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Espíritos
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Revista Espírita - Pelo espírito  Charlet  através da codificação de Allan Kardec Os Animais
(Dissertações espontâneas feitas pelo Espírito Charlet, em várias sessões da Sociedade) I Há uma coisa entre vós que sempre vos excita a atenção e a curiosidade. Esse mistério, pois que o é e muito grande para vós, é a ligação ou, melhor dizendo, a distância existente entre a vossa alma e a dos animais, mistério que, apesar de toda a sua ciência, Buffon, o mais poético dos naturalistas, e Cuvier, o mais profundo, jamais puderam penetrar, assim como o escalpelo não vos detalha a anatomia do coração. Ora, como sabeis, os animais vivem, e tudo que vive pensa. Não se pode, pois, viver sem pensar. Assim sendo, resta demonstrar-vos que quanto mais o homem avança, não segundo o tempo, mas conforme a perfeição, mais penetrará a ciência espiritual, a qual se aplica não somente a vós, mas ainda aos seres que estão abaixo de vós: os animais. Oh! exclamarão alguns homens, persuadidos de que a palavra homem significa todo o aperfeiçoamento: Haverá um paralelo possível entre o homem e o bruto? Podeis chamar inteligência o que não passa de instinto? Sentimento o que é apenas sensação? Podeis, numa palavra, rebaixar a imagem de Deus? Responderemos: houve um tempo em que a metade do gênero humano era considerada no nível do irracional, onde o animal nada contava; outro tempo, agora o vosso, em que a metade do gênero humano é encarada como inferior e o animal como bruto. E então? Do ponto de vista do mundo é assim, certamente; do ponto de vista espiritual é completamente diferente. O que os Espíritos superiores diriam do homem terrestre, os homens dizem dos animais. Tudo é infinito em a Natureza: o material como o espiritual. Ocupai-vos, pois, um pouco, desses pobres irracionais, espiritualmente falando, e vereis que o animal vive realmente, já que pensa. Isto serve de prefácio a um pequeno curso que vos darei a respeito. Aliás, quando vivo eu havia dito que a melhor companhia do homem era o cão. Continua no próximo número. Charlet II O mundo é uma escada imensa, cuja elevação é infinita, mas cuja base repousa num horrendo caos. Quero dizer que o mundo não é senão um progresso constante dos seres. Estais muito embaixo, sempre, mas haverá muitos abaixo de vós. Porque, ouvi bem, não falo apenas do vosso planeta, mas também de todos os mundos do Universo. Não temais, pois nos limitaremos à Terra. Antes disso, entretanto, duas palavras sobre um mundo chamado Júpiter, do qual o engenhoso e imortal Palissy vos deu alguns esboços, tão estranhos e sobrenaturais para a vossa imaginação. Lembrai-vos de que num desses encantadores desenhos ele vos apresentara alguns animais de Júpiter? Não há neles um progresso evidente e lhes podeis negar um grau de superioridade sobre os animais terrestres? E nisso apenas vedes um progresso de forma e não de inteligência, embora a atividade de que se ocupam não possa ser executada pelos animais da Terra? Só vos cito este exemplo para vos indicar que já existe uma superioridade de seres que estão muito abaixo de vós. Que seria se vos enumerasse todos os mundos que conheço, isto é, cinco ou seis? Mas, somente na Terra, vede a diferença existente entre eles! Pois bem! Se a forma é tão variada, tão progressiva, que mesmo na matéria há progresso, podeis negar o progresso espiritual desses seres? Ora, como o sabeis, se a matéria progride, mesmo a mais elementar, com mais forte razão o Espírito que a anima. Continuarei da próxima vez. Charlet Nota – Com o número de agosto de 1858 publicamos uma prancha desenhada e gravada pelo Espírito Bernard Palissy, representando a casa de Mozart em Júpiter, com uma descrição desse planeta, que foi sempre designado como um dos mundos mais adiantados de nosso turbilhão solar, moral e fisicamente. O mesmo Espírito deu um grande número de desenhos sobre o mesmo assunto. Entre outros, há um que representa uma cena de animais, em atividade na parte que lhes é reservada na casa de Zoroastro. Indubitavelmente, é um dos mais curiosos da coleção. Entre os animais figurados, há uns cuja forma se aproxima bastante da forma humana terrestre, tendo ao mesmo tempo algo do macaco e do sátiro. Sua ação denota inteligência e compreende-se que sua estrutura possa prestar-se aos trabalhos manuais que executam para os homens. São, como já foi dito, os serviçais e os operários, pois os homens só se ocupam dos trabalhos da inteligência. É a esse desenho, feito há mais de três anos, que alude Charlet na comunicação acima. III Nos mundos adiantados os animais são de tal modo superiores que, para eles, a mais rigorosa ordem é dada pela palavra, e entre vós, muitas vezes, a pauladas. Em Júpiter, por exemplo, basta uma palavra, enquanto entre vós as chicotadas não são suficientes. Todavia, há um sensível progresso em vossa Terra, jamais explicado: é que o próprio animal se aperfeiçoa. Assim, outrora, o animal era muito mais rebelde ao homem. Também há progresso de vossa parte, por terdes instintivamente compreendido esse aperfeiçoamento dos animais, pois que vos proibis de bater-lhes. Eu dizia que há progresso moral no animal. Há também progresso de condição. Assim, um infeliz cavalo açoitado, ferido por um carroceiro mais bruto que ele, estará, comparativamente, numa condição muito mais tranqüila, mais feliz que a de seu carrasco. Não é de toda justiça, e devemos nos admirar de que um animal que sofre, que chora, que é reconhecido ou vingativo, conforme a doçura ou a crueldade de seus donos, seja recompensado por haver pacientemente suportado uma vida repleta de torturas? Antes de tudo, Deus é justo e todas as suas criaturas estão sob suas leis, e estas dizem: “Todo ser fraco que tiver sofrido será recompensado.” Sempre comparativamente ao homem, entendo, e ouso acrescentar, para terminar, que o animal, em muitas circunstâncias, tem mais alma e mais coração que o homem. Charlet IV A superioridade do homem se manifesta em vosso globo por essa elevação da inteligência que dele faz o rei da Terra. Ao lado do homem, o animal é muito fraco, muito insignificante e, pobre cativo dessa terra de provação, muitas vezes tem que suportar os caprichos cruéis de seu tirano: o homem! A antiga metempsicose era uma lembrança muito confusa da reencarnação e, no entanto, essa doutrina não passa de crença popular. Os grandes Espíritos admitiam a reencarnação progressiva. A massa ignorante, não compreendendo como eles o Universo, dizia naturalmente: Já que o homem reencarna, isto não pode ocorrer senão na Terra; então sua punição, seu tártaro, sua provação é a vida no corpo de um animal; absolutamente como na Idade Média os cristãos diziam: É no grande vale que se dará o julgamento, após o que os danados irão para o interior da terra, queimar-se em suas entranhas. Crendo na metempsicose, os Antigos acreditavam, portanto, em espíritos de animais, já que admitiam a passagem da alma humana para corpos de animais. Pitágoras lembrava-se de sua antiga existência e reconhecia o escudo que usava no cerco de Tróia. Sócrates morreu predizendo sua nova vida. Desde que, como vos disse, tudo é progresso no Universo, desde que as leis de Deus não são e não podem ser senão leis do progresso, do ponto de vista em que estais, do ponto de vista de vossas tendências espiritualistas, não admitir o progresso do que está abaixo do homem seria um contra-senso, uma prova de ignorância ou de completa indiferença. Como o homem, o animal tem aquilo a que chamais consciência, e que não é outra coisa senão a sensação da alma quando fez o bem ou mal. Observai e vede se o animal não dá prova de consciência, sempre relativamente ao homem. Acreditais que o cão não saiba quando fez o bem ou o mal? Se não o sentisse, não viveria. Como já vos disse, a sensação moral, a consciência, enfim, tanto existe nele como no homem; sem isso seria negar-lhe o sentimento de gratidão, o sofrimento, os pesares, em suma, todos os caracteres de uma inteligência, caracteres que qualquer homem sério pode observar em todos os animais, conforme seus diversos graus, porquanto, mesmo entre eles, há diversidades extraordinárias. Charlet V Rei da Terra pela inteligência, o homem é também um ser superior do ponto de vista material. Suas formas são harmoniosas e, para se fazer obedecer, seu Espírito tem um organismo admirável: o corpo. A cabeça do homem é alta e olha o céu, diz o Gênesis. O animal olha a Terra e, pela estrutura de seu corpo, a ela parece mais ligado que o homem. Além disso, a harmonia magnífica do corpo humano não existe no animal. Observai a infinita variedade que os distingue uns dos outros, variedade que, no entanto, não corresponde ao seu Espírito, porque os animais – e entendo sua imensa maioria – têm, quase todos, o mesmo grau de inteligência. Assim, no animal, variedade de forma; no homem, ao contrário, variedade de Espírito. Tomai dois homens que tenham gostos, aptidões e inteligência semelhantes; e tomai um cão, um cavalo, um gato, numa palavra, mil animais e dificilmente notareis diferença em sua inteligência. O Espírito dorme no animal; no homem brilha em todos os sentidos. Seu Espírito adivinha Deus e compreende a razão de ser da perfeição. Assim, pois, no homem, a harmonia simples da forma, começo do infinito no Espírito; e vede agora a superioridade do homem que domina o animal, materialmente por sua estrutura admirável e intelectualmente por suas imensas faculdades. Parece que, nos animais, aprouve a Deus variar mais a forma, encerrando o Espírito, ao passo que, no homem, fez do próprio corpo humano a manifestação material do Espírito.
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Mês Julho
Ano 1860
Revista Espírita - Pelo espírito  Charlet  através da codificação de Allan Kardec Os Animais
Igualmente admirável nessas duas criações, a Providência tanto é infinita no mundo material quanto no espiritual. O homem está para o animal como a flor e todo o reino vegetal estão para a matéria bruta. Nestas poucas linhas quis estabelecer o lugar que deve ocupar o animal na escala da perfeição. Veremos como pode elevar-se comparativamente ao homem. Charlet VI Como se eleva o Espírito? Pela submissão, pela humildade. O que perde o homem é a razão orgulhosa que o leva a desprezar todo subalterno, a invejar todo superior. A inveja é a mais viva expressão do orgulho; não é o prazer do orgulho, é o desejo doentio, incessante, de poder fruí-lo. Os invejosos são os mais orgulhosos, quando se tornam poderosos. Olhai o mestre de todos vós, o Cristo, homem por excelência, mas na mais alta fase da sublimidade. O Cristo, digo eu, em vez de vir com audácia e insolência para derrubar o mundo antigo, vem à Terra encarnar-se numa família pobre e nasce entre os animais. Porque encontrareis por toda parte esses pobres animais, a todos os instantes, onde o homem vive simplesmente com a Natureza, numa palavra, pensando em Deus. Nasce entre os animais e estes lhe exaltam o poder na sua linguagem tão expressiva, tão natural e tão simples. Vede que material para reflexão! O Espírito ainda inferior que os anima pressente o Cristo, isto é, o Espírito em toda a sua essência de perfeição. Balaão, o falso profeta, o orgulho humano em toda a sua corrupção, blasfemou contra Deus e bateu no seu animal. De repente o Espírito ilumina o Espírito ainda muito vago do jumento e este fala; por um instante torna-se igual ao homem e, por sua palavra, é o que será em milhares e milhares de anos. Poderíamos citar muitos outros fatos, mas este me parece assaz admirável, a propósito do que afirmei sobre o orgulho do homem, que nega até a sua alma, por não poder compreendê-la e vai até a negação do sentimento entre os seres inferiores, no meio dos quais o Cristo preferiu nascer. Charlet VII Eu vos entretive durante algum tempo com o que vos havia prometido. Como disse no início, não falei do ponto de vista anatômico ou médico, mas unicamente da essência espiritual que existe nos animais. Terei ainda que vos falar de muitos outros pontos que, sendo bem diferentes, não são menos úteis à doutrina. Permiti-me uma última recomendação, a de refletirdes um pouco sobre o que eu vos disse: nem é extenso, nem pedante e, crede-me, nem por isso é menos útil. Possa o Bom Pastor um dia, quando dividir suas ovelhas, contar-vos entre os bons e excelentes animais que tiverem seguido melhor os seus preceitos. Perdoai esta imagem um pouco viva. Ainda uma vez, necessitais refletir no que vos digo. Aliás, continuarei a vos falar enquanto desejardes. Terei de vos dizer outra coisa da próxima vez, para definir meu pensamento sobre a inteligência dos animais. Todo vosso, Charlet VIII Tudo quanto vos posso dizer no momento, amigos, é que vejo com prazer a linha de conduta que seguis. Que a caridade, esta virtude das almas verdadeiramente francas e nobres, seja sempre vosso guia, pois é o sinal da verdadeira superioridade. Perseverai neste caminho, que deve necessariamente conduzir-vos à verdade e à unidade, malgrado os esforços cuja força não suspeitais. A modéstia também é um dom muito difícil de adquirir; não é senhores? É uma virtude bastante rara entre os homens. Pensai que para avançar na senda do bem, no caminho do progresso, só tendes de usar a modéstia. Que seríeis sem Deus e sem seus divinos preceitos? Um pouco menos que esses pobres animais, dos quais já vos falei e sobre os quais tenho a intenção de vos entreter ainda. Cingi os rins e preparai-vos para lutar novamente, mas não fraquejeis. Pensai que não é contra Deus que lutais, como Jacó, mas contra o Espírito do mal, que tudo invade e a vós próprios, a cada instante. O que vos tenho a dizer seria muito longo para esta noite. Tenho a intenção de vos explicar a queda moral dos animais, após a queda moral do homem. Para concluir o que já vos disse sobre os animais, tomarei por título: O primeiro homem feroz e o primeiro animal tornado feroz. Desconfiai dos Espíritos maus. Não suspeitais de sua força, disse-vos há pouco. E embora esta última frase não tenha relação com a precedente, não é menos verdadeira e vem muito a propósito. Agora, refleti. Charlet Observação – O Espírito julgou por bem interromper naquele dia o assunto principal que vinha tratando, para fazer este ditado incidental, motivado por uma circunstância particular, de que se quis aproveitar. Mesmo assim o publicamos, por encerrar instruções muito úteis. IX Quando foi criado o primeiro homem, tudo era harmonia em a Natureza. A onipotência do Criador tinha posto em cada ser uma palavra de bondade, de generosidade e de amor. O homem era radioso; os animais desejavam seu olhar celeste e suas carícias eram as mesmas para eles e para sua celeste companheira. A vegetação era luxuriante. O Sol dourava e iluminava toda a Natureza, como o sol misterioso da alma, centelha de Deus, iluminava interiormente a inteligência do homem. Numa palavra, todos os reinos da Natureza apresentavam essa calma infinita, que parecia compreender Deus. Tudo parecia ter bastante inteligência para exaltar a onipotência do Criador. O céu sem nuvens era como o coração do homem, e a água límpida e azul tinha reflexos infinitos, como a alma do homem tinha os reflexos de Deus. Muito tempo depois, tudo pareceu mudar subitamente. A Natureza oprimida exalou um longo suspiro e, pela primeira vez, a voz de Deus se fez ouvir. Terrível dia de desgraça, em que o homem, que até então não tinha ouvido senão a grande voz de Deus, que em tudo lhe dizia: “Tu és imortal”, ficou apavorado com estas terríveis palavras: “Caim, por que mataste teu irmão?” Logo tudo mudou: o sangue de Abel espalhou-se por toda a Terra; as árvores mudaram de cor; a vegetação, tão rica e tão colorida, murchou; o céu tornou-se negro. Por que o animal se tornou feroz? Magnetismo todo poderoso, invencível, que então tomou cada ser; a sede de sangue, o desejo de matança brilhavam em seus olhos, outrora tão suaves, e o animal tornou-se feroz como o homem. Já que o homem era o rei da Terra, não deveria ter dado o exemplo? O animal seguiu o seu exemplo e desde então a morte pairou sobre a Terra, morte que se tornou hedionda, em vez de uma transformação suave e espiritual. O corpo do homem deveria dispersar-se no ar, como o corpo do Cristo, e dispersou-se na terra, nessa terra regada pelo sangue de Abel. E o homem trabalhou, e o animal trabalhou. Charlet
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Ano 1860