Igualmente admirável nessas duas criações, a Providência tanto é infinita no mundo material quanto no espiritual. O homem está para o animal como a flor e todo o reino vegetal estão para a matéria bruta.
Nestas poucas linhas quis estabelecer o lugar que deve ocupar o animal na escala da perfeição. Veremos como pode elevar-se comparativamente ao homem.
Charlet VI Como se eleva o Espírito? Pela submissão, pela humildade. O que perde o homem é a razão orgulhosa que o leva a desprezar todo subalterno, a invejar todo superior. A inveja é a mais viva expressão do orgulho; não é o prazer do orgulho, é o desejo doentio, incessante, de poder fruí-lo. Os invejosos são os mais orgulhosos, quando se tornam poderosos. Olhai o mestre de todos vós, o Cristo, homem por excelência, mas na mais alta fase da sublimidade. O Cristo, digo eu, em vez de vir com audácia e insolência para derrubar o mundo antigo, vem à Terra encarnar-se numa família pobre e nasce entre os animais. Porque encontrareis por toda parte esses pobres animais, a todos os instantes, onde o homem vive simplesmente com a Natureza, numa palavra, pensando em Deus. Nasce entre os animais e estes lhe exaltam o poder na sua linguagem tão expressiva, tão natural e tão simples.
Vede que material para reflexão! O Espírito ainda inferior que os anima pressente o Cristo, isto é, o Espírito em toda a sua essência de perfeição. Balaão, o falso profeta, o orgulho humano em toda a sua corrupção, blasfemou contra Deus e bateu no seu animal. De repente o Espírito ilumina o Espírito ainda muito vago do jumento e este fala; por um instante torna-se igual ao homem e, por sua palavra, é o que será em milhares e milhares de anos. Poderíamos citar muitos outros fatos, mas este me parece assaz admirável, a propósito do que afirmei sobre o orgulho do homem, que nega até a sua alma, por não poder compreendê-la e vai até a negação do sentimento entre os seres inferiores, no meio dos quais o Cristo preferiu nascer.
Charlet VII Eu vos entretive durante algum tempo com o que vos havia prometido. Como disse no início, não falei do ponto de vista anatômico ou médico, mas unicamente da essência espiritual que existe nos animais. Terei ainda que vos falar de muitos outros pontos que, sendo bem diferentes, não são menos úteis à doutrina.
Permiti-me uma última recomendação, a de refletirdes um pouco sobre o que eu vos disse: nem é extenso, nem pedante e, crede-me, nem por isso é menos útil. Possa o Bom Pastor um dia, quando dividir suas ovelhas, contar-vos entre os bons e excelentes animais que tiverem seguido melhor os seus preceitos. Perdoai esta imagem um pouco viva. Ainda uma vez, necessitais refletir no que vos digo.
Aliás, continuarei a vos falar enquanto desejardes. Terei de vos dizer outra coisa da próxima vez, para definir meu pensamento sobre a inteligência dos animais.
Todo vosso, Charlet VIII Tudo quanto vos posso dizer no momento, amigos, é que vejo com prazer a linha de conduta que seguis. Que a caridade, esta virtude das almas verdadeiramente francas e nobres, seja sempre vosso guia, pois é o sinal da verdadeira superioridade.
Perseverai neste caminho, que deve necessariamente conduzir-vos à verdade e à unidade, malgrado os esforços cuja força não suspeitais.
A modéstia também é um dom muito difícil de adquirir; não é senhores? É uma virtude bastante rara entre os homens.
Pensai que para avançar na senda do bem, no caminho do progresso, só tendes de usar a modéstia. Que seríeis sem Deus e sem seus divinos preceitos? Um pouco menos que esses pobres animais, dos quais já vos falei e sobre os quais tenho a intenção de vos entreter ainda. Cingi os rins e preparai-vos para lutar novamente, mas não fraquejeis. Pensai que não é contra Deus que lutais, como Jacó, mas contra o Espírito do mal, que tudo invade e a vós próprios, a cada instante.
O que vos tenho a dizer seria muito longo para esta noite. Tenho a intenção de vos explicar a queda moral dos animais, após a queda moral do homem. Para concluir o que já vos disse sobre os animais, tomarei por título: O primeiro homem feroz e o primeiro animal tornado feroz.
Desconfiai dos Espíritos maus. Não suspeitais de sua força, disse-vos há pouco. E embora esta última frase não tenha relação com a precedente, não é menos verdadeira e vem muito a propósito. Agora, refleti.
Charlet Observação – O Espírito julgou por bem interromper naquele dia o assunto principal que vinha tratando, para fazer este ditado incidental, motivado por uma circunstância particular, de que se quis aproveitar. Mesmo assim o publicamos, por encerrar instruções muito úteis.
IX Quando foi criado o primeiro homem, tudo era harmonia em a Natureza. A onipotência do Criador tinha posto em cada ser uma palavra de bondade, de generosidade e de amor.
O homem era radioso; os animais desejavam seu olhar celeste e suas carícias eram as mesmas para eles e para sua celeste companheira. A vegetação era luxuriante. O Sol dourava e iluminava toda a Natureza, como o sol misterioso da alma, centelha de Deus, iluminava interiormente a inteligência do homem. Numa palavra, todos os reinos da Natureza apresentavam essa calma infinita, que parecia compreender Deus. Tudo parecia ter bastante inteligência para exaltar a onipotência do Criador. O céu sem nuvens era como o coração do homem, e a água límpida e azul tinha reflexos infinitos, como a alma do homem tinha os reflexos de Deus.
Muito tempo depois, tudo pareceu mudar subitamente.
A Natureza oprimida exalou um longo suspiro e, pela primeira vez, a voz de Deus se fez ouvir. Terrível dia de desgraça, em que o homem, que até então não tinha ouvido senão a grande voz de Deus, que em tudo lhe dizia: “Tu és imortal”, ficou apavorado com estas terríveis palavras: “Caim, por que mataste teu irmão?” Logo tudo mudou: o sangue de Abel espalhou-se por toda a Terra; as árvores mudaram de cor; a vegetação, tão rica e tão colorida, murchou; o céu tornou-se negro.
Por que o animal se tornou feroz? Magnetismo todo poderoso, invencível, que então tomou cada ser; a sede de sangue, o desejo de matança brilhavam em seus olhos, outrora tão suaves, e o animal tornou-se feroz como o homem. Já que o homem era o rei da Terra, não deveria ter dado o exemplo? O animal seguiu o seu exemplo e desde então a morte pairou sobre a Terra, morte que se tornou hedionda, em vez de uma transformação suave e espiritual.
O corpo do homem deveria dispersar-se no ar, como o corpo do Cristo, e dispersou-se na terra, nessa terra regada pelo sangue de Abel. E o homem trabalhou, e o animal trabalhou.
Charlet