemos a quantas desejarem divertir-se, dedicando, à sobremesa, alguns momentos aos fenômenos de espiritismo. Nada têm de difíceis e sim muito consoladores, e, afinal de contas, situam-se a tal distância da verdadeira magia, que não há a temer nenhum acidente sério, desde que não se esqueça da precaução de deixar as coisas no momento oportuno”. Ao apreciar alguns aspectos da magia, da qual o Dr. Encausse é admirador ardoroso, tentemos não ser tão radicais e superficiais como ele, em relação ao Espiritismo. Papus acata o princípio, também lembrado por Sir James Frazer, acima citado, segundo o qual o mecanismo da magia precisa de um veículo entre a vontade humana e as coisas inanimadas. Na opinião de Sir James Frazer, toda a magia baseia-se na lei da simpatia, ou seja, “as coisas atuam umas sobre as outras, à distância, por estarem secretamente ligadas entre si por laços invisíveis. “Para isso — escreve Papus — o operador deverá aplicar sua vontade, não sobre a matéria, mas sobre aquilo que incessantemente a modifica, o que a Ciência Oculta denomina o plano de formação do mundo material, ou seja, o plano astral”. 17 Tradução de medial Shaiah, 1974, 5ª edição da Editorial Kier, Buenos Aires, do original francês TRAITÉ ELEMENTAIRE DE MAGIA PRATIQUE. Esse plano, os magos concebem como sendo as forças da natureza, das quais, por certo, tanto se utilizam os trabalhadores do bem, como os outros. “Não cabe dúvida — prossegue Papus — que são as forças da natureza que o mágico deverá pôr em ação, sob o influxo da sua vontade; mas que classe de forças são essas?” Diz ele que são as forças hiperfísicas, assim entendidas as que apenas diferem das energias meramente físicas nas suas origens, pois emanam de seres vivos e não de mecanismos inanimados. No fenômeno da pronta germinação, crescimento da planta e produção de frutos, que alguns faquires teriam realizado, segundo testemunhos nos quais Papus acredita, aconteceria apenas uma abundante doação, à semente, e depois à planta e ao fruto, das energias orgânicas do faquir, que se poriam em consonância com as energias armazenadas na semente. “A vontade do faquir — diz Papus — põe em ação uma força capaz de desenvolver, em algumas horas, a planta, que, em condições normais, levaria um ano para atingir aquele ponto de crescimento. A dita força não tem muitos e diversos nomes de bom sentido; pura e simplesmente, chama-se vida.” A magia seria, portanto, uma ação consciente da vontade sobre a vida. A definição completa proposta por Papus é a seguinte: “É a aplicação da vontade humana dinamizada à evolução rápida das forças vivas da natureza.” À página 91, resume ele a sua teorização, ao dizer que são três as maneiras de agir sobre a natureza:
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Nome do Capítulo Magos e feiticeiros
Parte Segunda