Nota Bibliográfica – A religião e a política na sociedade moderna
Durante toda essa fase da existência dos seres, que começa pela molécula do mineral, prossegue no vegetal, desenvolve-se no animal e se determina no homem, o Espírito recolhe e conserva conhecimentos por seu perispírito, adquirindo, assim, uma certa experiência. Os progressos que se realizam são de grande lentidão e, quanto mais lentos, mais se multiplicam as encarnações. Como se vê, o autor adota os princípios científicos do progresso dos seres, emitidos por Lamarck, Geoffroy Saint-Hilaire e Darwin, com a diferença de que a ação moderadora das formas e dos órgãos animais já não é apenas o resultado da seleção e da concorrência vital, mas, também e sobretudo, o efeito da ação inteligente do espírito animal, modificando incessantemente as formas e a matéria, que reveste para realizar uma apropriação mais conforme à experiência que adquiriu. É nesta ordem de idéias que queríamos ter visto o autor insistir sobre a ação benéfica e afetuosa dos seres mais elevados, concorrendo para o adiantamento dos mais fracos, guiando-os e protegendo-os por um sentimento de simpatia e de solidariedade, cujo desenvolvimento é felizmente apresentado no livro A Gênese e em todas as obras do Sr. Allan Kardec. O Sr. Herrenschneider não fala da ação recíproca de uns seres sobre os outros, senão do triste ponto de vista da ação maléfica e do progresso necessário, que resulta do mal na Natureza. Sobre este ponto, ele bem compreendeu que o mal é apenas relativo, e que é uma das condições mesmas do progresso. Esta parte de seu trabalho é bem desenvolvida. “Criados, diz ele, em extrema fraqueza, em extrema preguiça e devendo ser os meios do nosso próprio fim, somos obrigados a chegar à perfeição e ao poder, à felicidade e à liberdade por nossos próprios esforços; nosso destino é ser em tudo e por toda parte os filhos de nossas obras, criar-nos a nossa unidade, a nossa personalidade, a nossa originalidade, tão bem quanto a nossa felicidade. “Eis, em minha opinião, quais são os desígnios de Deus a nosso respeito. Mas, para o conseguir, evidentemente o Criador não nos pode abandonar a nós mesmos, porque, criados nesse estado ínfimo e molecular, estamos naturalmente mergulhados num profundo entorpecimento; aí teríamos mesmo ficado perpetuamente, e jamais teríamos dado um passo à frente se, para nos despertar, para tornar sensível a nossa substância inerte e para ativar a nossa força privada de iniciativa, Deus não nos tivesse submetido a um sistema de coerção, que nos prende à nossa origem, jamais nos deixa e nos força a desenvolver esforços para satisfazer às necessidades e aos instintos morais, intelectuais e materiais, de que nos tornou escravos, em conseqüência do sistema de encarnação, que dispôs para este fim.” Indo mais longe que os estóicos, que pretendiam que a dor, que não passava de uma palavra, vê-se que os espíritas chegam a pronunciar esta fórmula estranha: que o próprio mal é um bem, no sentido de que a ele conduz fatalmente, necessariamente. Em tudo o que precede, faremos ao autor a crítica de haver esquecido que a mais estreita solidariedade liga todos os seres, e que os melhores de todos são os que, tendo compreendido melhor este princípio, o põem em ação incessantemente, de tal sorte que todos os seres na Natureza concorrem para o objetivo geral e para o progresso uns dos outros: uns sem o saber e sob o impulso de seus guias espirituais; outros, compreendendo o seu dever de elevar e de instruir os que os cercam, ou que deles dependem, e se ajudando com o concurso dos mais adiantados que eles próprios. Hoje todo o mundo compreende que os pais devem aos seus filhos uma educação conveniente, e que os que são felizes, instruídos e adiantados devem ajudar os pobres, os sofredores e os ignorantes. Em conseqüência, deve-se compreender a utilidade da prece, que nos põe em relação com os Espíritos que nos podem guiar. Não nos acontece pedir aos que vivem como nós? que são nossos superiores ou nossos iguais? e nossa vida pode passar sem esse perpétuo apelo, que fazemos ao concurso dos outros? Não é, pois, admirável que, ouvindo-nos, os que não vivem mais sejam igualmente sensíveis às nossas preces, na medida do que podem fazer, como, aliás, o teriam feito em vida. Por vezes dá-se a quem não pediu, mas se dá sobretudo aos que pedem. Batei, e se vos abrirá; pedi, e se for possível, sereis atendidos. Não creiais que tudo vos seja devido e que deveis esperar os benefícios sem os pedir e sem os merecer; não creiais que tudo chegue fatalmente e necessariamente, mas, ao contrário, refleti que estais no meio de seres livres e voluntários, tão numerosos quanto a areia do mar, e que a sua ação pode juntar-se à vossa, a pedido vosso e segundo a sua simpatia, que é preciso saber merecer. Orar é um meio de agir sobre os outros e sobre si mesmo, mas não é este o momento de desenvolver este assunto importante. Digamos apenas que a prece não vale senão quando acompanha o esforço ou o trabalho, e nada pode sem este, enquanto o trabalho e os esforços gerais podem muito bem substituir a prece. É sobretudo entre os espíritas que se admite este velho adágio: Trabalhar é orar. A parte mais importante do livro do Sr. Herrenschneider é aquela onde ele faz o que se poderia chamar a psicologia da alma, concebida tal qual a compreendem os espíritas. Neste ponto de vista, seu trabalho é novo e dos mais curiosos. O autor determina claramente os fenômenos dependentes do perispírito, e como tem à disposição do espírito a soma inteira de seus progressos anteriores, conserva o traço dos esforços e dos progressos novos tentados e realizados pelo ser, seja em que momento for. Conforme esses dados, a natureza da alma ou do perispírito deve ser considerada como um tesouro adquirido, conservado em nós e encerrando tudo o que concerne ao nosso ser na ordem moral, intelectual e prática. Evitaremos utilizar os termos adotados pelo autor que, para exprimir que a alma pode agir, quer pelo efeito de seu tesouro adquirido ou natureza íntima (perispírito), quer por um esforço novo ou ação voluntária, se serve da expressão dualidade da alma, posto faça notar que a alma é una. Aí está uma expressão infeliz, que não expressa o verdadeiro pensamento do autor e que poderia prestar-se à confusão para um espírito pouco atento. Como os espíritas, o Sr. Herrenschneider acredita na unidade da alma; como eles, admite a existência do perispírito, o que lhe permite fazer uma crítica muito fina da psicologia dos espiritualistas, que estuda mais especialmente segundo as obras do Sr. Cousin. Partindo do mesmo ponto que Sócrates e Descartes: o conhecimento de si mesmo, o autor estabelece o fato primordial de onde resultam todos os nossos conhecimentos, isto é, a afirmação de nós mesmos, feita cada vez que empregamos a palavra eu. A afirmação do eu é, pois, a verdadeira base da psicologia. Ora, há várias manifestações desse eu, que se apresentam à nossa observação, sem que uma tenha qualquer prioridade sobre as outras e sem que se engendrem reciprocamente: Eu me sinto, – eu me sei, – eu tenho consciência de minha individualidade, – eu tenho o desejo de ser satisfeito. Estes dois últimos fatos de consciência são evidentes e claros por si mesmos; constituem o princípio da unidade do ser e o de nossa causa final ou destino, a saber: ser feliz. Para se sentir e para se saber, é preciso notar que se tem perfeita consciência de se sentir sem ter necessidade de fazer qualquer esforço; ao contrário, a percepção do sentir é um ato que resulta de um esforço da mesma ordem que a atenção; desde que não faço mais esforço, não penso mais, nem presto atenção, e então sinto todas as coisas exteriores que me causam impressão, até o momento em que uma delas me fere assaz vivamente para que eu a examine, a ela dirigindo a minha atenção. Assim, posso pensar ou sentir, ser impressionado ou perceber, e julgar minha impressão quando o desejar. Há aí duas ordens psicológicas diferentes, heterogêneas, uma das quais é passiva e se caracteriza pela sensibilidade e pela permanência; é o sentir; e a outra é ativa e se distingue pelo esforço da atenção e por sua intermitência: é o pensamento voluntário. É desta observação que o autor chega a concluir pela existência do perispírito, por uma série de deduções muito interessantes, mas longas demais para referir aqui. Para o Sr. Herrenschneider, o perispírito, ou substância da alma, é uma matéria simples, incorruptível, inerte, extensa, sólida e sensível; é o princípio potencial que, por sua sutileza, recebe todas as impressões, assimila-as, conserva-as e se transforma, sob essa ação incessante, de maneira a encerrar toda a nossa força moral, intelectual e prática. A força da alma é de ordem virtual, espiritual ativa, voluntária e refletida; é o princípio de nossa atividade. Por toda parte onde se ache o nosso perispírito, encontra-se igualmente a nossa força. Do perispírito ou do tesouro adquirido de nossa natureza, dependem a nossa sensibilidade, as nossas sensações, os nossos sentimentos, a nossa memória, a nossa imaginação, as nossas idéias, o nosso bom-senso, a nossa espontaneidade, a nossa natureza moral e os nossos princípios de honra, assim como os sonhos, as paixões e mesmo a loucura. De nossa força derivam, como qualidades virtuais, a atenção, a percepção, a razão, a lembrança, a fantasia, o humor, o pensamento, o raciocínio, a reflexão, a vontade, a virtude, a consciência e a vigilância, assim como o sonambulismo, a exaltação e a monomania.
TAG Valor
Mês Junho
Ano 1868