Capítulo 5
Percebendo que se referia aos precipícios abismais em que se debatiam milhares de almas infelizes e conturbadas, Hilário perguntou: — E não será possível atingir semelhantes lugares para aliviar a quem padece? Nosso novo amigo esboçou dolorosa carantonha de tristeza e resignação, ajuntando: — Impossível… Como quem se punha em socorro do companheiro, Silas aduziu: — Os que se agitam nestas furnas jazem, de modo geral, quase sempre extremamente revoltados e, na insânia a que se entregam, fazem-se verdadeiros demônios de insensatez. É necessário se disponham à conformação clara e pacífica para que, ainda mesmo semi-inconscientes, consigam acolher com proveito o auxílio que se lhes estende aos corações. E como se quisesse passar à demonstração do que asseverava, convidou-nos a inspecionar as celas próximas. — Quantos doentes agora internados? Orzil, atencioso, respondeu sem titubear: — Temos três amigos em franca situação de inconsciência. Depois de alguns passos, ouvimos gritaria estentórica. As acomodações reservadas aos enfermos jaziam ao fundo, à maneira de largos boxes de confortável cavalariça. Essa é a figura mais adequada à nossa tarefa descritiva, porque a construção em si denunciava rusticidade e segurança, naturalmente adstrita aos objetivos de contenção. À medida que nos acercávamos do refúgio, desagradável odor nos afetava as narinas. Respondendo-nos à inquirição íntima, o Assistente salientou: — Vocês não ignoram que todas as criaturas vivem cercadas pelo halo vital das energias que lhes vibram no âmago do ser e esse halo é constituído por partículas de força a se irradiarem por todos os lados, impressionando-nos o olfato, de modo agradável ou desagradável, segundo a natureza em que se expressam. Assim sendo, qual ocorre na própria Terra, cada entidade aqui se caracteriza por exalação peculiar. — Sim, sim… — Confirmamos Hilário e eu, simultaneamente. Entretanto, o cheiro alarmante de carne em decomposição era para nós, ali, um acontecimento excepcional. Silas percebeu-nos a estranheza e endereçou interrogativo olhar ao encarregado daquele oratório de purgação, o qual informou, presto: — Temos conosco o irmão Corsino, cujo pensamento continua enrodilhado ao corpo sepulto, de maneira total. Enredado à lembrança dos abusos a que se entregou na carne, ainda não conseguiu desvencilhar-se da lembrança daquilo que foi, trazendo a imagem do próprio cadáver à tona de todas as suas recordações. Silas não teceu qualquer comentário novo, porque atingíamos, de chofre, o primeiro abrigo, cuja porta gradeada nos deixava contemplar, lá dentro, um homem envelhecido, de cabeça pendida entre as mãos e a clamar: — Chamem meus filhos! chamem meus filhos… — É o nosso irmão Veiga, — disse Orzil, prestimoso. — Mantém fixa a ideia na herança que perdeu ao desencarnar: vasta quantidade de ouro e bens que passou à propriedade dos filhos, três rapazes que concorrem no mundo ao melhor e maior quinhão, prevalecendo-se, para isso, de juízes venais e rábulas inconsequentes. Acostados agora aos varais da porta, Silas recomendou-nos observar com atenção mais detida o ambiente que formava a psicosfera do enfermo. Efetivamente, de minha parte anotei quadros que surgiam e desapareciam, fugazes, semelhantes às figurações efêmeras que se desprendem, silenciosas, dos fogos de artifício. Desses painéis que se avivavam e se apagavam ao mesmo tempo, transpareciam três jovens, cujas imagens passageiras vagueavam entre documentos esparsos, cédulas e cofres refertos de valores, como que pincelados no ar com tinta tenuíssima, que se adelgaçava e se recompunha, sucessivamente. Compreendi que registávamos as , criadas pelas reminiscências do nosso amigo que, decerto, na situação em que se nos apresentava, não podia, de momento, senão viver o seu drama íntimo, tal a insistência da fixação mental em que se encarcerava. Amparado evidentemente pelas vibrações de auxílio que o Assistente lhe enviava, segundo percebi, esfregou os olhos como quem buscava liberar-se de garoa imperceptível e assinalou-nos a presença. Avançou de um salto para nós e, apoiando-se nas grades que nos separavam, gritou, dementado: — Quem sois? Juízes? Juízes?… E derramou-se em lamúrias que nos tocavam o coração: — Lutei por vinte e cinco anos para reaver a herança que me cabia por morte de meus avós… E, quando a vi nas mãos, a morte me arrebatou ao corpo, sem piedade… Não me resignei a essa injunção e permaneci em minha velha casa… Desejava, pelo menos, acompanhar a partilha do espólio que me interessava, mas meus rapazes amaldiçoaram-me a influência, impondo-me, a cada passo, frases venenosas e hostis… Não satisfeitos com as agressões mentais que me infligiam, começaram a perseguir minha segunda esposa, que lhes foi mãe ao invés de madrasta, administrando-lhe tóxicos por medicação inocente, até que a pobrezinha foi internada numa casa de loucos, sem esperança de recuperação… Tudo por causa do nosso rico dinheiro que os malandros querem pilhar… À frente de tal injustiça, pensei suplicar o favor dos seres que povoam as trevas, porque somente os gênios do mal devem ser os fiéis executores da grande vingança… Tentou enxugar as lágrimas de desespero e acrescentou: — Dizei-me!… por que motivo terei alimentado infelizes ladrões, julgando acariciar filhos de minhalma? Casei-me quando moço, acalentando sonhos de amor, e gerei espinheiros de ódio!… E como a voz de Silas se fez ouvir, rogando calma, o infortunado vociferou, desabrido: — Nunca! Nunca perdoarei!… Recorri aos infernos sabendo que os santos me aconselhariam conformidade e sacrifício… Quero que os demônios torturem meus filhos, tanto quanto meus filhos me torturam… Transformando o choro convulso em gargalhadas estridentes, passou a bradar: — Meu dinheiro, meu dinheiro, exijo meu dinheiro! O Assistente voltou-se para Orzil e considerou, compadecido: — Sim, por agora a situação de nosso amigo é demasiado complexa. Não pode ausentar-se da grade, sem prejuízo. Deixamos o doente, imprecando contra nós, de punhos cerrados, e abeiramo-nos de outra cela. Ante a palavra de Silas, que nos recomendava observar o quadro em foco, fitamos o novo enfermo, um homem profundamente triste, sentado ao fundo da prisão, de cabeça pendida entre as mãos e de olhos fixos em parede próxima. Seguindo-lhe a atenção no ponto que concentrava os seus raios visuais, a modo de espelho invisível retratando-lhe o próprio pensamento, vimos larga tela viva em que se destacava enluarada rua de grande cidade, e, na rua, conseguimos distingui-lo no volante de um carro, perseguindo um transeunte bêbado, até matá-lo, sem compaixão. Achávamo-nos diante de um homicida preso a constrangedores quadros mentais que o encerravam em punitivas recordações. Notava-se-lhe a intraduzível angústia, entre o remorso e o arrependimento. A leve chamado de Silas, despertou como fera roubada à quietação do sono. Instintivamente precipitou-se sobre nós, num salto espetaculoso que a enxovia conteve, e bramiu: — Não há testemunhas… Não há testemunhas!… Não fui eu quem atropelou o infeliz, não obstante o odiasse com razão… Que pretendem de mim? Denunciar-me? Covardes! Espreitavam, então, a rua morta? Não respondemos. Silas, após fitá-lo, compadecido, falou: — Deixemo-lo. Está completamente enleado às recordações do crime que cometeu, crendo continuar, depois da morte, a escarnecer da justiça. Hilário, estupefato, interferiu, ponderando: — Naquele doente que vimos, cercado pela figura de três mancebos, e neste companheiro que contempla uma cena de morte… Nosso amigo apreendeu-lhe o pensamento e completou-lhe a anotação, asseverando: — Vimos dois irmãos infelizes, vivendo entre as imagens mantidas por eles mesmos, através da força mental com que as alimentam. Nesse instante, alcançávamos o terceiro cubículo, em que um homem feridento esvurmava as feias chagas, usando as próprias unhas. A atmosfera francamente pestilencial exigia enorme disciplina contra a eclosão de nossas náuseas. Assinalando-nos a presença, avançou para nós, clamando amargamente: — Compadecei-vos de mim! Sois médicos? Atendei-me por amor de Deus! Vede os detritos em que me apoio!… Voltei-me, de imediato, para o chão, seguindo-lhe os gestos, e notei, efetivamente, que o mísero se movimentava num montão de sujeira, coberto por filetes de sangue podre. Somente depois de mais ampla atenção, averiguei que o quadro repugnante era constituído pelas emanações mentais do companheiro infeliz sob nossos olhos. — Doutores! — Continuou ele, em tom de súplica, — há quem diga que roubei dos outros, a fim de satisfazer meus vícios no alcoice que eu frequentava… Mas é mentira, é mentira!… Juro-vos que morava no bordel por espírito de caridade… As mulheres desditosas requeriam defesa… Auxiliei-as quanto pude… Ainda assim, adquiri, junto delas, a enfermidade que me aniquilou o corpo físico e que ainda me empesta a respiração, convertendo-se aqui em meu próprio hálito!… Socorrei-me por quem sois!… Socorrei-me por quem sois!… A repetição dos rogos, contudo, derramava-se em tom imperativo, como se as palavras humildes do petitório fossem apenas o disfarce de uma ordem tiranizante. O Assistente convidou-nos à retirada e explicou: — É um antigo e inveterado gozador que despendeu em prazeres inúteis largos recursos que lhe não pertenciam. Por muito tempo ainda, a mente dele oscilará entre a irritação e o desencanto, nutrindo o ambiente horrível de que se fez o fulcro desequilibrado.
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Nome do Capítulo Almas enfermiças