Dizem que Deus enviou o Cristo, seu filho, para salvar os homens, provando assim o seu amor pelas criaturas. Não há dúvida de que Jesus é o Messias divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade e mostrar-lhes o caminho da salvação. Mas contai — e somente após a sua vinda — quantos não puderam ouvir-lhe a palavra de verdade, quantos morreram e morrerão sem conhecê-la, e quantos, finalmente, dos que a conhecem, a põem em prática! Por que então Deus, sempre solícito na salvação de suas criaturas, não lhes enviaria outros mensageiros que, chegando a todos os recantos da Terra, entre grandes e pequenos, ignorantes e sábios, incrédulos e crentes, ensinassem a verdade aos que a desconhecem, tornando-a compreensível aos que não a compreendem e suprindo, pelo ensinamento direto e múltiplo, a deficiência na propagação do Evangelho, de modo a abreviar o advento do reino de Deus? Ora, quando esses mensageiros, a exemplo de Jesus, chegam em hostes inumeráveis, abrindo os olhos aos cegos, convertendo os ímpios, curando os enfermos e consolando os aflitos, que fazeis vós, como o recebeis? Ah! vós os repudiais, repeli o bem que fazem e clamais que são demônios! Outra não era a linguagem dos fariseus em relação a Jesus, porque eles também diziam que o Cristo fazia o bem pelo poder do diabo. Que lhes respondeu o Mestre? “Reconhecei a árvore por seu fruto; uma árvore má não pode dar bons frutos.”
Para os fariseus, os frutos produzidos por Jesus eram maus, porque Ele vinha destruir o abuso e proclamar a liberdade que lhes arruinaria a autoridade. Se em vez disso Jesus tivesse vindo lisonjear-lhes o orgulho, sancionar os seus erros e sustentar-lhes o poder, então, sim, Ele seria o esperado Messias dos judeus. Mas o Cristo era só, pobre e fraco: decretaram-lhe a morte julgando extinguir-lhe a palavra; mas a sua palavra sobreviveu-lhe, porque era divina. Todavia, só lentamente ela se foi propagando pelo mundo, de modo que, passados dezoito séculos, apenas a décima parte do gênero humano a conhece, sem falar dos numerosos cismas que rebentaram no seio da cristandade. Diante desse quadro, Deus, em sua misericórdia, envia agora os Espíritos para confirmá-la, completá-la, pô-la ao alcance de todos e difundi-la por toda a Terra. Os Espíritos, contudo, não estão encarnados num só homem, cuja voz seria limitada: eles são inumeráveis, andam por toda parte e ninguém os pode deter, sendo esta a razão por que o seu ensino se espalha com a rapidez do relâmpago. E, porque falam ao coração e à razão, são compreendidos pelos mais humildes.