Reconheço a justiça divina. Só, errando entre os mortos, pensava ser o único a conhecer os meus sofrimentos, e eis que em plena luz da publicidade sou chamado para fazer a confissão de meus erros!
Oh! quantos erros a paixão me fez cometer! Não disse tudo ao vosso irmão; o pudor, a vergonha, me retinham; preferia não ter revelado as confissões que fiz e apagar esses caracteres indeléveis, que me punham no pelourinho de vossas consciências. Mas oraram por mim e hoje reconheço o bem que me fizeram vossos corações caridosos; e para melhor merecer a vossa compaixão, porque sois espíritas, o que quer dizer indulgentes e compassivos, admito não ter recuado diante de nenhuma perversidade para satisfazer minhas paixões. Não cometi nenhum dos crimes punidos pela lei dos homens; contudo, os vícios que vossa sociedade tolera e desculpa, sobretudo quando se tem nome e fortuna, estão sujeitos à jurisdição divina, que jamais os deixa impunes. Eu os expiei cruelmente na Terra; caí no último grau da miséria, do aviltamento e do desprezo, eu que outrora brilhava e fazia invejosos e ciumentos, e o castigo me perseguiu no além-túmulo. Não matei como um vil assassino; não roubei, porque o meu orgulho de gentil-homem se teria revoltado à só idéia de ser confundido com os criminosos; e, no entanto, matei, salvaguardando a honra, segundo o mundo; levei a ruína, a vergonha e o desespero às famílias, e me chamavam o felizardo, o homem de sorte! Quantas vítimas clamam por vingança em volta de mim! Oh! por quanto tempo carregarei o fardo desses crimes! Orai por mim, porque sofro a ponto de sentir minha alma se partir!
Obrigado, obrigado, caro irmão. Quero dar-te o nome que me dás; agradeço tuas lágrimas, pois me aliviaram; agradeço a tua prece, pois atraiu para junto de mim Espíritos cheios de glória, que me dizem: Espera, tu que foste tão culpado; espera na misericórdia de Deus, que perdoa a todos os seus filhos que se arrependem. Persevera nas boas resoluções e serás mais forte para suportar teus sofrimentos.
Obrigado a ti, que me tiras do nevoeiro que me envolvia. Possa eu te provar um dia que o reconhecimento de teu irmão é para a eternidade!
III. O remorso me persegue; sofro muito, mas compreendo a necessidade de sofrer; compreendo que a impureza só se pode tornar pura depois de transformada ao contato do fogo.
Os Espíritos bons me dizem que espere, e eu espero; que ore, e orei; mas preciso de um amigo que me dê a mão para me sustentar e me impedir de sucumbir sob o meu fardo, que é muito pesado. Sê para mim esse irmão caridoso, esse amigo devotado.
Escutarei teus conselhos; orarei contigo; prosternar-me-ei contigo aos pés do Eterno.
Quantas vezes vi minha espada tinta do sangue de um de meus irmãos! Fui implacável em minhas vinganças, e quando o aguilhão da carne, a vaidade e o desejo de triunfar sobre os meus rivais me exaltavam, eu precisava da vitória a qualquer preço. Triste vitória! manchada pelas mais baixas paixões. Era cruel quando meu orgulho estava excitado; sim, fui um grande culpado, mas quero tornar-me um filho do Senhor. Por isto vim dizer-te: Sê meu irmão para me ajudar a purificar-me. Irmãos, oremos juntos.
IV. Obrigado, obrigado, irmão. Estou sob a impressão das palavras que acabas de pronunciar. Estou mais forte; vejo o objetivo e, sem tentar medir a distância que dele me separa, digo com os meus botões: Chegarei, porque quero, e tenho confiança nos Espíritos bons, que me dizem que espere. Na Terra jamais duvidei do sucesso, quando fazia o mal; como poderei duvidar, quando hoje quero fazer o bem?
Obrigado, irmão, por tua caridade, por tuas boas preces, por teus ensinamentos, pois deles tiro minha força e sinto crescer o meu arrependimento. Se o arrependimento duplica o sofrimento, sei que esse tratamento não durará mais que um tempo e que a felicidade me espera após a depuração. Quero, então, sofrer, sofrer muito, para merecer ser feliz mais rapidamente dessa felicidade que gozam os Espíritos radiantes, que vejo perto de ti.
Até breve, irmão, pois vejo que tens um outro Espírito sofredor para consolar e fortalecer em seu arrependimento. Pensa em mim; em tua prece da noite estarei junto de ti.
CONSIDERAÇÕES GERAIS É evidente que esse Espírito está no bom caminho, há nele uma luta de bom augúrio, pois só pede para ser esclarecido.
Entretanto, suas idéias se ressentem de certos preconceitos. Como muita gente que neles imaginam encontrar uma desculpa, ele se prende à sociedade. Mas, o que é que torna má a sociedade, senão as pessoas viciosas? Sem dúvida a sociedade deixa muito a desejar, no que diz respeito às instituições; mas desde que nela se encontram criaturas honestas, cumpridoras de seus deveres, todos poderiam fazer o mesmo, já que ela não força ninguém a fazer o mal. Era a sociedade que obrigava Louis-Henri a abandonar aquela mulher e seu filho? Se não reconheceu este, por que o perdeu de vista, sem se inquietar com sua existência? Foram os preconceitos sociais que o impediram de dar seu nome àquela mulher? Não, porque tinha como móvel apenas suas paixões. Era a instrução que lhe faltava? Não, pois pertencia à classe alta. A sociedade não é culpada para com ele; ela nada lhe recusou, já que em tudo o favorecera. Ele, pois, é que foi culpado para com a sociedade, porque agiu livremente, voluntariamente e com conhecimento de causa. Quem lançou seu filho no caminho dos excessos? O acaso? Não: a Providência, a fim de que o remorso, que mais tarde experimentaria, servisse ao seu adiantamento.
A verdadeira chaga da sociedade, a causa primeira de todas as desordens, é a incredulidade. A negação do princípio espiritual, a crença no nada depois da morte, as idéias materialistas, numa palavra, altamente preconizadas por homens influentes, infiltram-se na juventude, que as suga, por assim dizer, com o leite.
O homem que só acredita no presente quer gozar a qualquer preço e é conseqüente consigo mesmo, pois nada espera além da tumba; como não espera nada, nada teme. Se Louis-Henri tivesse tido fé em sua alma e no futuro, teria compreendido que a vida corporal é fugidia e precária e dela não teria feito o seu único objetivo; sabendo que nada do que aqui se adquire é perdido, ter-se-ia preocupado com sua sorte futura, ao passo que agiu como alguém que dissipa o capital e joga sua última carta.
Quantas desordens, quantas misérias, quantos crimes têm sua fonte nesta maneira de encarar a vida! Quais os primeiros culpados? Os que a erigem em dogma, em crença, zombando e tratando como loucos os que acreditam que nem tudo está na matéria e no mundo visível. Louis-Henri não foi bastante forte para resistir a essa corrente de idéias; sucumbiu, vítima de suas paixões, que encontravam uma justificação no materialismo, ao passo que uma fé sólida e raciocinada lhe teria posto um freio mais poderoso que todas as leis repressivas, incapazes de alcançar todos as ações más. O Espiritismo dá esta fé, razão por que opera tão numerosas transformações morais.
As três últimas comunicações confirmam a primeira, obtida por outro médium; evidentemente, o cerne do pensamento é o mesmo. Aí se nota o progresso operado nesse Espírito, e nela podemos colher mais de um ensinamento.
Na primeira, fazendo a confissão de suas faltas, ainda não há arrependimento sério, nem resolução tomada; quase protesta por ter sido evocado.
Na segunda, diz: “Como sofro desde que fui evocado por vosso presidente!”. Estas palavras justificariam o dito de certas pessoas, que pretendem que os mortos são perturbados quando se os evoca? Não, certamente; primeiro, porque só vêm quando lhes convém; em segundo lugar porque, em sua maioria, testemunham satisfação por serem chamados, quando o são por um sentimento simpático e benevolente. Certos culpados só vêm com repugnância e, neste caso, não são constrangidos pela evocação, mas por Espíritos superiores, tendo em vista o seu adiantamento. Sua repugnância é a do criminoso conduzido a um tribunal. A evocação dos Espíritos culpados, tendo como objetivo e resultado a sua melhora, a contrariedade momentânea que lhes causa é vantajosa para eles, porquanto, ao excitá-los ao arrependimento, abreviam os sofrimentos que suportam no mundo dos Espíritos. Seria, então, mais caridoso deixá-los apodrecer na abjeção em que se acham, do que dali os tirar? O sofrimento que disso resulta é semelhante ao que o médico faz passar o doente, para o curar. Tirai da lama um homem embrutecido: ele protestará. Dá-se o mesmo com os Espíritos.
Nas comunicações desse Espírito encontra-se um pensamento análogo ao que exprimia Latour sobre o sofrimento causado pelo arrependimento. Explicamos a causa desse sentimento (número de novembro de 1864); é o mesmo que levou este a dizer: “Sofro desde que fui evocado, e o remorso me persegue; sofro muito.” É, pois, o remorso que o faz sofrer, mas é esse remorso que o deve salvar, e foi a evocação que o provocou.