Nota Bibliográfica – A religião e a política na sociedade moderna
A RELIGIÃO E A POLÍTICA NA SOCIEDADE MODERNA Por Frédéric Herrenschneider O Sr. Herrenschneider é um antigo são-simonista e foi aí que colheu seu ardente amor ao progresso. Depois se tornou espírita e, contudo, estamos longe de partilhar sua maneira de ver sobre todos os pontos e aceitar todas as soluções que dá. A sua é uma obra de alta filosofia, em que o elemento espírita ocupa um lugar importante. Não a examinaremos senão do ponto de vista da concordância e da divergência de suas idéias, no que diz respeito ao Espiritismo. Antes de entrar no exame de sua teoria, algumas considerações preliminares nos parecem essenciais. Três grandes doutrinas dividem os espíritos, sob os nomes de religiões diferentes e filosofias muito distintas: são o materialismo, o espiritualismo e o Espiritismo. Ora, pode-se ser materialista e crer ou não crer no livre-arbítrio do homem; no segundo caso é-se ateu ou panteísta; no primeiro é-se inconseqüente e ainda se toma o nome de panteísta ou de naturalista, positivista, etc. A criatura é espiritualista desde que não é materialista, isto é, desde que admite um princípio espiritual distinto da matéria, seja qual for a idéia que se faça de sua natureza e de seu destino. Os católicos, os gregos, os protestantes, os judeus, os muçulmanos, os deístas são espiritualistas, a despeito das diferenças essenciais de dogmas que os dividem. Os espíritas fazem da alma uma idéia mais clara e mais precisa; não é um ser vago e abstrato, mas um ser definido, que reveste uma forma concreta, limitada, circunscrita. Independentemente da inteligência, que é a sua essência, ela tem atributos e efeitos especiais, que constituem os princípios fundamentais de sua doutrina. Admitem: o corpo fluídico ou perispírito; o progresso indefinido da alma; a reencarnação ou pluralidade das existências, como necessidade do progresso; a pluralidade dos mundos habitados; a presença em nosso meio das almas ou Espíritos que viveram na Terra e a continuação de sua solicitude pelos vivos; a perpetuidade das afeições; a solidariedade universal, que liga os vivos e os mortos; os Espíritos de todos os mundos e, em conseqüência, a eficácia da prece; a possibilidade de comunicação com os Espíritos dos que não vivem mais; no homem, a visão espiritual ou física, que é um efeito da alma. Rejeitam o dogma das penas eternas, irremissíveis, como inconciliável com a justiça de Deus; mas admitem que a alma, depois da morte, sofra e suporte as conseqüências de todo o mal que fez durante a vida, de todo o bem que poderia ter feito e não fez. Seus sofrimentos são a conseqüência natural de seus atos; duram enquanto durar a perversidade ou a inferioridade moral do Espírito; diminuem à medida que ele se melhora e cessam pela reparação do mal, reparação que ocorre nas existências corporais sucessivas. Tendo sempre sua liberdade de ação, o Espírito é, assim, o próprio artífice de sua felicidade e de sua desgraça, neste mundo e no outro. O homem não é levado fatalmente nem ao bem, nem ao mal; realiza um e outro por sua vontade e se aperfeiçoa pela experiência. Em decorrência desse princípio, os espíritas não admitem os demônios fadados ao mal, nem a criação especial de anjos predestinados à felicidade infinita, sem terem tido o trabalho de a merecer. Os demônios são Espíritos humanos ainda imperfeitos, mas que melhorarão com o tempo; os anjos, Espíritos chegados à perfeição, depois de haverem passado, como os outros, por todos os graus da inferioridade. O Espiritismo não admite, para cada um, senão a responsabilidade de seus próprios atos; segundo ele, o pecado original é pessoal, consistindo nas imperfeições que cada indivíduo traz ao nascer, porque delas ainda não se despojou em suas existências precedentes, e cujas conseqüências sofre naturalmente na existência atual. Também não admite, como suprema recompensa final, a inútil e beata contemplação dos eleitos por toda a eternidade; mas, ao contrário, uma atividade incessante de alto a baixo da escala dos seres, em que cada um tem atribuições em conformidade com o seu grau de adiantamento. Tal é, de forma muito resumida, a base das crenças espíritas. A gente é espírita desde o momento em que se entra nesta ordem de idéias, ainda mesmo quando não se admitissem todos os pontos da Doutrina em sua integridade ou em todas as suas conseqüências. Por não ser espírita completo não se é menos espírita, o que faz que por vezes se o seja sem saber, algumas vezes sem o querer confessar e que, entre os sectários das diferentes religiões, muitos são espíritas de fato, quando não de nome. Para os espiritualistas, a crença comum é acreditar num Deus criador e admitir que, após a morte, a alma continue a existir, sob a forma de Espírito puro, completamente desligada de toda a matéria e, também, que ela poderá, com ou sem a ressurreição de seu corpo material, fruir de uma existência eterna, ditosa ou infeliz. Os materialistas, ao contrário, crêem que a força é inseparável da matéria e não pode existir sem ela; assim, Deus não é para eles senão uma hipótese gratuita, a menos que seja a própria matéria; os materialistas negam com toda a sua força a concepção de uma alma essencialmente espiritual e de uma personalidade sobrevivente à morte. Sua crítica é fundada, no que concerne à alma, tal qual a aceitam os espiritualistas, no sentido de que, sendo a força inseparável da matéria, uma alma pessoal, ativa e poderosa, não pode existir como um ponto geométrico no espaço, sem dimensão de qualquer espécie, nem comprimento, nem largura, nem altura. Que força, que poder, que ação pode ter uma tal alma sobre o corpo durante a vida? que progresso pode realizar e de que maneira conserva o seu traço, visto que nada é? como poderia ser susceptível de felicidade ou infelicidade após a morte? perguntam eles aos espiritualistas. Não há por que dissimular essa argumentação especiosa, embora ela seja sem valor contra a doutrina dos espíritas. Eles admitem mesmo a alma distinta do corpo, como os espiritualistas, com uma vida eterna e uma personalidade indestrutível, mas consideram essa alma como indissoluvelmente unida à matéria; não à matéria do próprio corpo, mas a uma outra, mais etérea, fluídica e incorruptível, que chamam perispírito, palavra feliz, que bem exprime o pensamento que é a origem e a base mesma do Espiritismo. Se resumirmos as três doutrinas, diremos que: 1o – Para os materialistas, a alma não existe; ou, se existe, confunde-se com a matéria, sem nenhuma personalidade distinta fora da vida presente, em que essa personalidade é mesmo mais aparente do que real; 2o – Para os espiritualistas, a alma existe no estado de Espírito, independente de Deus e de toda matéria; 3o – Para os espíritas, a alma é distinta de Deus, que a criou, inseparável de uma matéria fluídica e incorruptível, que se pode chamar perispírito. Esta explicação preliminar permitirá compreender que existem espíritas sem o saber. Com efeito, desde que não se seja materialista, nem espiritualista, não se pode ser senão espírita, apesar da repugnância que alguns parecem experimentar por esta qualificação. Eis-nos bem longe das apreciações fantasistas dos que imaginam que o Espiritismo não repousa senão na evocação dos Espíritos. Entretanto, há espíritas que jamais fizeram uma evocação; outros que jamais as viram, nem se preocupam em as ver, pois sua crença dispensa esse recurso; e por se apoiar somente na razão e no estudo, essa crença não é menos completa e menos séria. Pensamos mesmo que é sob sua forma filosófica e moral que o Espiritismo encontra os mais firmes e mais convictos aderentes; as comunicações não passam de meios de convicção, de demonstração e, sobretudo, de consolação. Não se deve a elas recorrer senão com reserva, e quando já se sabe bem o que se quer obter. Não que as comunicações sejam partilha exclusiva dos espíritas; muitas vezes elas ocorrem espontaneamente e, por vezes mesmo, em meios hostis ao Espiritismo, do qual são independentes. Com efeito, não são senão o resultado de leis e ações naturais, que os Espíritos ou os homens podem utilizar, uns ou outros, quer independentemente, quer de acordo entre si. Mas, assim como é prudente pôr instrumentos de Física, de Química e de Astronomia apenas nas mãos dos que deles sabem servir-se, convém não provocar comunicações senão quando possam ter uma utilidade real, e jamais com vistas a satisfazer uma curiosidade pueril. Dito isto, podemos examinar a obra notável do Sr. Herrenschneider. É a obra de um profundo pensador e de um espírita convicto, se não completa, mas não aprovamos todas as conclusões a que chega. O Sr. Herrenschneider admite a existência de um Deus criador, em tudo presente na Criação, penetrando todos os corpos com sua substância fluídica e se achando em nós como nós nele. É a notável solução que o Sr. Allan Kardec apresentou na sua obra A Gênese, a título de hipótese. Mas, segundo o autor, no começo Deus enchia todo o espaço; teria criado cada ser retirando-se do lugar, que lhe concedia, para lhe deixar o livre desenvolvimento, sob sua proteção incessante. Esse desenvolvimento progressivo opera-se, a princípio, sob o efeito necessário das leis da Natureza e pela coerção do mal; depois, quando o Espírito já progrediu suficientemente, pode juntar a sua própria ação à ação fatal das leis naturais, para ativar o seu progresso.
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Mês Junho
Ano 1868