De regresso ao tugúrio de Orzil, perguntei sem preâmbulos:
— Nossos irmãos doentes, desse modo, estarão segregados, até que se renovem?
— Perfeitamente, — aclarou Silas, bondoso.
— E que devem fazer para atingir a melhora necessária? — Indagou Hilário com insofreável assombro. Nosso amigo sorriu e obtemperou:
— O problema é de natureza mental. Modifiquem as próprias ideias e modificar-se-ão. Entregou-se a ligeira pausa, mostrou novo brilho no olhar percuciente e acentuou com segurança:
— Isso, porém, não é tão fácil. Consagram-se vocês, presentemente, a estudos especiais dos princípios de causa e efeito. Fiquem pois sabendo que nossas criações mentais preponderam fatalmente em nossa vida. Libertam-nos quando se enraízam no bem que sintetiza as Leis Divinas, e encarceram-nos quando se firmam no mal, que nos expressa a delinquência responsável, enleando-nos por essa razão ao visco sutil da culpa. Afirma velho aforismo popular na Terra que “o criminoso volta ao local do crime”. Daqui podemos asseverar que, mesmo desfrutando a possibilidade de ausentar-se da paisagem do crime, o pensamento do criminoso está preso ao ambiente e à própria substância da falta cometida. E, reparando em nossa perplexidade, acrescentou:
— Recordemos, ainda, o pensamento, atuando à feição de onda, com velocidade muito superior à da luz, e lembremo-nos de que toda mente é dínamo gerador de força criativa. Ora, sabendo que o bem é expansão da luz e que o mal é condensação da sombra, quando nos transviamos na crueldade para com os outros, nossos pensamentos, ondas de energia sutil, de passagem pelos lugares e criaturas, situações e coisas que nos afetam a memória, agem e reagem sobre si mesmos, em circuito fechado, e trazem-nos, assim, de volta, as sensações desagradáveis, hauridas ao contato de nossas obras infelizes. Estudamos três tipos de almas que deixaram na existência última somente quadros tristes e lamentáveis, nos quais não dispõem de atenuantes que lhes empalideçam as faltas indiscutíveis. Os filhos do nosso amigo que sofre a fixação de usura não receberam dele quaisquer recursos de educação dignificante que os habilitem a ajudá-lo, quando visitados pelas ondas do pensamento paternal, que voltam ao centro de origem carregadas pelos princípios mentais de ódio e egoísmo dos jovens litigantes. Nosso irmão que padece a fixação de remorso, não tendo expiado nos cárceres da justiça humana o crime que perpetrou deliberadamente, recolhe, de retorno, as ondas de pensamento que emite, sem qualquer auxílio que lhe amenize o arrependimento doloroso; e o nosso companheiro que se detém no vício reabsorve as ondas de seu próprio campo mental, acumuladas de fatores deprimentes, que a elas se incorporam nos lugares por onde passam, restituídas a ele mesmo com multiplicados elementos de corrupção. Diante de nosso espanto, o Assistente inquiriu:
— Compreenderam? Sim, havíamos entendido… Sob forte emoção, Hilário considerou:
— Agora percebo com mais clareza o benefício concreto da oração e da piedade, da simpatia e do socorro que, na Terra, deveríamos dispensar, sinceramente, aos chamados mortos… — Sim, sim… — Respondeu Silas, prestimoso, — todos estamos ligados uns aos outros, na carne e fora da carne, e achamo-nos livres ou prisioneiros, no campo da experiência, segundo as nossas obras, através dos vínculos de nossa vida mental. O bem é a luz que liberta, o mal é a treva que aprisiona… Estudando as leis do destino, é preciso atentar para semelhantes realidades indefectíveis e eternas. Calamo-nos, preocupados e meditativos. Em razão disso, nosso regresso à Mansão, depois de breve repouso na choupana de Orzil, foi consagrado à meditação e ao silêncio, em torno das preciosas lições colhidas.