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CAPÍTULO VI - DESDOBRAMENTO COMO PRECONDIÇÃO DO TRABALHO MEDIÚNICO 1. INTRODUÇÃO Vimos, há pouco, desdobramento como fenômeno anímico puro, ou seja, sem interferência ou componente mediúnico visível, como telepatia, premonição ou encontros no mundo extrafísico entre pessoas encarnadas, como no caso em que um jovem informou a Regina seu nome e telefone. Examinamos fenômenos anímicos nos quais ocorreram atividades mediúnicas com a participação óbvia de seres desencarnados, conservando, contudo, características mais ou menos pessoais. Estão nesta categoria aqueles em que Regina se encontra com crianças que outrora foram seus filhos ou com o espírito de sua mãe e, provavelmente, o caso do soldado argelino que, pelo que se pode supor, deveria estar desencarnado. Veremos, a seguir, alguns em que a atividade mediúnica é predominante, parecendo ser a própria razão do desdobramento, que se apresenta como preliminar do trabalho no plano espiritual, junto de entidades empenhadas em tarefas de mais amplas conotações e perspectivas. Acredito que isto seja válido para grande parte dos médiuns em atividade regular, embora sejam ainda escassos os depoimentos pessoais como os de Ivonne Pereira em Devassando o Invisível e Recordações da Mediunidade. Regina não foge à regra. Bem cedo, aliás, no exercício de suas faculdades, percebeu que o médium não trabalha apenas durante as reuniões semanais, o que é válido também para os demais componentes do grupo. Muito tem insistido conosco nosso orientador espiritual com essa recomendação básica, ou seja, de que precisamos nos manter em estado de permanente vigília, não apenas para nos protegermos de investidas a que estamos sujeitos nesses momentos, especialmente da parte daqueles que desejam a todo custo neutralizar nosso trabalho junto deles. Como diz ele: "Nunca sabemos a que momento o Cristo vai precisar de nossa modesta participação em alguma atividade" para socorrer alguém com uma palavra de consolo, de estímulo e de afeto ou para apaziguar uma situação potencialmente explosiva. Essa advertência tem sido de considerável importância e utilidade para nós. Há sobre isso inequívocos testemunhos quando descobrimos posteriormente, no decorrer do trabalho mediúnico, que os espíritos que se acham em tratamento em nosso grupo nos acompanharam praticamente durante as vinte e quatro horas do dia. Não apenas em busca de um momento de invigilância em que pudessem, interferir, mas também para observar - e com a severidade própria dos que se consideram adversários - se realmente estamos procurando agir segundo aquilo que lhes pregamos. A conclusão deles tem sido consistente e, usualmente, muito instrutiva para cada um de nós. Seguindo-nos nas atividades normais da vida, observam-nos em momentos de tensão, impaciência, nervosismo ou irritação, bem como em instantes de tranqüilidade ou praticando algum gesto de boa vontade. Observam, em suma, que somos gente como ele mesmos, com dificuldades e imperfeições, limitações e potencialidade na difícil luta contra nossas próprias mazelas. Percebem que ganhamos aqui e ali, uma ou outra vitória menor, entre as muitas batalhas perdidas contra o orgulho, a intolerância ou a vaidade. Por isso não tentam jamais pregar-lhes sermões moralizadores como se fôssemos seres redimidos, em odor de santidade, e eles, uns pobres mendigos espirituais mergulhados na maldade, nada disso. Somos companheiros de jornada evolutiva, com problemas semelhantes aos deles, com as mesmas dificuldades e as mesmas imperfeições, apenas em graus diversos, quando muito! Como iremos exigir deles um comportamento exemplar que ainda não temos? Como impor-lhes a humildade, se ainda carregamos pesada carga de nossa própria vaidade? Como obrigá-los a perdoar sem reservas o antigo adversário, se ainda ontem nos ouviam dizer que fulano havia cometido contra nós uma falta imperdoável? Paradoxalmente, contudo, é por ver-nos tão semelhantes a eles mesmos e com dificuldades íntimas tão iguais às deles que, às vezes, resolvem também aceitar as condições em que estamos vivendo, a despeito de todas as lutas e problemas que isto lhes impõe. Sim, pois são muitos os que prolongam, além dos limites do razoável, a permanência no mundo espiritual em uma existência e outra, porque, ante a gravidade das faltas cometidas e desarmonias que ainda carregam em si, temem a aspereza da vida na carne, que em tais casos será de duras provações. Analisando nossas dificuldades e nossas reações ante elas, acabam por concluir que a tentativa pode resultar em enorme esforço e sacrifício, mas não é impossível. Estamos, portanto, expostos a essa observação a qualquer momento, onde quer que estejamos, na atividade diária, na rua, no lar, no trabalho ou mesmo durante as horas de desprendimento, enquanto o corpo repousa. Declara Gúbio a André luiz, em Libertação: - Não mediste ainda a extensão do intercâmbio entre encarnados e desencarnados. A determinadas horas da noite, três quartas partes da população de cada um dos hemisférios da crosta terrestre se acham nas zonas de contato conosco, e a maior porcentagem desses semilibertos do corpo pela influência natural do sono permanece detida nos círculos de baixa vibração, qual este em que nos movimentamos provisoriamente. Por aqui, muitas vezes se forjam dolorosos dramas que se desenrolam nos campos da carne. Grandes crimes têm nesses sítios as respectivas nascentes e, não fosse o trabalho ativo e constante dos espíritos protetores que se desvelam pelos homens no labor sacrificial da caridade oculta e da educação perseverante, sob a égide do Cristo, acontecimentos mais trágicos estarreceriam as criaturas. (Xavier. Francisco c./ luiz. André. 1974). Nunca é demais, portanto, insistir, como o faz nosso companheiro mais experimentado, na atitude vigilante onde quer que estejamos, seja qual for a hora do dia ou da noite, vigilância, esclarece ele, não é ficar como que de guarda a alguma coisa e, sim, estar em estado de alerta a fim de não nos deixarmos envolver em situações prejudiciais à nossa programação espiritual regeneradora. No trabalho mediúnico ativo não é só o médium que tem tarefas a realizar no mundo espiritual. O que ocorre é que, precisamente por causa do treinamento na utilização de suas faculdades, ele se lembra com maior freqüência das atividades desenvolvidas enquanto repousa o corpo durante o sono comum. Mesmo sem dispor de nenhuma mediunidade ostensiva, contudo, guardo lembranças ocasionais e fragmentárias desse tipo de atividade, e não são raros os episódios em que podemos confrontá-las com outros companheiros e verificar que conferem. Em verdade não é só no plano invisível que se realizam trabalhos paralelos aos que são promovidos em torno da mesa mediúnica. Não poucas vezes verificamos que companheiros encarnados nos são sutilmente encaminhados para atendimento ou a eles chegamos por inexplicadas razões. Em dezenas de histórias verídicas que escrevi para contar episódios dessa natureza, há dramáticos relatos de situações que se resolveram porque tocamos o coração de alguém desencarnado, que parecia bastante duro, com um impulso de fraternidade em favor de alguém que, sem sabermos, estava ligado pelos inquebrantáveis vínculos do amor aos que nos combatiam. Com freqüência observamos que o trabalho continua pela noite adentro. Em nossos desdobramentos durante a semana somos levados a visitar pessoas encarnadas ou desencarnadas, em locais diversos, muitas vezes nos próprios núcleos ou instituições onde militam os companheiros que se acham em tratamento no grupo mediúnico. Algumas vezes é trabalho complementar, outras, é tarefa preliminar ou de observações. Somos, também, levados a reuniões de estudo e debate, assistimos a palestras, recebemos instruções, tomamos conhecimento de planos e estratégias de trabalho a desenvolver, sempre sob a supervisão de nossos orientadores espirituais. Em algumas oportunidades encontramos em tais reuniões pessoas cujos ombros carregam pesadas responsabilidades no movimento espírita. Regina se recorda de comentários, um tanto surpreendentes, 'ouvidos' do outro lado da vida, emitidos por pessoas que, embora conscientes lá de que não estão agindo da maneira adequada, têm, aqui, mergulhados na carne, a visão toldada, e prosseguem com seus equívocos. Acontece a Regina, às vezes, perceber que companheiros encarnados, já desdobrados pelo sono, aguardam que ela própria se desligue para seguirem juntos para o trabalho programado. De outras vezes ela observa que tais companheiros a trazem de volta ao corpo físico, momentos antes de despertar vindos de reuniões ou tarefas no plano espiritual. Ela se aproxima do corpo físico em repouso, mergulha nele, assume seus controles mentais e, de olhos abertos e desperta, ainda os vê ali por alguns momentos. Pode ocorrer, também, que ela seja obrigada a interromper, por instantes, a tarefa no mundo invisível para atender a algum 'chamado' do corpo físico. Nesses casos, ela volta para o corpo, desperta, atende às suas exigências, deita-se e deixa-o novamente, retornando ao lugar onde o trabalho se realiza. Isso, aliás, é comum acontecer-lhe. Habituada ao processo do desprendimento, que passou a ser uma rotina para ela. Regina deixa o corpo com facilidade e sem preocupações, mesmo porque sabe que, ante qualquer imprevisto, pode regressar numa fração segundo, André Luiz nos fala sobre o temor dos seres humanos primitivos que, parcialmente desdobrados pelo sono, permaneciam ali, ao pé do corpo como a tomar conta dele.
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Nome do Capítulo Desdobramento como precondição do trabalho mediúnico