“Quando a alma tiver chegado ao mais alto ponto da ciência, da força, da virtude de que é susceptível a condição humana, escapa ao círculo das provas e das transmigrações, atinge o termo da felicidade: o céu. Uma vez chegado a este termo, o homem não cai mais; sobe sempre, eleva-se para Deus por um progresso eterno, sem, todavia, jamais se confundir com ele. Bem longe de no céu perder a sua atividade, a sua individualidade, e é ali que cada alma adquire a sua plena posse, com a memória de todos os estados anteriores, pelos quais passou. Sua personalidade, sua natureza própria aí se desenvolve, cada vez mais distinta, à medida que sobe na escada infinita, cujos degraus não passam de realizações da vida, que a morte não separa mais.
“Tal era a concepção que o druidismo tinha da alma e de seus destinos. Era a idéia pitagórica ampliada, tornada dogma e aplicada ao infinito.
“Como esta opinião, depois de ter adormecido tantos séculos nos limbos da inteligência humana, desperta hoje? Talvez tenha a sua razão de ser na revolução que, a partir de Galileu, se operou no sistema astronômico; talvez deva sua ressurreição às sedutoras perspectivas que apresenta aos devaneios dos filósofos e dos pensadores; ou, enfim, a essa curiosidade inata que, incessantemente, impele o homem para o desconhecido.
“Seja como for, Fontenelle foi o primeiro cuja pena espiritual transformou estas questões na sua encantadora pilhéria sobre a pluralidade dos mundos.”
“Da habitabilidade dos mundos à transmigração das almas o declive é escorregadio, e nosso século aí se deixou arrastar.
Apoderou-se dessa idéia e, escorando-se na Astronomia, tenta elevá-lo à altura de uma ciência. Jean Reynaud a desenvolveu, sob forma magistral, em Céu e Terra; Lamennais a adota e generaliza no Esboço de uma filosofia; Lamartine e Hugo a preconizam; Máxime Ducamp a popularizou num romance; Flammarion publicou um livro em seu favor; enfim, o Sr. Amédée Marteau, numa obra poética, que lemos com o mais vivo interesse, reveste com as cores de sua paleta sedutora esta vasta e magnífica utopia.
“O Sr. Marteau é o poeta da idéia nova; é um crente entusiasta e devotado da transmigração das almas em corpos celestes e é preciso convir que conseguiu tratar com mão de mestre este esplêndido assunto. Deus, o homem, o tempo, o espaço são os inspiradores de sua musa. Abismos vertiginosos, elevações incomensuráveis, nada o detém, nada o aterroriza. Ele se diverte na imensidade, bordeja sem empalidecer as barrancas do infinito. Viaja nos astros, como uma águia sobre os altos píncaros. Descreve numa linguagem harmoniosa, com precisão matemática, suas formas, sua marcha, sua cor, seus contornos.”
Depois de citar um fragmento de uma das odes da coletânea, acrescenta o autor do artigo: “O Sr. Marteau não é apenas um poeta de alta distinção: é, além disso, um filósofo e um sábio. A Astronomia lhe é familiar; colore a sua poesia com o pó de ouro que faz cair das esferas siderais. Não saberíamos dizer o que mais nos cativou: se o interesse da dicção, se a originalidade do pensamento. Tudo isto se ajusta, se coordena de maneira tão nítida, tão clara, tão natural, que se fica como que fascinado sob o encanto.
“Não conhecemos o Sr. Marteau. Mas pensamos que, se para compor um livro como este é preciso ser dotado de grande talento, também é preciso ser dotado de grande coração, porquanto, neste autor, tudo respira o amor do homem e o amor de Deus.
“Assim, não podemos deixar de conclamar aos que não se absorvem nas preocupações e nos interesses materiais, a darem uma olhadela nas obras do Sr. Marteau. Aí encontrarão consolações e esperanças, sem contar os prazeres intelectuais que faz experimentar a leitura de uma poesia generosa, rica de concepções, ideal e destinada, não temos dúvida, a um brilhante sucesso.”
Digard Como se vê, a exposição da doutrina druídica sobre os destinos da alma, pela qual começa o artigo, é um resumo completo da Doutrina Espírita sobre o mesmo assunto. Sabe-o o autor? É lícito duvidar; do contrário seria estranho que se tivesse abstido de citar o Espiritismo, a menos que tivesse receado fazê-lo participar dos elogios que prodigaliza às idéias do autor. Não lhe faremos a injúria de supor tão ingênua parcialidade; preferimos imaginar que até ignore a sua existência. Quando ele pergunta: “Como esta opinião, depois de ter adormecido tantos séculos nos limbos da inteligência humana, desperta hoje?” se tivesse estudado o Espiritismo, este lhe teria respondido e ele teria visto que essas idéias são mais populares do que se pensa.
“O Sr. Marteau, diz ele, é o poeta da idéia nova; é um crente entusiasta e devotado da transmigração das almas nos corpos celestes, e é preciso convir que conseguiu tratar com mão de mestre este esplêndido assunto.” Mais adiante, acrescenta: “Se, para compor um livro como este, é preciso ser dotado de grande talento, também é preciso ser dotado de um grande coração, porquanto, neste autor, tudo respira o amor do homem e o amor de Deus.” Então o Sr. Marteau não é um louco por professar semelhantes idéias? Jean Reynaud, Lamennais, Lamartine, Victor Hugo, Louis Jourdan, Máxime Ducamp, Flammarion, então não são loucos por os ter preconizado? Fazer o elogio dos homens não é elogiar os seus princípios? Aliás, pode-se fazer maior elogio de um livro dizendo que os leitores aí colherão esperanças e consolações? Considerando-se que estas doutrinas são as do Espiritismo, não é acreditar estas na opinião?
Assim, eis um artigo onde se diria que o nome do Espiritismo é omitido de propósito, e onde se aclamam as idéias que ele professa sobre os pontos mais essenciais: a pluralidade das existências e os destinos da alma.