Todo esse arsenal alucinante de opressão e miséria tem como suporte uma teologia que lhes é própria. Seus artífices não ignoram as verdades contidas na Doutrina Espírita, nem têm como negá-la, diante do que sabem, mas justificam suas atrocidades com frases estereotipadas, sempre as mesmas, no fundo, embora variadas na forma. Sim, reconhecem, é verdadeira a doutrina da reencarnação, por exemplo. A Igreja a admite há muito tempo, dizem, mas conserva tais conhecimentos limitados a uma elite pensante, pois essas informações não devem ser transmitidas à massa popular. Um dia, quando conseguirem restaurar todo o poderio da Igreja, esses conhecimentos serão liberados e o Evangelho do Cristo será novamente pregado tal como é, ou seja, como eles entendem que seja. Um deles me declarou, certa vez, que existe, pronta, uma nova versão do Evangelho, cuidadosamente preparada, para ser lançada no momento oportuno. Esse momento é sempre o mesmo: quando restabelecerem novamente o domínio total sobre a Humanidade, tal como no passado, em que era honra concedida aos reis beijarem os pés dos Papas.
Enquanto isso, tramam, envolvem, planejam e executam, com a cumplicidade de muitas fraquezas humanas, próprias e alheias.
É claro, pois, que o alvo de preferência de suas investidas é o Espiritismo, que muitos combateram “em vida” e que prosseguem combatendo, com redobrado ardor, quando se passam para o mundo póstumo. Os grupos espíritas de trabalho mediúnico interferem direta ou indiretamente em seus planos. Muitas vezes, tais grupos se envolvem em autênticos vespeiros, ao tentarem ajudar companheiros encarnados ou desencarnados, sob o guante de terríveis obsessões.
É que, em não poucas oportunidades, os obsidiados são peças importantes no complexo jogo de
xadrez das sombras. Verdadeiras batalhas travam-se em torno de determinadas figuras humanas, e os grupos que intentam salvá-las das suas aflições precisam estar realmente bem preparados, ou serão impiedosamente esmagados pela agressividade dos poderosos dirigentes das trevas.
Por outro lado, o movimento espírita moderno, especialmente no Brasil, conta com enorme quantidade de antigos sacerdotes, arrependidos de seus desatinos passados, procurando, em nova encarnação, lavar as manchas de crimes hediondos que cometeram. Para os antigos comparsas, no entanto, são trânsfugas desprezíveis, que cumpre esmagar, apóstatas que têm de destruir, heréticos que precisam calar, a todo custo.
Quantos me têm interpelado, com as mais terríveis invectivas! Um deles, conhecendo meu passado, tanto na Igreja Católica como na Protestante, me disse, com ódio e desprezo: — Protestante e espírita, dois porcos num só... Outro, fanático e não mau, buscava-me há mais de quatro séculos, pois da última vez em que fomos companheiros, éramos sacerdotes católicos, antes ainda da Reforma Protestante. Outros se empenham em “recuperar-nos”, seja com ameaças, seja com promessas sedutoras ou barganhas inaceitáveis.
A esta altura, o leitor, algo impressionado, estaria perguntando se não há sacerdotes de boa índole, no mundo espiritual. Certamente que sim, e, graças a Deus, em grande número; com muito mais frequência, porém, entre aqueles que foram pequenos e humildes servidores da Igreja, conscientes das grandezas do Evangelho de Jesus. São eles os serenos párocos de aldeia, monges e frades que se dedicaram à caridade e ao serviço ao próximo. São muitos os que rapidamente se adaptam às condições do mundo espiritual, onde não encontram nem o céu de gozos inefáveis, nem o inferno aterrador, nem tampouco o purgatório lendário, mas apenas as condições que criaram para si mesmos. Alguns dos mais destacados membros da hierarquia eclesiástica também vencem, com surpreendente brevidade, o período de perplexidade em que mergulham com a desencarnação.
Um deles, manifestado no Grupo Ismael, declara, na sua segunda comunicação: — “É estupenda a metamorfose que se operou no meu Espírito, desde a visita que vos fiz. Extraordinário fenômeno, capaz de confundir a inteligência mais atilada e a criatura melhor provida de conhecimentos teológicos e profanos. Estupenda, grandiosa, diria mesmo fenomenal, é a obra em que colaborais, vós outros, homens terrenos, malquistos pela sociedade perversa dos vossos dias.
Medito e considero: eu, servidor da Igreja, elevado à mais alta dignidade eclesiástica, na Terra de Santa Cruz, venho entre vós, criaturas simples, na maioria sem grande preparo intelectual, beber da água da vida que o ensino da Igreja romana nunca pôde proporcionar ao meu espírito sedento.
Quando daqui regressei, meus irmãos, o infinito como que se havia transmudado e novo cenário se me deparou. A coorte dos que me acompanhavam, cabisbaixa e encolhida num recanto, demonstrava a sua contrariedade pelos efeitos que a minha visita produzira em meu espírito”.9
Fora daqueles que, “em vida”, segundo suas próprias declarações na sessão anterior, “procurara, juntamente com outros dignitários da sua Igreja, meios de conseguir que cessassem as atividades da Federação, na propaganda do Espiritismo, pelo considerar falsa e errônea essa doutrina, prejudicial ao Catolicismo”. Era, agora, socorrido exatamente na organização que tentara fazer calar. Note-se, também, em sua comunicação, a referência à coorte dos que o seguiam e ao desapontamento em que ficaram, ao ver o bravo cardeal render-se espontaneamente àqueles que todos consideravam como adversários, que não mereciam piedade nem consideração.
9 TRABALHOS DO GRUPO ISMAEL, vol. julho/1939 a dezembro/1940. Compilação do Dr. Guillon Ribeiro, edição da FEB, 1941, página 137.
De outro cardeal desencarnado ouvi, certa vez, a lamentosa queixa do arrependimento, não pelo combate ao Espiritismo, mas pelo que deixara de fazer de bom, quando dispunha de tantos recursos e poderes, em virtude do íntimo conhecimento dos bastidores políticos da Igreja.
Comovente, porém, são as pequenas manifestações anônimas, em serviços preciosos, de que somente tomamos conhecimento por via indireta. Um dos poderosos “Príncipes da Igreja”, impetuoso e arrogante, que nos tratava com superior condescendência, foi acolhido por um velho e humílimo criado de quarto, que o servira nos seus dias de glória.
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Muitas são as lições dolorosas que nos ministram os dramas vividos por esses pobres irmãos que insistem em declarar-se trabalhadores do Cristo.
Examinando suas tendências, estudando suas atitudes e pronunciamentos, creio que poderíamos identificar duas posições básicas, neles: ambição e fanatismo. Às vezes, a ambição e o fanatismo parecem coexistir no mesmo Espírito, mas ocorrem, também, separadas. Os ambiciosos desejam o poder, o exercício da autoridade. Não sabem viver sem mandar, sem oprimir, sem impor sua vontade e suas ideias.
Movem-nos ambições desmedidas, sustentadas e impulsionadas pela filosofia da restauração da “verdadeira” Igreja do Cristo. Quantos deles não nos têm confessado sua impaciência e irritação ante a desagregação da autoridade da velha organização eclesiástica terrena! Não é essa a imagem da Igreja com que sonham. Querem-na forte, poderosa, autoritária, incontestada, ditatorial, como nos tempos idos; não essa aí, que está sempre recuando e entregando-se, como se acuada. No mundo espiritual em que vivem, conservaram os modelos medievais, com todo o seu cortejo de vícios, Só lhes resta reimplantar esses modelos entre os encarnados, repondo a esclerosada organização terrena no seu antigo “esplendor”.
É certo que, para esses objetivos, encontram apoio nos mais insuspeitados setores da atividade humana, tanto aqui, como no mundo espiritual. Para isto, ligam-se a outros poderosos do passado, com os quais celebram pactos sinistros de apoio mútuo, para partilharem do vasto bolo do poder, se e quando o reconquistarem. É comum encontrarmos, entre os desencarnados, sacerdotes de elevada hierarquia eclesiástica, perfeitamente entrosados com antigos governantes leigos que se revelaram indiferentes às questões puramente religiosas ou francamente hostis ao movimento cristão, que alguns deles chegaram mesmo a combater tenazmente, quando de suas passagens pela carne. Não importa. Desde que constituam bons parceiros na conquista das posições, as tenebrosas alianças realizam-se.
Quanto aos fanáticos, nem sempre são ambiciosos, no sentido da disputa do domínio político. Estão convencidos de que sua forma de pensar é a Única certa, com exclusão de todas as demais. Combatem o Espiritismo, não tanto porque desejam posições de mando, mas porque o consideram uma odiosa heresia. No fundo, o fanático puro serve de instrumento ao ambicioso, pois este não se interessa pelo pensamento religioso em si, e sim pelo poder que uma teologia deformada e bem manipulada pode proporcionar. Muitos desses Espíritos repetem incessantemente seus enganos por séculos a fio, buscando sempre os núcleos do poder, quaisquer que sejam as crenças em que se apóiam. Foram hierofantes de decadentes cultos egípcios, por exemplo; repetiram a experiência, como sacerdotes judeus, e voltam a insistir, como prelados católicos, sempre disputando posições de relevo, de onde possam manobrar. Para que essas mudanças tão radicais de posição teológica não os incomode, condicionam-se a um esquecimento das antigas circunstâncias, para não terem que enfrentar conscientemente uma realidade estranha, como a de
declararem-se em luta pela restauração da Igreja do Cristo, quando toda a sua atividade e todas as suas verdadeiras convicções são um desmentido formal à doutrina de amor contida nos Evangelhos. Às vezes, despertam para a realidade, ante o impacto traumático de revelações que dormitavam em seus indeléveis registros perispirituais, como aquele imponente “servidor” do Cristo que acabou descobrindo que participara pessoalmente do drama da cruz... Outro ajudou a apedrejar Madalena... Um terceiro lamentava ter queimado uma santa. Seria Joana d’Arc?