Se objetarem que Deus, por não ter querido dar-se a conhecer na pessoa de Jesus, provocou uma ilusão acerca da sua individualidade, poder-se-ia perguntar em que se funda semelhante opinião, quem tem autoridade para lhe sondar o fundo do pensamento e para lhe dar às palavras um sentido contrário ao que elas exprimem. Pois que, em vida de Jesus, ninguém o considerava como Deus; que todos, ao contrário, o consideravam um messias, se Ele não quisesse que o conhecessem qual era, bastar-lhe-ia nada dizer. Das suas afirmações espontâneas, deve-se concluir que Ele não era Deus, ou que, se o era, voluntariamente e sem utilidade, fez uma afirmação falsa.
É de notar-se que João, o Evangelista sobre cuja autoridade mais buscaram apoiar-se os instituidores do dogma da divindade do Cristo, é precisamente o que oferece os mais numerosos e mais positivos argumentos em contrário. É do que pode convencer-se qualquer pessoa, lendo as passagens seguintes, que nada acrescentam, é certo, às provas já citadas, mas as corroboram porque de tais passagens ressalta evidente a dualidade e a desigualdade das duas entidades:
Por esse motivo, os judeus perseguiam a Jesus e queriam matá-lo, isto é, porque
fizera tais coisas em dia de sábado. — Mas Jesus lhes disse: Meu Pai obra até o
presente e Eu também obro (João, 5:16 e 17).
Porquanto o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o poder de julgar, a fim
de que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai. Aquele que não honra ao
Filho, não honra ao Pai que o enviou.
Em verdade, em verdade, digo-vos que aquele que ouve a minha palavra e crê
naquele que me enviou tem a vida eterna e não cai na condenação; antes, já passou
da morte à vida.
Em verdade, em verdade, digo-vos que a hora vem, e ela já veio, em que os mortos
ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a escutarem viverão; pois, assim como o
Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho ter a vida em si mesmo — e lhe
deu o poder de julgar, porque Ele é o Filho do homem (João, 5:22 a 27).
E o Pai que me enviou há dado, Ele próprio, testemunho de mim. Nunca jamais
lhe ouvistes a voz, nem vistes a face. — E a sua palavra não permanecerá em vós
porque não credes no que Ele enviou (João, 5:37 e 38).
Quando Eu julgasse, o meu julgamento seria digno de fé, porquanto não estou só; meu Pai que me enviou está comigo (João, 8:16).
Havendo Jesus dito estas coisas, elevou os olhos ao céu e disse: Meu Pai, a hora é vinda; glorifica a teu Filho, a fim de que teu Filho te glorifique. — Como lhe deste poder sobre todos os homens, a fim de que Ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste. — Ora a vida eterna consiste em te conhecer a ti que és o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo que Tu enviaste.
Eu te tenho glorificado na Terra; acabei a obra de que me encarregaste. — E Tu, meu Pai, glorifica-me, pois, agora também em ti mesmo dessa glória que tive em ti antes que o mundo fosse.
Dentro em pouco já não estarei no mundo, mas, quanto a eles, estão ainda no mundo, e Eu regresso a ti. Pai santo, conservo em teu nome os que me deste, a fim de que eles sejam como nós.
Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como Eu próprio não sou do mundo.
Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade mesma. — Assim como me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo — e me santifico a mim mesmo por eles, a fim de que também eles sejam santificados na verdade.
Não peço apenas por eles, mas também pelos que em mim hão de crer pela palavra deles; — a fim de que estejam todos unidos, como Tu, meu Pai, estás em mim e Eu em ti; que eles, do mesmo modo, sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste.
Meu Pai, desejo que, lá onde Eu estou, os que Tu me deste também estejam comigo, a fim de que contemplem a minha glória, glória que me deste, porque me amaste antes da Criação do mundo.
Pai justo, o mundo não te há conhecido; Eu, porém, te tenho conhecido; e estes conheceram que Tu me enviaste. — Fiz que eles conhecessem o teu nome, e ainda farei que o conheçam, a fim de que o amor com que me tens amado esteja neles e Eu próprio neles esteja (João, 17:1 a 5, 11, 14, 17 a 21, 24 a 26; Prece de Jesus).
É por isto que meu Pai me ama, porque deixo a vida para a retomar. – Ninguém ma arrebata; sou Eu que a deixo de mim mesmo; tenho o poder de a deixar e tenho o poder de a retomar. É o mandamento que recebi do meu Pai (João, 10:17 e 18).
Tiraram a pedra e Jesus, erguendo os olhos para o céu, disse estas palavras: Meu
Pai, rendo-te graças por me haveres exalçado. — Eu, de mim, sabia que Tu me exalçarias sempre, mas digo isto para esta gente que me cerca, a fim de que creia que
foste Tu que me enviaste (João, 11:41 e 42. Morte de Lázaro).
Não mais vos falarei, porquanto o príncipe do mundo vai vir, embora nada haja em
mim que lhe pertença, mas para que o mundo conheça que amo a meu Pai e que
faço o que meu Pai me ordena (João, 14:30 e 31).
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como Eu, que
tenho guardado os mandamentos de meu Pai, permaneço no seu amor (João, 15:10).
Então, soltando grande brado, Jesus disse: Meu Pai, às tuas mãos entrego o meu
ser. E, tendo pronunciado essas palavras, expirou (Lucas, 23:46).
Se Jesus, ao morrer, entrega sua alma às mãos de Deus, é que Ele tinha uma alma distinta de Deus, submissa a Deus. Logo, Ele não era Deus.
As palavras que se seguem indiciam, da parte de Jesus, certa fraqueza humana, certa apreensão quanto aos sofrimentos e à morte que lhe vão ser infligidos, o que contrasta com a natureza divina que lhe atribuem. Elas, porém, demonstram, ao mesmo tempo, uma submissão de inferior para superior.
Então, chegou Jesus a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos:
Sentai-vos aqui, enquanto vou ali orar. – E, tendo levado consigo Pedro e os dois
filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a estar em grande aflição. — Disse-lhes
então: Minha alma se acha em mortal tristeza; ficai aqui e velai comigo. — E, indo
para um pouco mais longe, prosternou-se com o rosto em terra e orou dizendo:
Meu Pai, se for possível, faze de mim se afaste este cálice; entretanto, não seja como
Eu quero, mas como Tu queiras. — Veio em seguida ter com os seus discípulos e,
achando-os adormecidos, disse a Pedro: Pois quê! não pudestes velar uma hora
comigo? — Vigiai e orai, a fim de não cairdes em tentação. O Espírito é pronto,
mas a carne é fraca. — Foi-se de novo, para orar segunda vez, dizendo: Meu Pai, se
este cálice não pode passar, sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade (Mateus, 26:36
a 42, Jesus no Jardim das Oliveiras).
Então, disse-lhes: Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e velai. —
E, tendo-se afastado um pouco, prosternou-se em terra, rogando que, se fosse
possível, aquela hora se afastasse dele. — Dizia: Abba, meu Pai, tudo te é possível,
transporta para longe de mim este cálice, mas que se faça a tua vontade, e não a
minha (Marcos, 14:34 a 36).
Chegando àquele lugar, disse-lhes: Orai, a fim de não sucumbirdes à tentação. —
E, tendo-se afastado deles cerca de um arremesso de pedra, ajoelhou-se, dizendo:
Meu Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; entretanto, não se faça a minha
vontade, mas a tua. — Então, apareceu-lhe um anjo do Céu a fortalecê-lo. — Havendo entrado em agonia, redobrava suas preces. — Veio-lhe um suor de gotas de
sangue, que corria até o chão (Lucas, 22:40 a 44).
Pela hora nona, soltou Jesus um grande brado, dizendo: Eli! Eli! Lamma Sabachtani? Que quer dizer: Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste? (Mateus, 27:46).
E, pela hora nona, lançou Jesus um grande brado, dizendo: Meu Deus, Meu Deus!
por que me abandonaste? (Marcos, 15:34).
As passagens que vamos transcrever poderiam deixar alguma dúvida e dar ensejo a crer-se numa identificação de Deus com a pessoa de Jesus, mas, além de que não poderiam prevalecer contra os termos precisos das que precedem, trazem consigo a devida retificação.
Perguntaram-lhe: Quem és Tu então? Jesus lhes respondeu: Sou o princípio de todas
as coisas, Eu que vos falo. — Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas aquele que me
enviou é verdadeiro e Eu não digo senão o que dele aprendi (João, 8:25 e 26).
O que meu Pai me deu é maior do que todas as coisas e ninguém o pode arrebatar
das mãos de meu Pai. Meu Pai e Eu somos um (João, 10:29 e 30).
Quer isto dizer que seu Pai e Ele são um pelo pensamento, pois que Ele exprime o pensamento de Deus, pois que tem a palavra de Deus.
Então, os judeus tomaram de pedras para lapidá-lo. — Jesus lhes disse: Muitas
obras boas tenho feito diante de vós, pelo poder de meu Pai. Por qual delas quereis
lapidar-me? — Os judeus lhe responderam: Não é por nenhuma boa obra que
te lapidamos, mas por causa da tua blasfêmia, porque, sendo homem, Tu te fazes
Deus. — Jesus lhes replicou: Não está escrito na vossa lei: Tenho dito que sois deuses? — Ora, se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus era dirigida e
não podendo a escritura ser destruída, como dizeis que blasfemo, Eu a quem meu
Pai santificou e enviou ao mundo, porque disse que sou filho de Deus? — Se não
faço as obras de meu Pai, não me creiais; se, porém, as faço, quando não queirais
crer em mim, crede nas minhas obras, a fim de saberdes e crerdes que meu Pai está
em mim e Eu nele (João, 10:31 a 38).
Noutro capítulo, dirigindo-se a seus discípulos, diz: “Nesse dia, reconhecereis que estou em meu Pai e vós em mim e Eu em vós (João, 14:20).
Destas palavras, não há concluir-se que Deus e Jesus são uma única entidade, pois, de outro modo, também se teria de concluir, das mesmas palavras, que os Apóstolos e Deus eram um.