Ao escrever um prefácio especial para a republicação do livro de Kilner, em 1976, Leslie Shepard lembra que o problema da aura ainda permanece no território limítrofe entre ciência e clarividência. Ainda que cauteloso quanto às conclusões do dr. Kilner, Shepard expressa suas esperanças de que novas edições da obra suscitem o interesse de modernos pesquisadores, providos, inclusive, de aparelhagem e conhecimentos mais sofisticados.
Por outro lado, a não ser a pesquisa de Boddington - e que consta, principalmente de sua obra capital, The University of Spiritualism - quase nada tem sido feito, em termos de aplicação das tecnologias indicadas pelo dr. Kilner, no estudo dos fenômenos mediúnicos, anímicos, de obsessão e possessão.
Que alterações, por exenlplo, ocorrem na aura de um médium no momento em que se acha sob a influência de um espírito desencarnado? Em que pontos ou setores da aura se ligam os perispíritos de seres encarnados e desencarnados? Que distúrbios provoca o acoplamento do perispírito de um invasor espiritual em sua vítima? Que características especiais oferece a aura de um médium em potencial ou em atividade?
Que alterações ocorrem na aura de uma pessoa que ministra passes ou que os recebe?
Inúmeras são as referências de Harry Boddington à aura, em seus escritos, mas é no capítulo VIII - Marvels of human aura - de The university of spiritualism, que encontramos uma exposição mais ampla sobre o assunto. Para não expandir o nosso próprio estudo além dos limites que estamos procurando impor-lhe, tentarei um resumo das principais observações de competente autor inglês.
1) A aura é uma espécie de radiação luminosa que envolve o corpo humano, sendo constituída por inúmeras partículas de energia.
2) Essa radiação é singularmente sensível ao pensamento, ao qual responde com presteza.
3) A aura funciona como parte integrante da consciência.
4) Sua qualidade - aspecto, coloração, formato - varia segundo os temperamentos, o caráter e a saúde das pessoas.
5) Ela é "essencial a todas as manifestações psíquicas" e o meio através do qual operam os médiuns de cura, além de atuar como o próprio princípio ativo da cura.
6) "O fato de algumas pessoas serem médiuns e outras não, levou os espíritas a aceitarem, como hipótese de trabalho, a teoria de que os médiuns irradiam uma substância psíquica específica, que forma um vínculo semimaterial entre eles próprios e seus comunicantes invisíveis."
7) "Está provado que, a não ser que o magnetismo dos espíritos se mescle harmoniosamente com o dos sensitivos, eles não conseguem fazer notar sua presença.
8) Devidamente manipulada e condensada por um impulso da vontade - já vimos que ela se deixa influenciar facilmente pelo pensamento -, a aura se apresenta como ectoplasma, matéria prima para a produção de pequenos bastões, pseudópodes, ou materializações. Como ela reage ao pensamento e ao choque, exatamente como o corpo humano, pode-se concluir que ela constitui uma extensão do sistema nervoso.
9) A formação desses bastonetes e pseudópodes nas sessões de materialização resulta, na opinião de Boddington, de um esforço consciente da vontade do médium e não de uma inconsciente exteriorização sua, segundo afirmam os materialistas e negadores em geral.
Faço uma pausa para dizer algo acerca do termo pseudópode que, literalmente, quer dizer, pé falso. O dicionário de Aurélio nos diz que a palavra serve para conceituar a "saliência protoplasmática que se forma na periferia dos leucócitos e das amebas e outros protozoários, servindo-lhes para a locomoção". Esta é a razão pela qual se chamam pés falsos, porque não são a rigor, pés, mas servem para caminhar. No caso da fenomenologia psíquica de efeitos físicos, especialmente nos deslocamentos de objetos, a formação de pseudópodes observada e experiências com Eusápia e outros médiuns não se trata de uma saliência protoplasmática, como na biologia, mas de saliência ectoplasmática. É com esse tipo de pseudópode ou bastonete, já fotografados em algumas experiências que o sensitivo consegue deslocar objetos sem tocá-los com qualquer membro ou parte de seu corpo físico.
Prossigamos, no entanto, com Boddington e suas observações acerca da aura.
10) A aura não deve ser considerada como uma força cega, de vez que a consciência opera através dela da mesma forma que operamos atraves do sistema nervoso.
Discorrendo sobre as diversas cores da aura e seu significado, em termos de saúde física e características de temperamento e caráter, Boddington oferece um amplo quadro classificatório que não nos parece necessário reduzir aqui. Uma de suas observações sobre as sessões mediúnicas, contudo é o que se diria 'imperdível', e está apresentada da seguinte maneira harmonia prevalece" (entre os componentes do grupo), "as cores se mesclam mas, se verificar-se uma lacuna entre dois participantes, eles devem ser deslocados até que a falha desapareça."
Se as cores se recusam a mesclar-se, é melhor que os participantes desarmônicos se retirem do grupo ou, então, os resultados serão insatisfatórios. A aura de um novo participante pode anular completamente resultados positivos obtidos de outras vezes em que ele não se achava presente. Por outro lado, dois médiuns aparentemente do mesmo tipo, nem sempre intensificam o fenômeno. Ao contrário, sabe-se de casos em que um destrói a influência do outro. Um espírito amigo de Cora Tappan, e que se identificava como Benjamim Franklin, declarou que isto, às vezes, é devido ao fato de que um deles produz uma energia elétrica, ao passo que no outro ela é fosfórica.
Separados, podem produzir fenômenos de natureza semelhante, mas, juntos, neutralizam-se mutuamente.
Devo acrescentar que a mixagem das cores deve ter sido observada e comunicada a Boddington pela sua esposa nas inúmeras experiências que realizou com ela, que dispunha desse tipo de faculdade. No meu entender a observação faz sentido. Cada um de nós tem uma vibração própria que, à visão dos sensitivos dotados da faculdade específica, pode traduzir-se em cores diversas. Não é de se admirar que certas vibrações não se combinem entre si e que outras se oponham ou se anulem mutuamente. Todos nós que lidamos com a mediunidade em ação sabemos que há pessoas que, introduzidas num grupo mediúnico, podem paralisar e neutralizar os melhores médiuns, ainda que involuntária ou inconscientemente.
Comigo mesmo ocorreu coisa parecida. Fui convidado, certa vez, para presenciar o trabalho de certa senhora que andava muito em evidência pelas suas manifestações ditas mediúnicas, em contato com seres interplanetários. Sem que houvesse o menor esforço negativo de minha parte - pelo contrário, eu estava interessado em observar a coisa, com absoluta isenção - a moça não conseguiu praticamente nada naquela noite.
Eram óbvios o seu desapontamento e a perplexidade e mal-estar dos demais circunstantes, habituados às palestras com os misteriosos seres invisíveis, bem como meu próprio constrangimento. Devo ter deixado entre eles uma impressão horrenda de 'pé-frio'. Prefiro concluir, com Boddington, que as nossas cores não se misturaram, de jeito nenhum ...
É precisamente por causa da necessidade de uma harmonização entre as auras, que Boddington lembra que os espíritos estão constantemente a advertir quanto ao uso de drogas, álcool, alimentação inadequada e todos os hábitos, enfim, que "aviltem a mente ou esgotem os nervos". A aura, acrescenta ele, está "indissoluvelmente ligada a todos os órgãos do corpo do qual exala como o perfume de uma flor".
Não há como evitar, portanto, que substâncias tóxicas ingeridas ou pensamentos desarmoniosos admitidos afetem substancialmente a aura, produzindo distúrbios consideráveis no processo da comunicação mediúnica. Isso porque, não apenas a aura do médium tem de estar em boas condições vibratórias de limpeza energética, mental e emocional a fim de que possa oferecer seus encaixes aos espíritos manifestantes, como as auras dele e dos demais precisam estar adequadamente harmonizadas no grupo, como um todo. Se um participante comparece com elevada dosagem de álcool no sangue ou com uma refeição pesada, em processo de digestão, será impraticável sua integração harmoniosa no grupo. Os espíritos nos dizem que em tais casos aplicam o recurso extremo de isolar a criatura para que, já que não pode ajudar, pelo menos não perturbe os trabalhos, uma vez que sua aura se apresenta literalmente suja e desarrumada.
Pelas suas implicações na temática da aura e pelas interessantes observações e ensinamentos que proporciona, julguei oportuno incluir neste módulo uma notícia acerca do livro do dr. Carl A. Wickland, Thirty Years Among The Dead, um clássico entre os estudos do fenômeno psíquico.
Sob orientação de amigos espirituais, que começaram a manifestar-se através da sua esposa, o dr. Wickland passou a cuidar, com êxito para ele inesperado, de distúrbios mentais e psicossomáticos em pacientes vitimados por influências espirituais indesejáveis.
Segundo depoimento consistente dos próprios espíritos, usualmente sem consciência de que haviam 'morrido', eles eram atraídos pela aura de certas pessoas, conhecidas ou desconhecidas, e ali permaneciam como que aprisionados e em grande confusão mental. Como que aderidos ou imantados ao perispírito dos encarnados, viviam, às vezes, várias entidades em disputa feroz pela posse do corpo da vítima, que cada um julgava pertencer-lhe.
O dr. Wickland mandou construir um aparelho especial, com o qual aplicava no paciente obsidiado um choque elétrico que desalojava os espíritos ligados à sua aura, logo verificou, contudo, que, passada a desagradável sensação do choque, eles voltavam à condição anterior e davam prosseguimento ao conflito pela posse do corpo, do qual cada um deles, inclusive o encarnado procurava expulsar os demais.