2ª Parte - Cap. 9: O prisioneiro do Cristo
Na mesma tarde, grande número de anciães de Israel compareciam no seu aposento. Paulo de Tarso expõe as notícias generosas do Reino de Deus, esclarece a sua posição, refere-se às preciosidades do Evangelho. Os ouvintes mostram se algo interessados, mas, ciosos de suas tradições, acabam tomando atitude reservada e duvidosa. Quando terminou a oração entusiástica, o rabi Me nandro exclamou em nome dos demais: - Vossa palavra merece nossa melhor considera ção; entretanto, amigo, ainda não recebemos nenhuma notícia d a Judéia, a vosso respeito. Temos, todavia, algum conhecimento desse Jesus a quem vos referis com ternura e veneração. Fala-se dele, em Roma, como de um revolucionário criminoso, que mereceu o suplício reservado aos ladrões e malfeitores, em Jerusalém. Su a doutrina é havida por contrária à essência da Lei de Moisés. Sem embargo, desejamos sinceramente ouvir -vos sobre o novo profeta, com a calma necessária. Por outro lado é justo que não sejamos nós, apenas, os ouvintes dessas notícias singulares. Convém qu e vossos conceitos sejam dirigidos à maioria dos nossos irmãos, a fim de que os julgamentos isolados não prejudiquem os interesses do conjunto. Paulo de Tarso percebeu a sutileza da observação e pediu que marcassem o dia da pregação a uma assembléi a maior, alvitre esse que foi recebido pelos velhos judeus com justo interesse. No dia aprazado, vasta aglomeração de israelitas comprimia -se e desbordava do quarto humilde onde o ex -rabino montara a nova tenda de trabalhos evangélicos. Ele pregou a lição da Boa Nova e explicou, pacien temente, a missão gloriosa de Jesus, desde a manhã até a tarde. Alguns raros irmãos de raça pareciam compreender os novos ensinamentos, enquanto que a maioria se entregava a interpelações ruidosas e a polêmi cas estéreis. O Apóstolo recordou o tempo de suas via gens, vendo ali a repetição exata das cenas irritantes das sinagogas asiáticas, onde os judeus se empenhavam em combates acérrimos. A noite avizinhava-se e as discussões prosseguiam acaloradas. O sol despedia-se da paisagem, dourando o cume das colinas distantes. Observando que o ex-rabino fizera uma pausa para ganhar algum fôlego, Lucas apro ximouse e confidenciou-lhe: — Dói-me constatar quanto esforço despendes para vencer o espírito do judaísmo!... Paulo de Tarso meditou alguns momentos e res pondeu: — Sim, verificar a rebeldia voluntária dá enfado ao coração; contudo, a experiência do mundo tem -me ensinado a discernir, de algum modo, a posição dos espíritos. Há duas classes de homens para as quais se torna mais dif ícil o contacto renovador de Jesus. A primeira é a que vi em Atenas e se constitui dos homens envenenados pela falaciosa ciência da Terra; homens que se cristalizam numa superioridade imaginária e muito pre sumem de si mesmos. São estes, a meu ver, os mai s infelizes. A segunda é a que conhecemos nos judeus recalcitrantes que, possuindo um patrimônio precioso do passado, não compreendem a fé sem lutas religiosas, pe trificam-se no orgulho de raça e perseveram numa falsa interpretação de Deus. De tal arte, e ntendemos melhor a palavra do Cristo, que classificou os simples e pacíficos da Terra como criaturas bem-aventuradas. Poucos gen tios cultos e raros judeus crentes na Lei Antiga estão preparados para a escola bendita da perfeição com o Divino Mestre. Lucas passou a considerar o justo conceito do Após tolo; mas, a esse tempo, as palestras ruidosas e irritan tes dos israelitas pareciam o fermento rápido de pugilatos inevitáveis, O ex-rabino, porém, desejoso de paz, subiu novamente à tribuna e exclamou: — Irmãos, evitemos as contendas estéreis e ouçamos a voz da própria consciência! Continuai examinando a Lei e os Profetas, nos quais encontrareis sempre a promessa do Messias, que já veio... Desde Moisés, todos os mentores de Israel referiram-se ao Mestre, com caracteres de fogo... Não somos culpados da vossa surdez espiritual. Invocando as discussões ferinas de há pouco, recordo a lição de Isaías quando declara que muitos hão de ver sem enxergar, e ouvir sem entender. São os espíritos endurecidos que, agravan do as próprias enfermidades, culminam em lutas desesperadoras para que Jesus possa, mais tarde, convertê-los e curá-los com o bálsamo do seu infinito amor. No entanto, podeis estar convictos de que esta mensagem será auspiciosamente re cebida pelos gentios simples e infelizes, que são, na ver dade, os bem-aventurados de Deus. A declaração franca e veemente do Apóstolo caiu na assembléia como um raio, impondo absoluto silêncio. Mas, destoando dos sentimentos da maioria, um velhinho judeu aproximou -se do convertido de Damasco e disse: — Reconheço o exato sentido da vossa palavra, mas desejaria pedir -vos que este Evangelho continuasse a ser ministrado à nossa gente. Há seguidores de Moisés bem-intencionados, que podem aproveitar o ensino de Jesus, enriquecendo-se com os seus valores eternos. O apelo carinhoso e sincero era proferido em tom comovedor. Paulo abraçou o simpatizante da nova dou trina, fundamente sensibilizado, e acrescentou: — Este aposento humilde é também vosso. Vinde conhecer o pensamento do Cristo, sempre que vos aprou ver. Podereis copiar todas as anotações que possuo. — E não ensinais na sinagoga? — Por enquanto, preso como estou, não poderei fazê -lo, mas hei de escrever uma carta aos nossos irmãos de boa -vontade. Dentro de poucos minutos, a c ompacta reunião se dissolvia com as primeiras sombras da noite. Daí por diante, aproveitando as últimas horas de cada dia, os companheiros de Paulo viram que ele es crevia um documento a que dedicava profunda atenção. Às vezes, era visto a escrever com lág rimas, como se desejasse fazer da mensagem um depósito de santas ins pirações. Em dois meses entregava o trabalho a Aris tarco para copiá-lo, dizendo: — Esta é a epístola aos hebreus. Fiz questão de grafá -la, valendo-me dos próprios recursos, pois que a de dico aos meus irmãos de raça e procurei escrevê-la com o coração. O amigo compreendeu o seu intuito e, antes de começar as cópias, destacou o estilo singular e as idéias grandiosas e incomuns. E Paulo continuou trabalhando incessantemente a benefício de to dos. A situação, como prisioneiro, era a mais confortadora possível. Fizera -se benfeitor desvelado de todos os guardas que lhe testemunhavam o esfor ço apostólico. A uns aliviara o coração com as alegrias da Boa Nova; a outros curara moléstias crônicas e dolorosas. Freqüentemente, o benefício não se restringia ao interessado, porque os legionários romanos lhe traziam os parentes, os afeiçoados e os amigos, para se benefi ciarem ao contacto daquele homem dedicado aos interes ses de Deus. Logo ao terceiro d ia deixou de ser algemado, porque os soldados dispensavam a formalidade, apenas guardando-lhe a porta como simples amigos. Não poucas vezes, esses militares benévolos o convidavam a passear pela cidade, especialmente ao longo da Via Apia, que se havia torn ado o local da sua predileção. Sensibilizado, o Apóstolo agradecia essas provas de condescendência. Os benefícios do seu convívio tornavam -se dia a dia mais evidentes. Impressionados com a sua palestra edu cativa e com as suas maneiras atenciosas, muitos legionários, antes relapsos e negligentes, transformavam Se em elementos úteis à administração e à sociedade. Os guardas começaram a disputar o serviço de sentinela ao seu aposento, e isso lhe valia pelo melhor atestado de valor espiritual. Visitado, incessantemente, por irmãos e emissários das suas igrejas queridas, da Macedônia e da Ásia, pros seguia desdobrando energias na tarefa de amorosa assistência aos amigos e colaboradores distantes, mediante cartas inspiradíssimas. Havia quase dois anos que o seu recurso a César jazia esquecido nas mesas dos juizes displicentes, quando sobreveio um acontecimento de magna importância. Certo dia, um legionário amigo levou ao convertido de Damasco um homem de feições másculas e enérgicas, aparentando quarenta anos ma is ou menos. Tratava-se de Acácio Domício, personalidade de grande influência política, e que de algum tempo tinha cegado em misteriosas cir cunstâncias. Paulo de Tarso o acolheu com bondade e, depois de impor -lhe as mãos, esclarecendo-o sobre o que Jesus desejava de quantos lhe aproveitavam a munificência, exclamou comovidamente: — Irmão, agora, convido -te a ver, em nome do Senhor Jesus -Cristo! — Vejo! Vejo! — gritou o romano tomado de júbilo infinito; e logo, num movimento instintivo, ajoelhou -se em pranto e murmurou: - Vosso Deus é verdadeiro!... Profundamente reconhecido a Jesus, o Apóstolo deu -lhe o braço para que se levantasse e, ali mesmo, Domício procurou conhecer o conteúdo espiritual da nova doutrina, a fim de reformar-se e mudar de vida. Solícito, anotou logo as informações relativas ao processo do ex -rabino, acentuando ao despedir -se: — Deus me ajudará para que possa retribuir o bem que me fizestes! Quanto à vossa situação, não duvideis do desfecho merecido, porque, na próxima semana, teremos resolvido o processo com a absolvição de César! De fato, decorridos quatro dias, o velho servidor do Evangelho foi chamado a depor. De conformidade com as ordens legais, compareceu sozinho perante os juizes, respondendo com admirável presença de espír ito às menores argUições que lhe foram desfechadas. Os magistrados patrícios verificaram a inconsistência do libelo, a infantilidade dos argumentos apresentados pelo Sinédrio e, não só atendendo à situação política de Acácio, que empenhara no feito os bons ofícios de que podia dispor, como pela profunda simpatia que a figura do Apóstolo despertava, instruíram o processo com os mais nobres pareceres, restituindo -o, por intermédio de Domício, para o veredicto do Imperador. O generoso amigo de Paulo regozijou -Se com a vitória inicial, convencido da próxima liberdade do seu ben feitor. Sem perda de tempo, mobilizou as melhores amizades, entre as quais contava Popéia Sabina, conseguindo, afinal, a absolvição imperial.
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Capítulo 9
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