O Espírito que deseja comunicar-se compreende, sem dúvida, todas as línguas, visto que as línguas são a expressão do pensamento e é pelo pensamento que o Espírito tem a compreensão de tudo, mas para exprimir esse pensamento, ele precisa de um instrumento e esse instrumento é o médium. A alma do médium, que recebe a comunicação do Espírito estranho, só pode transmiti-la por meio dos órgãos de seu corpo; ora, esses órgãos não podem ter, para uma língua que o médium desconheça, a flexibilidade que apresentam para a língua que lhe é familiar.
Um médium que apenas saiba o francês poderá, acidentalmente, dar uma resposta em inglês, por exemplo, se ao Espírito apraz fazê-lo, mas os Espíritos, que já acham muito lenta a linguagem humana, em confronto com a rapidez do pensamento, a ponto de abreviá-la quando podem, impacientam-se com a resistência mecânica que encontram; por isso, nem sempre o fazem. Essa também é a razão por que um médium novato, que escreve penosamente e com lentidão, ainda que na sua própria língua, em geral não obtém mais do que respostas breves e sem desenvolvimento. Por isso, os Espíritos recomendam que só se dirijam a tais médiuns perguntas muito simples. Para as de grande alcance, é necessário um médium desenvolvido, que não ofereça nenhuma dificuldade mecânica ao Espírito. Não escolheríamos para ler um texto um estudante que estivesse aprendendo a soletrar. Um bom operário não gosta de servir-se de maus instrumentos.
Acrescentemos outra consideração de muita gravidade, no que diz respeito às línguas estrangeiras. Os ensaios deste gênero são sempre feitos por curiosidade e por experiência; ora, nada é mais antipático aos Espíritos do que as provas a que tentam submetê-los. Os Espíritos superiores jamais se prestam a elas, afastando-se logo que se pretenda enveredar por esse caminho. Tanto se comprazem nas coisas úteis e sérias, quanto lhes repugna se ocuparem com coisas fúteis e sem objetivo. É, replicarão os incrédulos, para nos convencermos e esse fim é útil, já que pode conquistar adeptos para a causa dos Espíritos. A isso respondem os Espíritos: “A nossa causa não precisa dos que têm orgulho bastante para se suporem indispensáveis. Chamamos a nós os que queremos e estes são quase sempre os mais humildes e os pequenos. Porventura Jesus fez os milagres que os escribas lhe pediam? E de que homens o Cristo se serviu para revolucionar o mundo? Se quiserdes convencer-vos, dispondes de outros meios que não a força; começai por submeter-vos: não é normal que o discípulo imponha sua vontade ao mestre”.
Resulta daí, salvo algumas exceções, que o médium exprime o pensamento dos Espíritos pelos meios mecânicos que estão à sua disposição, e também que a expressão desse pensamento pode e deve mesmo, na maioria das vezes, ressentir-se da imperfeição de tais meios. Assim, o homem inculto, o camponês, poderá dizer as mais belas coisas, expressar as mais elevadas ideias, os pensamentos mais filosóficos, falando como camponês, pois, como se sabe, para os Espíritos o pensamento está acima de tudo. Isto responde a certas críticas a propósito das incorreções de estilo e de ortografia, que se atribuem aos Espíritos, mas que tanto podem provir deles como do médium. Apegar-se a tais coisas não passa de futilidade. Não é menos pueril que se atenham a reproduzir essas incorreções com exatidão minuciosa, conforme temos visto fazerem algumas vezes. Podemos, pois, corrigi-las sem qualquer escrúpulo, a menos que caracterizem o Espírito que se comunica, caso em que é bom conservá-las, como prova de identidade. Assim é, por exemplo, que temos visto um Espírito escrever, constantemente, Jule (sem o s final), falando a seu neto Jules, porque, quando vivo, escrevia desse modo, embora o neto, que lhe servia de médium, soubesse perfeitamente escrever o seu nome.