Capítulo 4
Luciana, chamada nominalmente à palestra, esclareceu que teria satisfação em cooperar e contou-nos que buscara desenvolver as faculdades de que era portadora, a fim de socorrer, noutro tempo, o Espírito de seu pai, desencarnado numa guerra civil. Tivera ele preponderância no movimento de insurreição pública e permanecia nas Esferas inferiores, alucinado pelas paixões políticas. Depois de paciente auxílio, reajustara emoções, obtendo possibilidades de reencarnar em grande cidade brasileira, para onde ela mesma, Luciana, seguiria também logo pudesse o genitor do pretérito organizar novo lar, restabelecendo-se a aliança de carinho e de amor, segundo o projeto por ambos estabelecido. Zenóbia ouvia com atenção. Percebendo talvez que a palestra tendia para o campo do personalismo direto, em minutos para os quais provavelmente a diretora da casa teria outros compromissos, Jerônimo interferiu na conversação e dirigiu-se a ela, atencioso: — Estamos satisfeitos, Irmã, pela perspectiva de algum concurso amigo, ao seu lado. Compreendemos a grandeza de sua missão nobilitante e, se vamos depender tanto de seu generoso amparo, nesta casa, constitui-nos obrigação cooperar com a Irmã nos trabalhos em que nossa humilde colaboração possa ser útil. Seguiremos, amanhã, para a zona carnal. Entretanto, logo que nos seja possível trazer para sua companhia o primeiro irmão libertado, André e eu permaneceremos em trânsito, entre a Crosta e este abençoado asilo, enquanto Hipólito e Luciana se demorarão aqui, velando pelos convalescentes e colaborando, junto da Irmã, nas tarefas imediatas. — Alegra-me sobremaneira a expectativa! Falou a diretora, evidentemente satisfeita. Nesse instante, invisível campainha ressoou, estridente, com estranha entonação. Não decorreram cinco segundos e alguém penetrou a sala, rumorosamente. Era determinado servo da vigilância, que anunciou, precípite: — Irmã Zenóbia, aproximam-se entidades cruéis. A agulha de aviso indicou a direção norte. Devem estar a três quilômetros, aproximadamente. A orientadora empalideceu ligeiramente, mas não traiu a emoção com qualquer gesto que denunciasse fraqueza. — Acendam as luzes exteriores! — Ordenou, — todas as luzes! E liguem as forças da defesa elétrica, reforçando a zona de repulsão para o norte. Os invasores desviar-se-ão. Retirou-se apressadamente o emissário, enquanto pesado silêncio abatia-se sobre nós. Luciana fizera-se lívida. Jerônimo e Zenóbia demonstravam, através do olhar, asfixiante preocupação. Registar-se-iam fatos que eu ignorava? Será que Espíritos reconhecidamente maus também organizavam expedições semelhantes às que realizávamos para o bem? Que espécie de entidades seriam aquelas, para infundirem tamanha preocupação nos dirigentes esclarecidos e virtuosos de nossos trabalhos e tão grande terror nos subordinados daquela casa de amor cristão? Impressionara-me a expressão facial de dor e incerteza do servidor que trouxera a notícia. Seriam tantos os malfeitores das sombras para justificar semelhante pavor? Sentia o raciocínio extremamente reduzido para comportar a imensidade das interrogações que me afloravam à mente. Através de minúscula abertura, notei que enormes holofotes se acendiam de súbito, no exterior, como as luzes de grande navio assaltado por nevoeiro denso em zona perigosa. Ruídos característicos faziam-se sentir à nossa audição, informando-nos que aparelhos elétricos haviam sido postos em funcionamento. — É lamentável, — exclamou Zenóbia, com a manifesta intenção de restaurar-nos a tranquilidade, — que tantas inteligências humanas, desviadas do bem e votadas ao crime, se consagrem aqui ao prosseguimento de atividades ruinosas e destruidoras. Nenhum de nós se atreveu a dizer qualquer novidade. A diretora, porém, esforçando-se por sorrir, continuou: — A tragédia bíblica da queda dos anjos luminosos, em abismos de trevas, repete-se todos os dias, sem que o percebamos em sentido direto. Quantos gênios da Filosofia e da Ciência dedicados à opressão e à tirania! Quantas almas de profundo valor intelectual se precipitam no despenhadeiro de forças cegas e fatais! Lançados ao precipício pelo desvio voluntário, esses infelizes raramente se penitenciam e tentam recuo benéfico… Na maioria das vezes, dentro da terrível insatisfação do egoísmo e da vaidade, insurgem-se contra o próprio Criador, aviltando-se na guerra prolongada às suas divinas obras. Agrupam-se em sombrias e devastadoras legiões, operando movimentos perturbadores que desafiam a mais astuta imaginação humana e confirmam as velhas descrições mitológicas do inferno. Observando-me, possivelmente, a angústia íntima, em face de suas considerações, Irmã Zenóbia acrescentou: — Chegará, porém, o dia da transformação dos gênios perversos, desencarnados, em Espíritos lucificados pelo bem divino. Todo mal, ainda que perdure milênios, é transitório. Achamo-nos apenas em luta pela vitória imortal de Deus, contra a inferioridade do “eu” em nossas vidas. Toda expressão de ignorância é fictícia. Somente a sabedoria é eterna. Por minha vez, gostaria de formular várias indagações, porém a expectativa fizera-se mais pesada. — Alguns séculos, — prosseguiu a diretora, — constituem escasso tempo para reeducar inteligências pervertidas no crime, através das reencarnações terrestres. É por isso que os trabalhos retificadores continuam vivos, além da morte do corpo físico, obrigando os servos da verdade e do bem a suportar os irmãos menos felizes, até que se arrependam e se convertam… Indefiníveis ruídos alcançaram-nos o ouvido, e Zenóbia, pálida, calou-se igualmente. Em poucos segundos, tornaram-se mais nítidos. Eram gritos aterradores, como se a curta distância devêssemos afrontar hordas de enraivecidos animais ferozes. Entre nós, Luciana parecia a mais atemorizada. Torcia nervosamente as mãos, até que, não lhe sendo possível suportar por mais tempo a inquietação, dirigiu-se à diretora da casa, suplicando: — Irmã, não será conveniente endereçarmos fervorosa rogativa a Deus? conheço os monstros. Tentaram, muita vez, arrebatar meu pai do sítio a que se recolhera!… Zenóbia sorriu com benevolência e respondeu: — Já fiz meus atos devocionais de hoje, preparando-me para as ações eventuais do trabalho no decurso do dia. Aliás, minha amiga, nossa ansiosa expectativa, em si mesma, vale por súplica ardente. Decidamos, pois, qualquer problema a sobrevir, com resolução e confiança em Nosso Pai e em nós próprios. A esse tempo, tornara-se enorme o vozerio. Pus-me, assombrado, a identificar rugidos estridentes de leões e panteras, casados a uivos de cães, silvos de serpentes e guinchos de macacos. Em dado momento, ouvimos explosões ensurdecedoras. Quase no mesmo instante, certo auxiliar penetrou o recinto e comunicou: — Atacam-nos com petardos magnéticos. A diretora resoluta ouviu, serena, e determinou: — Emitam raios de choque fulminante, assestando baterias. As farpas elétricas deviam ser atiradas em silêncio, porque as explosões diminuíram até à extinção total, percebendo-se que a horda invasora se desviara noutro rumo, pelo ruído a perder-se distante. Respiramos aliviados. Estampou-se confortadora expressão na fisionomia de Zenóbia, que falou, satisfeita: — Agora, peçamos ao Mestre conceda aos infelizes o caminho preciso, de acordo com as suas necessidades. Escoaram alguns minutos, nos quais elevamos pensamentos de gratidão e júbilo ao Cristo Salvador. Tornando à palavra livre, considerei: — Que impressionantes rugidos ouvimos! Não se figuravam lamentos de corações sofredores, mas algazarra de feras soltas. Terrível novidade!… — Esses bandos, porém, — observou a diretora, sensatamente, — são antigos. Entre as narrações evangélicas, ao tempo da passagem de Nosso Senhor pelas estradas humanas, lemos o noticiário alusivo às legiões dos gênios diabólicos. () Enquanto concordávamos, em silêncio, prosseguiu, compungida: — Enraízam-se os pobrezinhos tão intensamente nas ideias e propósitos do mal e criam tantas máscaras animalescas para si mesmos, em virtude da revolta e da desesperação a lhes consumirem a alma, que adquirem, de fato, a semelhança de horrendos monstros, entre a humanidade e a irracionalidade. Antes que pudesse continuar nas observações tristes, penetrou um assessor no salão e dirigiu-se à orientadora do instituto: — Irmã Zenóbia, ambos os desequilibrados que deram entrada, anteontem, romperam as celas e tentam fugir. A interpelada atalhou a notificação, expedindo ordem: — Prendam-nos, imediatamente, com a colaboração dos vigilantes. Temos responsabilidade. A expedição que no-los confiou regressará amanhã, nas primeiras horas. Encontrava-se o cooperador junto à porta de saída, quando outro auxiliar apareceu, atento. — Irmã, — disse, respeitoso, — as notas da Crosta chegaram agora. O chefe da missão Figueira, em atividade desde a semana finda, pede sejam preparadas acomodações para três recém-desencarnados, depois de amanhã. — Tomarei providências, — informou a diretora sem se alterar. Íamos reiniciar a palestra, mas aproximou-se uma jovem serviçal, fazendo também sua participação: — Irmã Zenóbia, a turma de vigilância, que descansou há três dias, voltou a postos. — Mande-a retomar os lugares, — recomendou a interpelada, — e que os irmãos exaustos repousem convenientemente.
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