É uma coisa verdadeiramente curiosa ver os mesmos que repelem o nome do Espiritismo com a maior obstinação, semearem suas idéias em profusão. Não há um dia em que, na imprensa, nas obras literárias, na poesia, nos discursos, até nos sermões, não se encontrem pensamentos pertencentes ao mais puro Espiritismo. Perguntai a esses escritores se são espíritas, e responderão com desdém que se guardam de o ser; se lhes disserdes que o que escrevem é Espiritismo, responderão que não pode ser, pois não é a apologia dos Davenport e das mesas girantes.
Para eles aí está todo o Espiritismo e daí não saem, nem querem sair. Já se pronunciaram: seu julgamento é inapelável.
Contudo, ficariam muito surpresos se soubessem que a cada instante fazem Espiritismo sem o saber, que com ele se relacionam sem perceberem que estão tão perto! Mas, que importa o nome, desde que as idéias fundamentais sejam aceitas! Que vale a forma da charrua, contanto que ela prepare o terreno! Em vez de chegar de uma vez, a idéia vem por fragmentos, eis toda a diferença. Ora, quando virem mais tarde que os fragmentos reunidos não são outra coisa senão o Espiritismo, forçosamente voltarão atrás quanto à opinião que dele haviam feito. Os espíritas não são tão pueris para ligarem mais importância ao nome do que à coisa; é por isso que se congratulam, vendo suas idéias se espalhando sob uma forma qualquer.
Os Espíritos que conduzem o movimento se dizem: Já que não querem a coisa com este nome, vamos lhes fazer aceitá-la em detalhes, sob outra forma; julgando-se inventores da idéia, serão seus próprios propagadores. Faremos o que se faz com os doentes que não querem tomar certos remédios, e que os tomam sem que o suspeitem, quando se lhes muda a cor.
Geralmente os adversários conhecem tão pouco o que constitui o Espiritismo, que temos por certo que o mais fervoroso espírita, que não fosse conhecido como tal, poderia, com o auxílio de algumas precauções oratórias, e desde que se abstivesse de falar dos Espíritos, desenvolver os mais essenciais princípios da doutrina e ser aplaudido pelos mesmos que não lhe teriam concedido a palavra, se se tivesse apresentado como adepto.
Mas, de onde vêm essas idéias, uma vez que os que as emitem não as colheram na doutrina, que desconhecem?
Já o dissemos várias vezes: quando uma verdade chega ao termo e o espírito das massas está maduro para a assimilar, a idéia germina em toda parte; está no ar, levada a todos os pontos pelas correntes fluídicas; cada um lhe aspira algumas parcelas e as emite como se tivessem brotado de seu cérebro. Se alguns se inspiram na idéia espírita sem ousar confessá-lo, certamente é que em muitos ela é espontânea. Ora, achando-se o Espiritismo na coletividade e na coordenação dessas idéias parciais, um dia será, pela força das coisas, o traço de união entre os que as professam; é uma questão de tempo.
É de notar que quando uma idéia deve tomar lugar na Humanidade, tudo concorre para lhe abrir o caminho. É assim com o Espiritismo. Observando o que se passa no mundo neste momento, os grandes e pequenos acontecimentos que surgem ou se preparam, não há um espírita que não diga que tudo parece feito de propósito para aplainar as dificuldades e facilitar o seu estabelecimento. Seus próprios adversários parecem impelidos por uma força inconsciente a desobstruir o caminho e a cavar um abismo sob seus pés, para melhor fazer sentir a necessidade de o encher.
E não se creia que os contrários sejam prejudiciais; longe disso. Jamais a incredulidade, o ateísmo e o materialismo levantaram a cabeça mais corajosamente e proclamaram suas pretensões. Não são mais opiniões pessoais, respeitáveis quanto tudo que é da alçada da consciência íntima: são as doutrinas que querem impor e com o auxílio das quais pretendem governar os homens, mau grado seu. O próprio exagero dessas doutrinas é o seu remédio, porque se pergunta o que seria da sociedade, se algum dia viessem a prevalecer. Era preciso esse exagero para fazer melhor compreender o benefício das crenças que podem ser a salvaguarda da ordem social.
Mas, que cegueira estranha! ou, melhor dizendo, que cegueira providencial! Os que querem se substituir ao que existe, como os que querem se opor às idéias novas, no momento em que se agitam as mais graves questões, em vez de atraírem a si, de conciliarem as simpatias pela doçura, a benevolência, a persuasão, parecem arrogar-se a tarefa de tudo fazerem para inspirar a repulsa; não encontram nada melhor senão se impondo pela violência, comprimindo consciências, chocando convicções, perseguindo.
Singular meio de se fazerem bem-vindos das populações!
No estado atual do nosso mundo, a perseguição é o batismo obrigatório de toda crença nova de algum valor.
Recebendo o seu, o Espiritismo é a prova da importância que ligam a ele. Mas, repetimos, tudo isto tem sua razão de ser e sua utilidade; é preciso que assim seja, para preparar os caminhos. Os espíritas devem considerar-se como soldados num campo de batalha; eles se devem à causa e só podem esperar repouso quando a vitória for conquistada. Felizes os que tiverem contribuído para a vitória ao preço de alguns sacrifícios!
Para o observador que, de sangue-frio, contempla o trabalho de criação da idéia, é algo maravilhoso ver como tudo, mesmo o que, à primeira vista, parece insignificante ou contrário, converge definitivamente para o mesmo objetivo; ver a diversidade e a multiplicidade dos recursos que as potências invisíveis põem em jogo para atingir esse objetivo; tudo lhes serve, tudo é utilizado, mesmo o que nos parece mau.
Não há, pois, que se inquietar com as flutuações que o Espiritismo pode experimentar no conflito das idéias que estão em fermentação; é um efeito da mesma efervescência que produz na opinião, onde não pode encontrar simpatias por toda parte; é preciso contar com essas flutuações, até que seja restabelecido o equilíbrio. Esperando, a idéia marcha; é o essencial. E como dissemos no começo, ela surge por todos os poros; todos, amigos e inimigos, nela trabalham à porfia, e não é duvidoso que sem a ativa colaboração involuntária dos adversários, os progressos da doutrina, que jamais fez propaganda para se tornar conhecida, não tivessem sido tão rápidos.
Crêem abafar o Espiritismo proscrevendo-lhe o nome.
Mas, como ele não consiste em palavras, se lhe fecham a porta por causa de seu nome, ele penetra sob a forma impalpável da idéia. E o que há de curioso é que muitos que o repelem, não o conhecendo, não querendo conhecê-lo, ignorando, por conseguinte, o seu objetivo, suas tendências e seus mais sérios princípios, aclamam certas idéias, que por vezes são as suas, sem suspeitar que muitas vezes elas fazem parte essencial e integrante da doutrina. Se o soubessem, é provável que se abstivessem.
O único meio de evitar o equívoco seria estudar a doutrina a fundo, para saber o que ela diz e o que não diz. Mas, então, surgiria outro embaraço: O Espiritismo toca em tantas questões, as idéias que se agrupam em torno dele são tão múltiplas, que se quisessem abster de falar de tudo quanto a ele se liga, encontrar-se-iam muitas vezes singularmente impedidos e, muitas vezes mesmo, tolhidos nos impulsos de suas próprias inspirações; porquanto, por esse estudo, se convenceriam de que o Espiritismo está em tudo e por toda parte e ficariam surpresos de o encontrar nos escritores mais acreditados; mais ainda, eles próprios se surpreenderiam de fazê-lo em muitas circunstâncias, sem o querer.
Ora, uma idéia que se torna patrimônio comum é imperecível.
Por várias vezes já reproduzimos os pensamentos espíritas, encontrados em profusão na imprensa e nos escritos de todo gênero, e continuaremos a fazê-lo de vez em quando, sob o título de O Espiritismo em toda parte. O artigo seguinte, sobretudo, vem em apoio das reflexões acima; é extraído do Phare de la Manche, jornal de Cherbourg, de 18 de agosto de 1867.
O autor aí dá conta de uma coletânea de poesias do Sr. Amédée Marteau30 e, a respeito, assim se exprime: “Há dois mil anos, algum tempo antes do estabelecimento do Cristianismo, a casta sacerdotal dos druidas ensinava aos seus adeptos uma doutrina singular. Dizia: Nenhum ser jamais acabará; mas todos os seres, exceto Deus, começaram.
Todo ser é criado no mais baixo grau da existência. Inicialmente a alma não tem consciência de si mesma; submetida às leis invariáveis do mundo físico, espírito escravo da matéria, força latente e obscura, ela sobe fatalmente os degraus da natureza inorgânica, depois da natureza organizada. Então o relâmpago cai do céu, o ser se conhece, é homem.
“A alma humana começa no alvorecer as provas de seu livre-arbítrio; ela própria faz o seu destino, avança de existência em existência, de transmigração em transmigração, pela libertação que lhe dá a morte; ou, então, volta-se sobre si mesma, cai de degrau em degrau, se não tiver merecido elevar-se, sem que, todavia, nenhuma queda seja para sempre irreparável.