2ª Parte - Cap. 3: Lutas e humilhações
Mas, compreendendo -lhe os mais íntimos pensamentos, a noiva espiritual aproximou-se, tomou-lhe a destra calejada nos labores rudes do deserto e falou comovidamente: — Nunca nos faltará um lar... Tê -lo-emos no coração de quantos vierem à nossa estrada. Quanto aos filhos, temos a família imensa que Jesus nos legou em sua misericórdia... Os filhos do Calvário são nossos também... Eles estão em t oda parte, esperando a herança do Sal vador. O moço tarsense entendeu a carinhosa advertência, arquivando -a no imo do coração. — Não te entregues ao desalento — continuou Abigail, generosa e solícita —; nossos antepassados conhe ceram o Deus dos Exércitos , que era o dono dos triunfos sangrentos, do ouro e da prata do mundo; nós, porém, conhecemos o Pai, que é o Senhor de nosso coração. A Lei nos destacava a fé, pela riqueza das dádivas ma teriais nos sacrifícios; mas o Evangelho nos conhece pela confiança inesgotável e pela fé ativa ao serviço do Todo -Poderoso. É preciso ser fiel a Deus, Saulo! Ainda que o mundo inteiro se voltasse contra ti, possuirias o tesouro inesgotável do coração fiel. A paz triunfante do Cristo é a da alma laboriosa, que obedece e confia... Não tornes a recalcitrar contra os aguilhões. Esvazia -te dos pensamentos do mundo. Quando hajas esgotado a der radeira gota da posca dos enganos terrenos, Jesus enche rá teu espírito de claridades imortais!... Experimentando infindo consolo, Saulo chegava a perturbar-se pela incapacidade de articular uma frase. As exortações de Abigail calar -lhe-iam para sempre. Nunca mais permitiria que o desânimo se apossasse dele. Enorme esperança represava -se, agora, em seu íntimo. Trabalharia para o Cristo em todos os lugares e circunstâncias. O Mestre sacrificara -se por todos os homens. Dedicar-lhe a existência representava um nobre dever. Enquanto formulava estes pensamentos, recordou a dificuldade de harmonizar -se com as criaturas. Encontraria lutas. Lembrou a promessa de Jesus, de que estaria presente onde houvesse irmãos reunidos em seu nome. Mas tudo lhe pareceu subitamente difícil naquela rápida operação intelectual. As sinagogas combatiam-se entre si. A própria igreja de Jerusalém tendia, nova mente, às influências judaizantes. Foi aí que Abigail res pondeu, de novo, aos seus apelos íntimos, exclamando com infinito carinho: — Reclamas companheiros concordes contigo nas edificações evangélicas. Mas é preciso lembrar que Jesus não os teve. Os apóstolos não puderam concordar com o Mestre senão com o auxílio do Céu, depois da Res surreição e do Pentecostes. Os mais amados dormiam, enquanto Ele, agoniado, orava no horto. Uns negaram -no, outros fugiram na hora decisiva. Concorda com Jesus e trabalha. O caminho para Deus está subdividido em verdadeira infinidade de planos. O espírito passará sozinho de uma esfera para outra. Toda elevação é difícil, mas somente aí encontramos a vitória real. Recorda a “porta estreita” das lições evangélicas e caminha. Quando sej a oportuno, Jesus chamará ao teu labor os que possam concordar contigo, em seu nome. Dedica-te ao Mestre em todos os instantes de tua vida. Serve -o com energia e ternura, como quem sabe que a realização espiritual reclama o concurso de todos os sentimentos que enobreçam a alma. Saulo estava enlevado. Não poderia traduzir as sen sações cariciosas que lhe represavam no coração tomado de inefável contentamento. Esperanças novas bafejavam-lhe a alma. Em sua retina espiritual desdobrava -se radioso futuro. Quis mover-se, agradecer a dádiva sublime, mas a emoção privava -o de qualquer manifestação afetiva. Entretanto, pairava -lhe no espírito uma grande interrogação. Que fazer, doravante, para triunfar? Como completar as noções sagradas que lhe competia exempli ficar praticamente, sem anotação de sacrifícios? Deixando perceber que lhe ouvia as mais secretas interpelações, Abigail adiantou-se, sempre carinhosa: — Saulo, para certeza da vitória no escabroso cami nho, lembra-te de que é preciso dar: Jesus deu ao mundo quanto possuía e, acima de tudo, deu -nos a compreensão intuitiva das nossas fraquezas, para tolerarmos as misé rias humanas... O moço tarsense notou que Estevão, nesse ínterim, se despedia, endereçando-lhe um olhar fraterno. Abigail, por sua vez, apertava -lhe as mãos com imensa ternura. O ex rabino desejaria prolongar a deli ciosa visão para o resto da vida, manter -se junto dela para sempre; contudo, a entidade querida esboçava um gesto de amoroso adeus. Esforçou -se, então, por catalo gar apressadamente su as necessidades espirituais, dese joso de ouvi-la relativamente aos problemas que o defrontavam. Ansioso de aproveitar as mínimas parcelas daquele glorioso, fugaz minuto, Saulo alinhava mental mente grande número de perguntas. Que fazer para adquirir a compreensão perfeita dos desígnios do Cristo? — Ama! — respondeu Abigail espontaneamente. Mas, como proceder de modo a enriquecermos na virtude divina? Jesus aconselha o amor aos próprios inimigos. Entretanto, considerava quão difícil devia ser semelhante re alização. Penoso testemunhar dedicação, sem o real entendimento dos outros. Como fazer para que a alma alcançasse tão elevada expressão de esforço com Jesus -Cristo? — Trabalha! — esclareceu a noiva amada, sorrindo bondosamente. Abigail tinha razão. Era nec essário realizar a obra de aperfeiçoamento interior. Desejava ardentemente fa zê-lo. Para isso insulara-se no deserto, por mais de mil dias consecutivos. Todavia, voltando ao ambiente do esforço coletivo, em cooperação com antigos companheiros, acalentava sadias esperanças que se converteram em dolorosas perplexidades. Que providências adotar contra o desânimo destruidor? — Espera! — disse ela ainda, num gesto de terna solicitude, como quem desejava esclarecer que a alma deve estar pronta a atender ao prog rama divino, em qualquer circunstância, extreme de caprichos pessoais. Ouvindo-a, Saulo considerou que a esperança fora sempre a companheira dos seus dias mais ásperos. Sa beria aguardar o porvir com as bênçãos do Altíssimo. Confiaria na sua misericórdia. Não desdenharia as opor tunidades do serviço redentor. Mas... os homens? Em toda parte medrava a confusão nos espíritos. Reconhecia que, de fato, a concordância geral em torno dos ensina mentos do Mestre Divino representava uma das realiza ções mais difíceis, no desdobramento do Evangelho; mas, além disso, as criaturas pareciam igualmente desinteressadas da verdade e da luz. Os israelitas agarravam -se àLei de Moisés, intensificando o regime das hipocrisias farisaicas; os seguidores do “Caminho” aproximavam -se novamente das sinagogas, fugiam dos gentios, submetiam-se, rigorosamente, aos processos da circuncisão. Onde a liberdade do Cristo? Onde as vastas esperanças que o seu amor trouxera à Humanidade inteira, sem exclusão dos filhos de outras raças? Concordavam em que se fazia indispensável amar, trabalhar, esperar; entre tanto, como agir no âmbito de forças tão heterogêneas? Como conciliar as grandiosas lições do Evangelho com a indiferença dos homens? Abigail apertou-lhe as mãos com mais ternura, a indicar as despedidas, e acentuou docemente: — Perdoa!... Em seguida, seu vulto luminoso pareceu diluir -se como se fosse feito de fragmentos de aurora. Empolgado pela maravilhosa revelação, Saulo viu -se só, sem saber como coordenar as expressões do próprio deslum bramento. Na região, que se coroava de claridades infinitas, sentiam -se vibrações de misteriosa beleza. Aos seus ouvidos continuavam chegando ecos longínquos de sublimes harmonias siderais, que pareciam traduzir men sagens de amor, oriundas de sóis distantes... Ajoelhou-se e orou! Agradeceu ao Senhor a maravilha das suas bênçãos. Daí a instantes, como se energias impon deráveis o reconduzissem ao ambiente da Terra, sentiu -se no leito rústico, improvisado entre as pedras. Incapaz de esclarecer o prodigioso fenômeno, Saulo de Tarso contemplou os céus, embevecido. O infinito azul do firmamento não era um abismo em cujo fundo brilhavam estrelas... A seus olhos, o espaço adquiria nova significação; devia estar cheio de expressões de vida, que ao homem comum não era dado compreender. Haveria corpos celestes, como os havia terrestres. A criatura não estava abandonada, em particular, pelos poderes supremos da Criação. A bondade de Deus excedia a toda a inteligência humana. Os que se haviam libertado da carne voltavam do plano espiritual por confortar os que permaneciam a distância. Para Estevão, ele fora verdugo cruel; para Abigail, noivo ingrato. Entretanto, permitia o Senhor que ambos regressassem à paisagem caliginosa do mundo, reanimando-lhe o coração. A existência planetária alcançava novo sentido nas suas elucubrações profundas. Ninguém estaria abandonado, Os homens mais miseráveis teriam no céu quem os acompanhasse com desvelada dedicação. Por mais duras que fossem as experiências humanas, a vida, agora, assu mia nova feição de harmonia e beleza eternas. A Natureza estava calma. O luar esplendia no alto em vibrações de encanto indefinível. De quando em quan do, o vento sussurrava de leve, espalhando mensagens misteriosas. Lufadas cariciosas acalmavam a fronte d o pensador, que se embevecia na recordação imediata de suas maravilhosas visões do mundo invisível. Experimentando uma paz até então desconhecida, acreditou que renascia naquele momento para uma exis tência muito diversa. Singular serenidade tocava-lhe o espírito. Uma compreensão diferente felicitava -o para o reinício da jornada no mundo. Guardaria o lema de Abigail, para sempre. O amor, o trabalho, a esperança e o perdão seriam seus companheiros inseparáveis. Cheio de dedicação por todos os seres, aguardar ia as oportunidades que Jesus lhe concedesse, abstendo -se de provocar situações, e, nesse passo, saberia tolerar a ignorân cia ou a fraqueza alheias, ciente de que também ele carregava um passado condenável, que, nada obstante, merecera a compaixão do Cristo.
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Capítulo 3
Nome do Capítulo Lutas e humilhações
Parte Segunda Parte