Estudo sobre a natureza do Cristo
Dirigindo-se a alguns de seus discípulos que disputavam para saber qual dentre eles era o maior, disse-lhes Ele, chamando para junto de si uma criança: Quem quer que me receba, recebe aquele que me enviou, porquanto aquele que for o menor entre todos vós será o maior de todos (Lucas, 9:48). Quem quer que receba em meu nome a uma criancinha como esta, a mim me recebe; e aquele que me recebe não me recebe a mim, mas recebe aquele que me enviou (Marcos, 9:37). Jesus lhes disse então: Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis, porque foi de Deus que saí e foi de sua parte que vim; pois, não vim de mim mesmo, foi Ele que me enviou (João, 8:42). Jesus então lhes disse: Ainda estou convosco por um pouco de tempo e vou em seguida para aquele que me enviou (João, 7:33). Aquele que vos ouve, a mim me ouve; aquele que vos despreza, a mim me despreza; e aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou (Lucas, 10:16). O dogma da divindade de Jesus se baseou na igualdade absoluta entre a sua pessoa e Deus, pois que Ele próprio é Deus. É este um artigo de fé. Ora, estas palavras, que Jesus tantas vezes repetiu: Aquele que me enviou, não só comprovam uma dualidade de pessoas, mas também, como já o dissemos, excluem a igualdade absoluta entre elas, porquanto aquele que é enviado necessariamente está subordinado ao que envia. Com o obedecer, aquele pratica um ato de submissão. Um embaixador, falando do seu soberano, dirá: Meu senhor, aquele que me envia, mas se quem vem é o soberano em pessoa, falará em seu próprio nome e não dirá: Aquele que me enviou, visto que ele não pode enviar-se a si mesmo. Jesus o disse em termos categóricos: Não vim de mim mesmo; foi Ele quem me enviou. Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou, não implicam absolutamente a igualdade, nem, ainda menos, a identidade. Em todos os tempos, o insulto a um embaixador foi considerado como feito ao próprio soberano. Os Apóstolos tinham a palavra de Jesus, como este a de Deus. Quando Ele lhes diz: Aquele que vos ouve, a mim me ouve, certamente não queria dizer que seus Apóstolos e Ele fossem uma só e a mesma pessoa, igual em todas as coisas. A dualidade das pessoas, assim como o estado secundário e de subordinação de Jesus com relação a Deus, ressaltam, ademais, sem equívoco possível, das seguintes passagens: Fostes vós que permanecestes sempre firmes comigo nas minhas tentações. — Eis por que vos preparo o reino, como meu Pai mo preparou, a fim de que comais e bebais à minha mesa no meu reino e que estejais sentados em tronos, para julgar as doze tribos de Israel (Lucas, 22:28 a 30). De mim digo o que vi junto de meu Pai; e vós, vós fazeis o que ouvistes de vosso pai (João, 8:38). Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu e dessa nuvem saiu uma voz que fez se ouvissem estas palavras: Este é meu filho bem-amado; escutai-o (Transfiguração: Marcos, 9:7). Ora, quando o Filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de todos os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, achando-se reunidas todas as nações, separará umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes; — colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. — Então, o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, vós que fostes abençoados por meu Pai, possuir o reino que vos foi preparado desde o começo do mundo (Mateus, 25:31 a 34). Aquele que me confessar e me reconhecer diante dos homens, Eu também o reconhecerei e confessarei diante de meu Pai que está nos Céus; — aquele que me renunciar diante dos homens, também Eu mesmo o renunciarei diante de meu Pai que está nos Céus (Mateus, 10:32 e 33). Ora, Eu vos declaro que aquele que me confessar e me reconhecer perante os homens, o Filho do homem também o reconhecerá perante os anjos de Deus; — mas se algum me repudiar perante os homens, Eu também o repudiarei perante os anjos de Deus (Lucas, 12:8 e 9). Pois, se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, desse também se envergonhará o Filho do homem, quando estiver na sua glória e na de seu Pai e dos santos anjos (Lucas, 9:26). Nestas duas últimas passagens parece mesmo que Jesus coloca acima de si os santos anjos componentes do tribunal celeste, perante o qual seria Ele o defensor dos bons e o acusador dos maus. Mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me compete a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tenha preparado (Mateus, 20:23). Ora, estando reunidos os fariseus, Jesus lhes fez esta pergunta: Que vos parece do Cristo? De quem é Ele filho? Eles responderam: De Davi. — Como é então, retrucou Ele, que Davi lhe chama em espírito seu senhor, nestes termos: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que Eu reduza teus inimigos a te servirem de escabelo para os pés? — Ora, se Davi lhe chama seu Senhor, como é Ele seu filho? (Mateus, 22:41 a 45). Mas, ensinando no templo, Jesus lhes disse: Como é que os escribas dizem que o Cristo é filho de Davi, uma vez que o próprio Davi diz a seu Senhor: Senta-te à minha direita, até que Eu haja reduzido teus inimigos a te servirem de escabelo para os pés? — Pois, se o próprio Davi lhe chama seu Senhor, como é Ele seu filho? (Marcos, 12:35 a 37; Lucas, 20:41 a 44). Por essas palavras, Jesus consagra o princípio da diferença hierárquica que existe entre o Pai e o Filho. Ele podia ser filho de Davi por filiação corporal, como descendente de sua raça e foi por isso que teve o cuidado de acrescentar: Como lhe chama ele em espírito seu Senhor? Se há uma diferença hierárquica entre o pai e o filho, Jesus, como filho de Deus, não pode ser igual a Deus. Ele confirma esta interpretação e reconhece a sua inferioridade com relação a Deus, em termos que não deixam lugar a dúvidas. Ouvistes o que foi dito: Eu me vou e volto a vós. Se me amásseis, rejubilaríeis, pois que vou para meu Pai, porque meu Pai É MAIOR DO QUE EU” (João, 14:28). Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: Bom Mestre, que bem devo fazer para alcançar a vida eterna? Jesus lhe respondeu: Por que me chamas bom? Não há senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19). Não só Jesus não se deu, em nenhuma circunstância, por igual a Deus, como, neste passo, afirma positivamente o contrário: considera-se inferior a Deus em bondade. Ora, declarar que Deus lhe está acima, pelo poder e pelas qualidades morais, é dizer que Ele não é Deus. As passagens que seguem apoiam as que citamos e também são bastante explícitas. Não tenho falado por mim mesmo; meu Pai, que me enviou, foi quem me prescreveu, por mandamento seu, o que devo dizer e como devo falar; — e sei que o seu mandamento é a vida eterna; o que, pois, Eu digo é segundo o que meu Pai me ordenou que o diga (João, 12:49 e 50). Jesus lhes respondeu: Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. — Aquele que quiser fazer a vontade de Deus reconhecerá se a minha doutrina é dele, ou se falo por mim mesmo. — Aquele que fala por impulso próprio procura a sua própria glória, mas o que, procura a glória daquele que o enviou é veraz, não há nele injustiça (João, 7:16 a 18). Aquele que não me ama não guarda a minha palavra, e a palavra que tendes ouvido não é minha, mas de meu Pai que me enviou (João, 14:24). Não credes que estou em meu Pai e que meu Pai está em mim? O que vos digo, não o digo de mim mesmo; meu Pai que mora em mim, faz Ele próprio as obras que Eu faço (João, 14:10). O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. — Pelo que respeita ao dia e à hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai (Marcos, 13:32; Mateus, 24:35 e 36). Jesus então lhes disse: Quando houverdes elevado ao alto o Filho do homem, conhecereis o que Eu sou, porquanto nada faço de mim mesmo, mas digo o que meu Pai me ensinou; e aquele que me enviou está comigo e não me deixou só, porque faço sempre o que lhe é agradável (João, 8:28 e 29). Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou (João, 6:38). Nada posso fazer de mim mesmo. Julgo segundo ouço e o meu juízo é justo, porque não procuro satisfazer à minha vontade, mas à vontade daquele que me enviou (João, 5:30). Mas, de mim, tenho um testemunho maior que o de João, porquanto as obras que meu Pai me deu o poder de fazer, as obras, digo, que Eu faço dão testemunho de mim, que foi meu Pai que me enviou (João, 5:36). Mas agora procurais dar-me morte, a mim que vos tenho dito a verdade que aprendi de Deus; é o que Abraão não fez (João, 8:40). Desde que Ele nada diz de si mesmo; que a doutrina que prega não é sua, que ela lhe veio de Deus, que lhe ordenou viesse dá-la a conhecer; que não faz senão o que Deus lhe deu o poder de fazer; que a verdade que ensina Ele a aprendeu de Deus, a cuja vontade se acha sujeito, é que Ele não é Deus, mas, apenas, seu enviado, seu messias e seu subordinado. Fora-lhe impossível recusar, de maneira mais positiva, qualquer assimilação sua a Deus, nem determinar o seu papel principal em termos mais precisos. Não há nos trechos acima pensamentos ocultos sob o véu da alegoria, que só à força de interpretações se possam descobrir. São pensamentos expressos em seu sentido próprio, sem ambiguidade.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Estudo sobre a natureza do Cristo
Tema III – As palavras de Jesus provam a sua divindade?