Depois de viagem normal, através dos caminhos comuns, alcançamos nevoenta região, onde asfixiante tristeza parecia imperar incessantemente. De outras vezes, eu já atravessara sítios semelhantes, gastando apenas alguns minutos. Agora, porém, era compelido a longa marcha em sentido horizontal. Atendendo a imperativos da missão, o Assistente Jerônimo procurava certa localidade, sob a denominação expressiva de “Casa Transitória de Fabiano”. Tratava-se de grande instituição piedosa, no campo de sofrimentos mais duros em que se reúnem almas recém-desencarnadas, nas cercanias da Crosta Terrestre, a qual, segundo nos informou o chefe da expedição, fora fundada por , devotado servo da caridade entre antigos religiosos do Rio de Janeiro, desencarnado há muitos anos. Organizada por ele, era confiada, periodicamente, a outros benfeitores de elevada condição, em tarefa de assistência evangélica, junto aos Espíritos recém-desligados do Plano carnal.
— Na Casa Transitória, — prosseguia Jerônimo, explicando-nos, — prestaremos o auxílio que nos seja possível à organização e asilaremos, em seguida, os irmãos que nos cabe socorrer. Não fossem esses pousos de amor, tornar-se-ia muito difícil nosso trabalho. Raramente encontramos companheiros carnais em condições de atravessarem semelhante zona, imediatamente após a morte física. Quase todos permanecem estonteados, nos primeiros dias. Se entregues à própria sorte, seriam fatalmente agredidos pelas entidades perversas, ou habilmente desviados por elas do bom caminho de restauração gradual das energias interiores. Daí a necessidade desses abrigos fraternais, em que almas heroicas e dedicadas ao sumo bem consagram-se a santificadas tarefas de amparo e vigilância. Após breve pausa, concluiu:
— Além disso, teremos aí todo o equipamento necessário aos trabalhos que nos cumpre realizar. Curioso, guardei silêncio e esperei. Não se passou muito tempo, defrontava-nos casarão enorme em plena sombra. Nada que evidenciasse preocupação artística e bom gosto na construção. Nem árvores, nem jardins em torno. A edificação baixa e simples mal se destacava no nevoeiro denso. Certo, percebendo-me a estranheza, Jerônimo esclareceu:
— O nome do instituto, André, fala por si mesmo. Temos, à frente, acolhedora casa de transição, destinada a socorros urgentes. Embora seu assombro natural, é asilo móvel, que atende segundo as circunstâncias do ambiente. Sofre permanente cerco de Espíritos desesperados e sofredores, condenados pela própria consciência à revolta e à dor. Suas defesas magnéticas exigem considerável número de servidores e os amigos da piedade e da renunciação, que aí atendem, passam dia e noite ao lado do sofrimento. Todavia, o trabalho desta Casa é dos mais dignos e edificantes. Neste edifício de benemerência cristã, centralizam-se numerosas expedições de irmãos leais ao bem, que se dirigem à Crosta Planetária ou às Esferas escuras, onde se debatem na dor seres angustiados e ignorantes, em trânsito prolongado nos abismos tenebrosos. Além disso, a Casa Transitória de Fabiano, à maneira de outras instituições salvadoras, nestas regiões, que representam verdadeiros templos de socorro, é também precioso ponto de ligação com as nossas cidades espirituais em zonas superiores. Nesse instante, antes que Jerônimo pudesse prosseguir nos esclarecimentos, atingimos as barreiras magnéticas, a distância de alguns metros do portão de acesso ao interior. Atendidos por trabalhadores vigilantes, que sem hesitação nos ofereceram passagem, acionamos pequeno aparelho que nos ligou, de pronto, ao porteiro prestativo. Não decorreram muitos minutos e achamo-nos diante de figura respeitável. Não supunha que a instituição estivesse administrada por mãos sensíveis de mulher. A Irmã Zenóbia, aparentando idade madura e aureolada de cabelos negros, proporcionava-nos informações vivas de sua energia e admirável capacidade de trabalho, através dos olhos transbordantes de luz. Saudou-nos, afável, sem despender muitas palavras, passando imediatamente ao assunto que a nossa presença sugeria:
— Fui avisada ontem, — disse, bondosa, — que a missão chegaria hoje e rejubilamos com isso.
— Ao seu dispor, — explicou-se Jerônimo, com gentileza.
— Este abrigo de amor e paz cooperará conosco, asilando-nos alguns tutelados convalescentes, e, por nossa vez, desejamos ser úteis à casa, de algum modo. Zenóbia envolveu-nos num sorriso de simpatia acolhedora e, após rápidos minutos de silêncio, considerou:
— Aceitamos o concurso. Reconheço a presença dum grupo harmonioso e, desde a semana finda, aguardava ensejo, não só para beneficiar a coletividade sofredora de abismo próximo, senão também a fim de socorrer certo irmão nosso, muito infeliz. Trata-se de pessoa que me foi particularmente querida e que apenas agora foi encontrada em remota região de seres decaídos. Vencendo obstáculos, trouxemo-la para a vizinhança da Casa; porém, o perigoso estado em que se encontra não nos autoriza a fornecer-lhe abrigo e, sim, proteção indireta. Já estabelecemos medidas em favor da remoção desse infortunado amigo para a zona da Crosta, onde será brevemente internado em reencarnação expiatória, com auxílio divino. Entretanto, precisarei pessoalmente da colaboração fraternal dos companheiros, em benefício do transviado… — Sem dúvida, — atalhou Jerônimo, desvanecido, — teremos prazer. Designando a devotada enfermeira que nos acompanhava, acrescentou:
— Em nossa companhia, permanece a Irmã Luciana, que nos pode ser extremamente útil nesse caso particular, em virtude das suas adiantadas faculdades de clarividência. A diretora da Casa Transitória fixou o olhar sereno em nossa colaboradora, sorriu, amável, e prosseguiu:
— Bem lembrado. Alguns irmãos, qual ocorre a esse a que me refiro, descem a tamanho embrutecimento moral que somente conseguem ouvir-nos a voz, de modo imperfeito, e, não lhes sendo possível identificar-nos pela visão, em face dos impedimentos vibratórios criados por eles mesmos, duvidam de nossa amizade e de nossos propósitos elevados de cooperação. No fato presente, o concurso de Luciana ser-me-á precioso. Não podia disfarçar o meu constrangimento ante aquele pormenor da conversação. Por que motivo a Irmã Zenóbia, orientando instituição como aquela, necessitaria de nossa colaboração, mormente no capítulo da clarividência mencionada? Porventura, não poderia também esquadrinhar os problemas de almas sofredoras e decaídas? Incapaz de sopitar a interrogação, observei, admirado:
— Oh! Quer dizer que os benfeitores daqui não podem ver quanto desejam? Foi o Assistente Jerônimo quem veio ao meu encontro.
— Antes de tudo, André, — falou, compassivo, — faz-se necessário considerar que a Irmã Zenóbia, não obstante a sua extensa visão espiritual, terá razões íntimas para invocar a providência. Quanto ao mais, não devemos esquecer os imperativos da especialização. A resposta tivera efeito de ducha gelada. Arrependera-me de haver formulado a interrogação indiscreta. Completando, porém, o ensinamento, Jerônimo continuou:
— Senão, vejamos: o padre Hipólito consagra-se, atualmente, à interpretação das leis divinas, no serviço educativo àqueles que as desconhecem, enquanto a Irmã Zenóbia atende a sofredores, em massa, nesta casa de amor cristão. Claro que poderiam exercitar a clarividência, com benefícios generalizados para o próximo; todavia, com prejuízo manifesto dos deveres imediatos. Isso não ocorre com Luciana que, pelo contato individual e intenso com os enfermos, durante muitos anos consecutivos, especializou-se em penetrar-lhes o mundo mental, trazendo à tona suas ideias, ações passadas e projetos íntimos, em atividade beneficente. Se entrássemos nós outros, de improviso, em relação com a sua clientela, veríamos “alguma coisa”, embora, não tanto e tão bem quanto pode ser observado por ela, em vista de suas dilatadas experiências. A seu turno, Luciana poderia, de imediato, interpretar os ensinamentos divinos e orientar esta casa, “de algum modo”, mas não tanto e tão bem quanto o padre Hipólito e a irmã Zenóbia, considerando-lhes os vastos conhecimentos nesse sentido. Todas as aquisições espirituais exigem perseverança no estudo, na observação e no serviço aplicado. E devemos considerar que isso não infirma a necessidade de aprender sempre. O músico exímio poderá ser aprendiz incipiente da Química, destacando-se, mais tarde, nesse campo científico, como se verifica na arte dos sons. Não alcançará, todavia, a realização, sem gastar tempo, esforço e boa vontade. Aliás, o próprio Mestre assegurou que o homem encontrará aquilo que procura. () Sorrindo de minha interrogação, que provocara ensinamentos tão rudimentares, concluiu:
— A busca de dons espirituais para a vida eterna não representa serviço igual à cata de objetos perdidos na Crosta. Interveio a Irmã Zenóbia, acrescentando fraternalmente:
— Sim, não podemos edificar todas as qualidades nobres de uma só vez. Cada trabalhador fiel ao dever possui valor específico, incontestável. A Obra Divina é infinita. Tornando ao primitivo rumo da conversação, prosseguiu:
— Quando dispomos de clarividentes nos serviços de socorro ao abismo, em circunstâncias favoráveis, conseguimos resultados de preciosa eficiência. Os servidores dessa natureza, porém, são poucos, em vista da multiplicidade das tarefas e raros se dispõem a servir nas paisagens escuras da angústia infernal.