Capítulo 19
A dissertação que se segue, dada espontaneamente por um Espírito superior, que se revelou mediante comunicação de ordem elevadíssima, resume de modo claro e completo a questão do papel do médium: “Qualquer que seja a natureza dos médiuns escreventes, sejam mecânicos, semimecânicos ou simplesmente intuitivos, os nossos processos de comunicação com eles praticamente não variam. De fato, nós nos comunicamos com os Espíritos encarnados dos médiuns, da mesma forma que com os Espíritos propriamente ditos, tão só pela irradiação do nosso pensamento. “Os nossos pensamentos não precisam da vestimenta da palavra para serem compreendidos pelos Espíritos, e todos os Espíritos percebem os pensamentos que desejamos transmitir-lhes, bastando, para isso, que lhes dirijamos esses pensamentos, em razão de suas faculdades intelectuais. Quer dizer que tal pensamento pode ser compreendido por tais ou quais Espíritos, conforme o adiantamento deles, ao passo que para outros, por não despertarem nenhuma lembrança, nenhum conhecimento que lhes dormitem no fundo do coração, ou do cérebro, esses mesmos pensamentos não lhes são perceptíveis. Neste caso, o Espírito encarnado que nos serve de médium é mais apto a exprimir o nosso pensamento a outros encarnados, embora não o compreenda, coisa que um Espírito desencarnado, mas pouco adiantado não poderia fazer, se fôssemos obrigados a servir-nos dele, porque o ser terreno põe seu corpo, como instrumento, à nossa disposição, o que o Espírito errante não pode fazer. “Assim, quando encontramos em um médium o cérebro repleto de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes, obtidos em vidas anteriores, suscetíveis de nos facilitarem as comunicações, preferimos nos servir dele, porque com ele o fenômeno da comunicação se torna muito mais fácil para nós do que com um médium de inteligência limitada e de escassos conhecimentos, adquiridos anteriormente. Vamos nos fazer compreender por meio de algumas explicações claras e precisas. “Com um médium, cuja inteligência atual ou anterior se ache desenvolvida, o nosso pensamento se comunica, instantaneamente, de Espírito a Espírito, graças a uma faculdade peculiar à essência mesma do Espírito. Nesse caso, encontramos, no cérebro do médium, os elementos apropriados a dar ao nosso pensamento a vestimenta da palavra que lhe corresponda e, isto, quer o médium seja intuitivo, semimecânico ou inteiramente mecânico. É por isso que, seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, ainda que procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal. Com efeito, apesar de o pensamento não lhe ser de todo estranho, não obstante o assunto esteja fora do âmbito em que ele habitualmente se move, e embora não provenha dele o assunto que nós queremos dizer, nem por isso o médium deixa de exercer influência quanto à forma, pelas qualidades e propriedades inerentes à sua individualidade. É exatamente como se observásseis panoramas diversos, com lentes matizadas, verdes, brancas ou azuis; embora os panoramas, ou objetos observados, sejam inteiramente opostos e independentes uns dos outros, não deixam por isso de afetar uma tonalidade que provém das cores das lentes. “Melhor ainda: comparemos os médiuns a esses recipientes de vidro cheios de líquidos coloridos e transparentes que se veem nos mostruários dos laboratórios farmacêuticos. Pois bem, nós somos como luzes que clareiam certos panoramas morais, filosóficos e internos, através dos médiuns azuis, verdes ou vermelhos, de tal sorte que os nossos raios luminosos, obrigados a passar através de vidros mais ou menos lapidados, mais ou menos transparentes, isto é, de médiuns mais ou menos inteligentes, só chegam aos objetos que desejamos iluminar, tomando a coloração, ou melhor, a forma de dizer própria e particular desses médiuns. “Enfim, para terminar com uma última comparação: nós, os Espíritos, somos quais compositores de música que, tendo composto e querendo improvisar uma ária, só têm à mão um piano, um violino, uma flauta, um fagote ou uma gaita de dez centavos. É incontestável que, com o piano, o violino ou a flauta, executaremos a nossa composição de modo muito compreensível para os nossos ouvintes. Embora os sons produzidos pelo piano, pelo fagote ou pela clarineta sejam essencialmente diferentes entre si, nem por isso a composição deixará de ser idêntica em qualquer desses instrumentos, exceto os matizes do som. Mas se só tivermos à nossa disposição uma gaita de dez centavos ou um instrumento improvisado, aí está para nós a dificuldade. “De fato, quando somos obrigados a servir-nos de médiuns pouco adiantados, o nosso trabalho se torna mais demorado e penoso, pois somos forçados a recorrer a formas incompletas, o que constitui para nós uma complicação. Somos então forçados a decompor os nossos pensamentos e a ditar palavra por palavra, letra por letra, representando isso uma fadiga e um aborrecimento, assim como um entrave real à presteza e ao desenvolvimento das nossas manifestações. “É por isso que nos sentimos felizes quando encontramos médiuns bem adestrados, bem aparelhados, munidos de materiais prontos a serem utilizados, bons instrumentos, em suma, porque então o nosso perispírito, atuando sobre o perispírito daquele a quem mediunizamos, nada mais tem a fazer senão impulsionar a mão que nos serve de lapiseira ou de caneta. Já com os médiuns mal aparelhados, somos obrigados a realizar um trabalho análogo ao que executamos quando nos comunicamos por meio de pancadas, isto é, formando letra por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que traduzem os pensamentos que queiramos transmitir. “É por estas razões que nos dirigimos de preferência às classes cultas e instruídas, para a divulgação do Espiritismo e para o desenvolvimento das faculdades mediúnicas escreventes, embora seja nessas classes que se encontrem os indivíduos mais incrédulos, mais rebeldes e mais imorais. É que, assim como deixamos hoje, aos Espíritos galhofeiros e pouco adiantados, o exercício das comunicações tangíveis, de pancadas e transportes, assim também os homens pouco sérios preferem o espetáculo dos fenômenos que lhes afetam os olhos ou os ouvidos, aos fenômenos puramente espirituais, meramente psicológicos. “Quando queremos transmitir ditados espontâneos, atuamos sobre o cérebro, sobre os arquivos do médium e preparamos os nossos materiais com os elementos que ele nos fornece e isto à sua revelia. É como se tomássemos de sua bolsa as somas que ele aí possa ter e dispuséssemos as moedas que a compõem na ordem que nos parecesse mais conveniente. “Entretanto, quando é o próprio médium que nos quer interrogar, seria bom que refletisse seriamente no que acabamos de dizer, a fim de fazer com método as suas perguntas, facilitando assim o nosso trabalho de responder a elas. Porque, como já vos dissemos em instrução anterior, o vosso cérebro está frequentemente em inextricável desordem, sendo para nós tão difícil quanto penoso mover-nos no labirinto dos vossos pensamentos. Quando as perguntas são feitas por um terceiro, convém que sejam comunicadas previamente ao médium, para que este se identifique com o Espírito do evocador e dele, por assim dizer, se impregne, porque, então, nós outros teremos mais facilidade para responder, graças à afinidade existente entre o nosso perispírito e o do médium que nos serve de intérprete. “Sem dúvida, podemos falar de Matemática, servindo-nos de um médium que a desconheça por completo; porém, quase sempre, o Espírito desse médium possui, em estado latente, conhecimento do assunto, isto é, conhecimento peculiar ao ser fluídico, e não ao ser encarnado, por ser o seu corpo atual um instrumento rebelde ou contrário a esse conhecimento. O mesmo se dá com a Astronomia, com a poesia, com a Medicina, com as diversas línguas, assim como com todos os outros conhecimentos peculiares à espécie humana. Enfim, ainda temos como meio penoso de elaboração, para ser usado com médiuns completamente estranhos ao assunto tratado, o da reunião das letras e das palavras, uma a uma, como em tipografia. “Conforme já dissemos, os Espíritos não precisam revestir seus pensamentos; eles os percebem e transmitem naturalmente entre si, pelo só fato de os pensamentos existirem neles. Os seres corpóreos, ao contrário, só podem perceber os pensamentos quando revestidos. Enquanto a letra, a palavra, o substantivo, o verbo, a frase, em suma, vos são necessários para perceberdes as ideias, ainda que mentalmente, nenhuma forma visível ou tangível é necessária para nós.” ERASTO E TIMÓTEO OBSERVAÇÃO – Esta análise do papel dos médiuns e dos processos pelos quais os Espíritos se comunicam é tão clara quanto lógica. Dela resulta o princípio de que o Espírito haure, não as ideias do médium, mas sim os materiais necessários para exprimi-las, que ele encontra no cérebro do médium. Quanto mais rico em materiais for esse cérebro, tanto mais fácil será a comunicação. Quando o Espírito se exprime num idioma familiar ao médium, encontra neste, inteiramente formadas, as palavras necessárias ao revestimento da ideia; se o faz numa língua estranha ao médium, não encontra neste as palavras, mas apenas as letras. É por isso que o Espírito se vê obrigado a ditar, por assim dizer, letra a letra, exatamente como se exigíssemos que escrevesse em alemão uma pessoa que não conheça uma única palavra dessa língua. Se o médium não souber ler nem escrever, não dispõe nem mesmo das letras em seu cérebro. Torna-se necessário, então, que o Espírito lhe conduza a mão, como se faz a uma criança que começa a aprender, sendo ainda maior, nesse caso, a dificuldade que o Espírito encontra para vencer.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo O papel dos médiuns nas comunicações espíritas
Tema Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns⁴⁸
Item 225