Os ensinos que dos Espíritos recebemos a respeito de suas condições depois da morte fazem-nos melhor compreender as regras segundo as quais se transforma e progride o perispírito ou corpo fluídico.
Assim, como já em outra parte indicamos,(xcv) a mesma força que leva o ser, em sua evolução através dos séculos, a criar, para as suas necessidades e tendências, os órgãos precisos ao seu desenvolvimento, por uma ação análoga e paralela, também o incita a aperfeiçoar suas faculdades, a criar para si novos meios de manifestar-se, apropriados a seu estado fluídico, intelectual e moral.
O invólucro fluídico do ser depura-se, ilumina-se ou obscurece-se, segundo a natureza elevada ou grosseira dos pensamentos em si refletidos. Qualquer ato, qualquer pensamento repercute e grava-se no perispírito. Daí as conseqüências inevitáveis para a situação da própria alma, embora esta seja sempre senhora de modificar o seu estado pela ação contínua que exerce sobre seu invólucro.
A vontade é a faculdade soberana da alma, a força espiritual por excelência, e pode mesmo dizer-se que é a essência da sua personalidade. Seu poder sobre os fluidos é acrescido com a elevação do Espírito. No meio terrestre, seus efeitos sobre a matéria são limitados, porque o homem se ignora e não sabe utilizar-se das forças que estão em si; porém, nos mundos mais adiantados, o ser humano, que já tem aprendido a querer, impera sobre a natureza inteira, dirige facilmente os fluidos, produz fenômenos, metamorfoses que vão até ao prodígio. No espaço e nesses mundos a matéria apresenta-se sob estados fluídicos de que apenas podemos ter uma idéia vaga. Assim como na Terra certas combinações químicas se produzem unicamente sob a influência da luz, assim também, nesses meios, os fluidos não se unem nem se ligam senão por um ato da vontade dos seres superiores.
Entretanto, a ação da vontade sobre a matéria entrou no domínio da experiência científica graças ao estudo dos fenômenos magnéticos, feito por numerosos fisiologistas sob as denominações de hipnotismo e de sugestão mental. Já se têm visto experimentadores, por um ato direto da vontade, fazerem aparecer chagas e estigmas sobre o corpo de certos indivíduos, fazerem daí correr sangue ou humores e, em seguida, operarem o curativo por uma volição contrária. Assim, a vontade humana destrói e repara a bel-prazer os tecidos vivos; pode também modificar as substâncias materiais a ponto de comunicar-lhes propriedades novas, provocando a ebriedade com água simples, etc. Atua mesmo sobre os fluidos e cria objetos, corpos, que os hipnotizados vêem, sentem e tocam e que, para eles, têm uma existência positiva e obedecem a todas as leis da óptica. É isso o que resulta das pesquisas e dos trabalhos dos Drs. Charcot, Dumontpeilier, Liébault, Bernheim, dos professores Liégeois, Delbffiuf, etc., cujas demonstrações podem ser lidas em todas as revistas médicas.
Ora, se a vontade exerce tal influência sobre a matéria bruta e sobre os fluidos rudimentares, tanto melhor se compreenderá seu império sobre o perispírito e os progressos ou as desordens que nele determina, segundo a natureza de sua ação, tanto no curso da vida como após a desencarnação.
Todo ato da vontade, já o dissemos, reveste uma forma, uma aparência fluídica, que se grava no invólucro perispirítico. Torna-se evidente que, se esses atos fossem inspirados por paixões materiais, sua forma seria material e grosseira. As moléculas perispirituais, impregnadas, saturadas dessas formas, dessas imagens, materializam-se a seu contacto, espessam-se cada vez mais, aproximam-se, condensam-se. Desde que as mesmas causas se reproduzam, os mesmos efeitos acumulam-se, a condensação acelera-se, os sentidos enfraquecem-se e atrofiam-se, as vibrações diminuem de força e reduzem-se. Por ocasião da morte acha-se o Espírito envolvido por fluidos opacos e pesados que não mais deixam passar as impressões do mundo exterior e tornam-se para a alma uma prisão e um túmulo. Esse é o castigo preparado pelo próprio Espírito; essa situação é obra sua e somente cessa quando aspirações mais elevadas, o arrependimento e a vontade de melhorar, vêm romper a cadeia material que o enjaula.
Efetivamente, se as paixões baixas e materiais perturbam, obscurecem o organismo fluídico, os pensamentos generosos, em um sentido oposto, as ações nobres apuram e dilatam as moléculas perispiríticas. Sabemos que as propriedades da matéria aumentam com seu grau de pureza. As experiências de William Crookes demonstraram que a rarefação dos átomos produz o estado radiante. A matéria, sob esse aspecto sutil, inflama-se, torna-se luminosa, imponderável. O mesmo sucede com a substância perispiritual, pois esta é ainda matéria, porém em grau mais quintessenciado. Rarefazendo-se, ganha sutileza e sensibilidade; seu poder de irradiação e sua energia aumentam proporcionalmente e permitem-lhe que escape às atrações terrestres. O Espírito adquire, então, sentidos novos, com cujo auxílio poderá penetrar em meios mais puros, comunicar-se com seres mais etéreos. Essas faculdades, esses sentidos, que franqueiam o acesso das regiões felizes, podem ser conquistados e desenvolvidos por qualquer alma humana, visto todas possuírem os seus germes imperecíveis. As nossas vidas sucessivas, cheias de trabalhos e de esforços, têm por alvo fazer desabrochar em nós essas faculdades. Já neste mundo as vemos despontar em certos indivíduos que, por seu intermédio, entram em relações com o mundo oculto. Os médiuns em geral estão neste caso. Sem dúvida, o seu número aumentará com o progresso moral e a difusão da verdade. Pode-se prever que, um dia, a grande maioria dos entes humanos será apta a receber diretamente os ensinos desses seres invisíveis cuja existência ainda ontem negava.
Essa evolução paralela entre a matéria e o Espírito, pela qual o ser conquista seus órgãos e suas faculdades, pela qual se constrói a si mesmo e se aperfeiçoa sem cessar, mostra-nos ainda a solidariedade que liga as forças universais, o mundo das almas e o mundo dos corpos. Mostra-nos principalmente riquezas, inesgotáveis recursos que o ser pode criar por um uso metódico e perseverante da vontade, pois esta é a força suprema, é a própria alma exercendo seu império sobre as potências inferiores.
Para regular o nosso adiantamento, preparar o nosso futuro, fortificarmo-nos ou nos rebaixarmos, é bastante fazer uso da vontade. Não há acaso nem fatalidade, mas, sim, forças e leis. Utilizar, governar umas, observar outras, eis o segredo de toda a grandeza e elevação. Os resultados produzidos entre nós pela vontade perturbam a imaginação dos mundanos e provocam a admiração dos sábios.(xcvi) Tudo isso é, entretanto, pouca coisa ao lado dos efeitos obtidos nesses meios superiores em que, por determinação do Espírito, todas as forças se combinam e entram em ação. E se, nessa ordem de idéias, elevássemos ainda mais o nosso pensamento, não chegaríamos, por analogia, a entrever como a vontade divina, atuando sobre a matéria cósmica, pode formar sóis, traçar as órbitas do mundo, criar os universos?
Sim, tudo pode a vontade exercida no sentido do bem e de acordo com as leis naturais. Muito também pode para o mal. Nossos maus pensamentos, nossos desejos impuros e nossos atos culpáveis corrompem, por neles se refletirem os fluidos que nos rodeiam, e o contacto destes produz mal-estar e impressões desagradáveis nas pessoas que de nós se aproximam, pois todo organismo sofre a influência dos fluidos ambientes. Do mesmo modo, sentimentos de ordem elevada, pensamentos de amor e exortações calorosas vão penetrar os seres que nos cercam, sustentá-los e vivificá-los. Assim se explica o império exercido sobre as multidões pelos grandes missionários e pelas almas eminentes. Embora os maus também assim possam exercer a sua influência funesta, podemos sempre conjurar esta última por volições em sentido inverso e através de resistência enérgica da nossa vontade.
Um conhecimento mais completo das potências da alma e da sua aplicação deverá modificar totalmente as nossas tendências e os nossos atos. Sabendo que todos os fatos da nossa vida se inscrevem conosco, testemunham pró ou contra nós, dirigiremos a cada um deles uma atenção mais escrupulosa. Esforçar-nos-emos, desde então, por desenvolver os nossos recursos latentes e por agir por nosso intermédio sobre os fluidos espalhados no espaço, de modo a depurá-los, transformá-los para o bem de todos e criar em torno de nós uma atmosfera límpida e pura, inacessível aos fluidos viciados. O Espírito que não age, que se deixa levar pelas influências materiais, fica débil e incapaz de perceber as sensações delicadas da vida espiritual. Acha-se em uma inércia completa depois da morte; as perspectivas do espaço não oferecem a seus sentidos velados senão a obscuridade e o vácuo. O Espírito ativo, preocupado em exercer suas faculdades por um uso constante, adquire forças novas; sua vista abrange horizontes mais vastos e o círculo de suas relações alarga-se gradualmente.
O pensamento, utilizado como força magnética, poderia reparar inúmeras desordens, destruir muitas chagas sociais. Projetando, resoluta e freqüentemente, nossa vontade sobre os perversos, sobre os desgarrados, poderíamos consolar, convencer, aliviar e curar. Por esse exercício obter-se-iam não só resultados extraordinários para o melhoramento da espécie, mas também se poderia dar ao pensamento uma acuidade, uma força de penetração incalculáveis.