(Sociedade, 9 de dezembro de 1859 – Primeira sessão) O Sr. de la Roche, membro titular, comunica o seguinte fato, que é de seu conhecimento pessoal: Numa pequena casa perto de Castelnaudary ocorriam barulhos estranhos e manifestações diversas que levavam a considerá-la como assombrada por algum mau gênio. Por conta disso, foi exorcizada em 1848 e nela colocaram grande número de imagens de santos. Então, querendo habitá-la, o Sr. D... mandou fazer reparos e retirar as gravuras. Depois de alguns anos, ali morreu subitamente. Seu filho, que a ocupa atualmente, ou pelo menos a ocupava até há pouco, certo dia recebeu, ao entrar num aposento, forte bofetada de mão invisível. Como estivesse completamente só, não duvidou que ela proviesse de uma fonte oculta. Agora não quer mais ficar lá e vai deixá-la definitivamente.
Há, na região, a tradição segundo a qual um grande crime teria sido cometido naquela casa.
Interrogado sobre a possibilidade de evocar o esbofeteador, São Luís respondeu que sim.
Chamado, o Espírito se manifesta por sinais de violência; o médium é tomado de extrema agitação, sete ou oito lápis são quebrados, vários são atirados sobre os assistentes, uma página é rasgada e coberta de traços insignificantes, feitos com cólera. Todos os esforços para o acalmar mostram-se impotentes.
Pressionado a responder às perguntas que lhe são dirigidas, escreve com a maior dificuldade um não quase indecifrável.
1. [A São Luís] Teríeis a bondade de nos dar algumas informações sobre este Espírito, já que ele mesmo não pode ou não as quer dar?
Resp. – É um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro. Nós o fizemos vir, mas não nos foi possível obrigá-lo a escrever, malgrado tudo quanto lhe foi dito. Ele tem seu livre-arbítrio; mas, infeliz, dele faz triste uso.
2. Há muito tempo que morreu como homem?
Resp. – Tomai informações; foi ele que cometeu o crime, cuja lenda existe na região.
3. Quem era ele em vida?
Resp. – Sabê-lo-eis por vós mesmos.
4. É ele, pois, que assombra a casa atualmente?
Resp. – Sem dúvida, pois foi assim que vo-lo fiz chamar a atenção.
5. Os exorcismos praticados não foram capazes de expulsá-lo?
Resp. – De modo algum.
6. Ele tem algo a ver com a morte súbita do Sr. D...?
Resp. – Sim.
7. De que maneira contribuiu para essa morte?
Resp. – Pelo pavor.
8. Foi ele quem deu a bofetada no filho do Sr. D...?
Resp. – Sim.
9. Poderia ter dado outra em qualquer um de nós?
Resp. – Mas, certamente; vontade não lhe faltava.
10. Por que não o fez?
Resp. – Não lhe foi permitido.
11. Haveria um meio de o desalojar daquela casa? Qual seria?
Resp. – Se quiserem desembaraçar-se da obsessão de semelhantes Espíritos, será fácil, orando por eles: é o que sempre descuram fazer. Preferem apavorá-los com fórmulas de exorcismos, que os divertem muito.
12. Dando às pessoas interessadas a idéia de orar por esse Espírito, e orando nós mesmos por ele, seria possível desalojá-lo?
Resp. – Sim. Mas notai que eu disse orar, e não mandar orar.
13. Esse Espírito é susceptível de melhora?
Resp. – Por que não? Não o são todos, este como os outros? Contudo, é preciso enfrentar dificuldades. Mas, por mais perverso que seja, o bem em retribuição ao mal acabará por tocá-lo. Que orem primeiramente e o evoquem dentro de um mês; assim podereis julgar da mudança que nele se terá operado.
14. Esse Espírito é sofredor e infeliz. Podeis descrever o gênero de sofrimentos que ele suporta?
Resp. – Está convencido de que deverá ficar eterna-mente na situação em que se encontra. Vê-se constantemente no momento em que praticou o crime: qualquer outra lembrança lhe foi apagada, e interdita qualquer comunicação com outro Espírito.
Na Terra só pode estar naquela casa e, quando no espaço, nas trevas e na solidão.
15. De onde vinha, antes da última encarnação? A que raça pertencia?
Resp. – Havia tido uma existência entre as tribos mais ferozes e mais selvagens e, precedentemente, vinha de um planeta inferior à Terra.
16. Se esse Espírito reencarnasse, em que categoria de indivíduos iria encontrar-se?
Resp. – Vai depender dele e do arrependimento que experimentar.
17. Em sua próxima existência corporal poderia ser o que se chama um homem de bem?
Resp. – Isto seria difícil. O que quer que faça, não poderá evitar uma existência bastante tempestuosa.
Observação – A Sra. X..., médium vidente que assistia à sessão, viu esse Espírito no momento em que queriam que escrevesse: sacudia o braço do médium; seu aspecto era aterrador; vestia uma camisa coberta de sangue e tinha um punhal.
O Sr. e a Sra. F..., que assistiam à sessão como ouvintes, embora ainda não fossem sócios, desde a mesma noite atenderam à recomendação feita em favor do infeliz Espírito e oraram por ele.
Obtiveram várias comunicações, assim como de suas vítimas.
Narrá-las-emos na ordem em que foram recebidas e as que, sobre o mesmo assunto, foram obtidas na Sociedade. Além do interesse ligado a essa dramática história, ressalta um ensinamento que a ninguém escapará.
(Segunda sessão – casa do Sr. F...)
18. [Ao Espírito familiar] Podes dizer-nos alguma coisa a respeito do Espírito de Castelnaudary?
Resp. – Evoca-o.
19. Será mal?
Resp. – Verás.
20. Que devemos fazer?
Resp. – Não lhe falar, se nada tens a dizer-lhe.
21. Se lhe falarmos para lamentarmos o seu sofrimento, isso lhe fará bem?
Resp. – A compaixão sempre faz bem aos infelizes.
22. Evocação do Espírito de Castelnaudary.
Resp. – Que querem de mim?
23. Nós te chamamos a fim de te sermos úteis.
Resp. – Oh! vossa piedade me faz bem, porque sofro...
oh! Como sofro!... Que Deus tenha piedade de mim!... Perdão!...
Perdão!
24. Nossas preces ser-te-ão salutares?
Resp. – Sim; orai, orai.
25. Pois bem! Oraremos por ti.
Resp. – Obrigado! Tu, pelo menos, não me amaldiçoas.
26. Por que não quiseste escrever na Sociedade, quando te chamaram?
Resp. – Oh! maldição!
27. Maldição para quem?
Resp. – Para mim, que expio muito cruelmente os crimes nos quais a minha vontade não teve senão uma pequena parte.
Observação – Dizendo que sua vontade só tomou uma pequena parte em seus crimes, quer atenuá-los, como se soube mais tarde.
28. Se te arrependeres, serás perdoado?
Resp. – Oh! jamais!
29. Não desesperes.
Resp. – Eternidade de sofrimentos, tal é a minha sorte.
30. Qual é o teu sofrimento?
Resp. – O que há de mais horrível; não o podes compreender.
31. Oraram por ti desde ontem à noite?
Resp. – Sim; mas sofro ainda mais.
32. Como assim?
Resp. – Sei lá!
Observação – Esta circunstância será explicada mais tarde.
33. Deve-se fazer algo em relação à casa onde te instalaste?
Resp. – Não, não! Não me falem disso... Perdão, meu Deus! Já sofri muito.
34. Tens que permanecer lá?
Resp. – R. A isso estou condenado.
35. Será para que tenhas constantemente teus crimes à vista?
Resp. – É isso.
36. Não desesperes; tudo pode ser perdoado com o arrependimento.
Resp. – Não; não há perdão para Caim.
37. Mataste, pois, teu irmão?
Resp. – Somos todos irmãos.
38. Por que quisestes fazer mal ao Sr. D...?
Resp. – Chega! por piedade, chega!
39. Então, adeus; tem confiança na misericórdia divina!
Resp. – Orai.
(Terceira sessão) 40. Evocação.
Resp. – Estou junto de vós.
41. Começas a ter esperança?
Resp. – Sim, meu arrependimento é grande.
42. Qual era o teu nome?
Resp. – Sabereis mais tarde.
43. Há quantos anos sofres?
Resp. – Há 200 anos.
44. Em que época cometeste o crime?
Resp. – Em 1608.
45. Podes repetir as datas para no-las confirmar?
Resp. – Inútil; uma vez é bastante. Adeus; eu vos falarei amanhã. Uma força me chama.
(Quarta sessão) 46. Evocação.
Resp. – Obrigado, Hugo (nome de batismo do Sr. F...).
47. Queres falar do que se passou em Castelnaudary?
Resp. – Não; fazeis-me sofrer quando falais disto. Não é generoso de vossa parte.
48. Sabes muito bem que se falamos disto é com vistas a poder esclarecer a tua posição e não a agravá-la. Assim, fala sem temor. Como foste levado a cometer esse crime?
Resp. – Um momento de alucinação.
49. Houve premeditação?
Resp. – Não.
50. Não pode ser verdade. Teus sofrimentos provam que és mais culpado do que dizes. Já sabes que só pelo arrependimento poderás suavizar a tua sorte, e não pela mentira.
Vamos! Sê franco.
Resp. – Bem! Já que é preciso, seja.
51. Foi um homem ou uma mulher que mataste?
Resp. – Um homem.
52. Como causaste a morte do Sr. D...?
Resp. – Apareci-lhe visivelmente e me encontrava de tal forma horrendo que minha simples visão o matou.
53. Fizeste-o de propósito?
Resp. – Sim.
54. Por quê?
Resp. – Ele quis me desafiar; e eu ainda faria outro tanto, se me viesse tentar.
55. Se eu fosse morar naquela casa, tu me farias mal?
Resp. – Oh! não, certamente; tens piedade de mim e me desejas o bem.
56. O Sr. D... morreu instantaneamente?
Resp. – Não; foi tomado pelo medo, mas não morreu senão duas horas depois.
57. Por que te limitaste a dar uma bofetada no Sr. D...
Filho?
Resp. – Era demais ter matado dois homens.
(Quinta sessão – Sociedade, 16 de dezembro de 1859) 58. Perguntas dirigidas a São Luís – O Espírito que se comunicou com o Sr. e a Sra. F... é realmente o de Castelnaudary?
Resp. – Sim.
59. Como pôde comunicar-se a eles tão prontamente?
Resp. – A Sociedade ainda o ignorava. Ele não se havia arrependido; o arrependimento é tudo.
60. São exatas as informações por ele dadas sobre o crime?
Resp. – Compete verificardes e vos entenderdes com ele.
61. Ele disse que o crime foi cometido em 1608 e que tinha morrido em 1659. Há, pois, 200 anos que se encontra naquele estado?