Tomou-a nos braços e colocou-a sentada sobre seu próprio corpo, de cavalinho, e ali ficou, embevecida a admirá-la. Com o que se demonstra que estava desdobrada.
(Como poderia ter pego um espírito nos braços, se não estivesse?). Puxou conversa com a menina, desejando saber como ela estava. Ela sorriu, curvou-se e passou o bracinho em volta do pescoço de Regina, que sentiu fisicamente a pressão da sua mãozinha no pescoço e o calor do corpinho dela. - Meu Deus, será mesmo um espírito? - perguntou Regina a si mesma. Era tão real a cena que por um momento ela pensou se, quem sabe, a porta ficara aberta e a criança entrara com a habitual sem- cerimônia que lhes é característica.
Ela continuou a sorrir e em seguida convidou -a para sair. - Vem comigo. Quero apresentar um amigo a você, levantou-se, pulou para o chão, e estendeu-lhe a mãozinha. E Regina, ainda indecisa: - Mas eu não posso, filhinha! Não posso! Queria dizer, com isso, que não era um espírito desencarnado como a outra, que pudesse ir a qualquer lugar mediante simples convite. A coisa era bem mais complexa. Mas a menina insistia: - Pode, sim. Anda. Vem comigo.
Regina tomou-lhe a mão e, 'levantou-se' do corpo físico, completando assim o desdobramento - que era parcial, visto que ainda pôde sentir a pressão da mão da menina no seu corpo físico -, e começou a caminhar com a criança, logo chegaram a um bosque e seguiram por um caminho aberto entre as árvores. Alcançaram um pátio em torno do qual havia uma construção com divisórias semelhantes a celas individuais.
Eram muitas, cada uma ocupada por uma pessoa que se mantinha, por isso, segregada das demais. Seria um sanatório, uma penitenciária?
A menina aproximou -se de um homem retido em uma das celas. Era ainda jovem, muito pálido, com uma expressão alienada no olhar. Regina sentiu certo receio e procurou conter a menina, tentando evitar que ela chegasse muito perto dele: - Cuidado, filhinha! Ele parece perigoso!
Mas a menina insistiu que não havia perigo algum e que o homem era seu amigo. E puxava Regina pela mão para aproximar-se do homem . Ela cedeu. Olhou-o com profunda compaixão, tentando identificá-lo , mas não reconheceu nele nenhuma pessoa conhecida sua.
Regina não sabe o que foi fazer naquele lugar, pois a partir daquele momento a memória de vigília não registra mais nada. Não era mesmo para saber, por certo. Deve ter mantido um entendimento qualquer com o pobre ser recluso que a criança identificava como amigo. Quem seria o que estaria fazendo ali? E por que a menina tanto insistiu para que Regina fosse até ele? Mistérios maiores do que sonha a nossa vã filosofia, como dizia Shakespeare.
Regina, depois dessa amnésia, certamente, deliberada ou consentida, vê-se voltando com a menina pelo mesmo caminho percorrido na ida. Ao aproximar-se do corpo físico, beijou a menina e encerrou-se novamente em seu próprio cárcere ...
Foi uma curiosa e emocionante experiência. Estranhamente, não mais viu a menina.
Sabia, apenas, que se chamava Anita, mas que a tratavam de Nita ou Nitinha.
Durante algum tempo - cerca de dois anos - as crianças deixaram de visitá-la. Regina sentia falta da presença daqueles filhos de outras eras que viviam agora em mundo tão diferente do seu. Teria feito algo errado que desencadeara a ausência? Poderia fazer algo para tê-los de volta?
Certa noite, foi visitada pela mais velha dos três, a de doze anos. Muito feliz, abraçou- a, deitaram -se lado a lado, como de costume, e ali ficaram a conversar. Perguntada sobre os irmãos e por que não tinham vindo também, a menina respondeu que eles estavam se preparando para 'voltar', ou seja, para a reencarnação, e por isso não poderiam vir mais. Ela mesma - acrescentou - vinha pela última vez, porque também iria voltar para a carne. Regina não mais a veria.
Assim foi. Regina chorou amargamente a separação. Estranha coisa da vida! A gente chora, do lado de cá, quando 'morre' uma pessoa amada; e chora, do lado de lá, quando uma se despede para 'viver' na carne. Que bobagem, meu Deus, se tudo é vida ...
E quando partem para serem filhos de outras mães e de outros pais ficamos apreensivos como se, com isso, deixassem de ser filhos de Deus. Nosso primeiro impulso é o de pedir ao pai que os ajude e ao Cristo que ilumine seus caminhos, mas Deus sempre ajuda, com sua inesgotável misericórdia, e o Cristo sempre ilumina nossos caminhos, e até nossos atalhos. O que deveríamos, em verdade, pedir-lhes é que nos ajudem a abrir o coração para receber essa misericórdia abundante, e os olhos, para que possamos ver a luz e não ficar por aí a tropeçar, não porque está escuro, mas porque estamos de olhos fechados ... Ah, o doce e maravilhoso encanto da vida ...
Dez anos se passaram sobre esse episódio. Uma noite, Regina desdobrou-se e foi levada, por uma pessoa que não se identificou - nem ela sabe quem é -, até um lindo parque. Lá chegando, sentou-se junto a um casal ainda jovem que repousava, deitado na grama. Conversavam entre si, mas Regina ficou em silêncio para não perturbar ou interferir. Bastava estar ali. Era tudo paz, e ela estava em paz com o mundo. A Terra parecia estar tão longe e Regina sentia-se como se não tivesse mais nada a ver com ela. Subitamente, a moça olhou-a, sorrindo, e lhe disse: - Por que você não olha para trás? Vai ter uma grande surpresa!
Regina virou-se e não pôde conter uma exclamação de alegria. Lá estava sua Nitinha, um pouco mais crescida, aí pelos oito anos de idade. Acolheu-a com um abraço iluminado pelo amor. E ela, toda risonha, afastou-se um pouco e disse: Olha quem está aqui também! Era o irmãozinho. Regina até hoje não sabe como não morreu de alegria.
Nitinha contou sua historinha simples. Tivera de voltar para completar "um resto de vida", mas era pouco o tempo que precisara cumprir na carne, não mais de meia dúzia de anos, ao que parece. O irmão também teve programa semelhante. Haviam partido juntos e juntos regressaram ao mundo espiritual.
O problema para Regina, agora, era voltar para seu mundo, lá embaixo, e reassumir o corpo físico adormecido em casa. Foi um drama, pois ela queria ficar com as crianças a todo custo, mas ao mesmo tempo sabia de seus compromissos lá embaixo e de vínculos outros, que também os tinha por lá. Havia, ainda, certo trabalho a fazer e que não poderia ser interrompido ou abandonado sem incalculáveis e desastrosas conseqüências. A decisão era difícil, embora ela sentisse ali que, se assim desejasse mesmo, poderia ter feito essa opção, em prejuízo da tarefa inacabada. Sentia-se dividida entre dois pólos de atração: um, na Terra; outro, no mundo invisível! Voltou-se para a moça e perguntou-lhe: - Se eu ficar aqui, agora, mas preocupada com algo lá na Terra, será que terei algum problema mais grave?
- Se seu pensamento ficar, você também ficará presa lá - disse ela. - Aliá, você sabe disso muito bem.
Regina voltou a lutar com o dilema na mente por alguns momentos ainda indecisa. Os outros pareciam esperar, mas obviamente não queriar interferir para tentar influenciá-la em sua dramática decisão. Finalmente chegou a uma conclusão: as crianças estavam bem e havia, na Terra, uma tarefa compromissada a realizar. Decisão final: resolveu voltar para seu cárcere físico. Esse era seu dever. E, afinal, era o que lhe pedia o coração. Foi com as crianças até o lugar onde estavam 'morando'. Era uma casinha singela, com um jardim à frente e um portãozinho. Havia um bosque em frente, não muito distante. Lá foi apresentada a uma senhora que tinha a guarda das crianças. E lhe disse: - A senhora compreende, eu queria muito ficar, mas não posso. Alguém espera por mim lá embaixo. Não posso deixá-lo. Não seria justo. Há trabalho a fazer e sei que ele precisa de mim. Por favor, fique um pouco mais com as crianças. Cuide dos meus amores. Quando voltar, assumirei a guarda. Deus lhe pague. Muito obrigada.
A senhora sorriu um sorriso enigmático de quem sabe muito mais do que diz. E Regina regressou ao corpo. Desta vez, porém, sem tristezas, e por isso não chorou. Sabia que as crianças estavam bem, tinha a convicção de que ainda havia o que fazer aqui. A decisão fora madura e sensata. Não tinha que olhar para trás nem do que se lamentar.
Resumia-se tudo em uma simples e secundária questão de tempo. E, afinal de contas, que é o tempo senão uma curiosa maneira de viajar pela memória de Deus? Tudo estava bem. Estamos todos em Deus, e Ele, que soube nos trazer até aqui, sabe para onde nos leva. Antes de partir, o Cristo disse que ia um pouco à frente para preparar um lugar para seus amigos para que, onde ele estivesse, também eles estivessem.
Maneira educada e sábia de dizer que Ele também sabe para onde vamos todos, ou seja, no imperdível rumo da felicidade e da paz. Só que quase todos nós resolvemos seguir pelos atalhos que alongam indefinidamente a jornada. Sem necessidade ... E pior que isso: de olhos fechados, tateando nas sombras e tropeçando pelos caminhos, somente porque não queremos abri-las ...