Senhores, tendes razão de me lembrar minha promessa, porque o tempo, que passa tão rapidamente no mundo do espaço, tem minutos eternos para aquele que o sofre sob o aperto da prova!
Há alguns dias, algumas semanas, eu contava como vós; cada dia acrescentava toda uma série de vicissitudes àquelas outras já suportadas, e a taça ia-se enchendo lentamente.
Ah! não sabeis quanto uma reputação de grande homem é pesada para suportar! Não desejeis a glória; não sejais conhecidos: sede úteis. A popularidade tem os seus espinhos e, por mais de uma vez, vi-me ferido pelas carícias demasiado brutais da multidão.
Hoje, a fumaça do incenso não mais me inebria. Pairo sobre as mesquinharias, e é um horizonte sem limites que se estende diante da minha insaciável curiosidade. Por isso, as horas caem aos borbotões na ampulheta secular, e procuro sempre, sempre estudo sem jamais contar o tempo decorrido.
Sim, eu vos prometi. Mas, quem pode gabar-se de cumprir uma promessa, quando os elementos necessários para cumpri-la pertencem ao futuro? O poderoso do mundo, ainda sob o sopro da adulação dos cortesãos, pôde ter querido enfrentar o problema corpo a corpo; mas não era mais de uma luta fratricida que se tratava aqui; não havia mais aplausos, ruidosas aclamações para me encorajar e escapar de minha fraqueza. Era, e ainda é, um trabalho sobre-humano a que me atirei; é contra ele que luto sempre e, se espero triunfar, contudo não posso dissimular o meu esgotamento. Estou vencido... em apuros!... Repouso antes de explorar de novo; mas, se hoje não vos posso falar do que será o futuro, talvez possa apreciar o presente: ser crítico, depois de ter sido criticado. Vós me julgais e não me aprovareis senão se eu for justo, o que tentarei fazer, evitando os personalismos.
Por que, então, tantos músicos e tão poucos artistas?
tantos compositores e tão poucas verdades musicais? Ai! é que não há, como se pensa, imaginação que a arte possa criar; não há outro mestre e outro criador senão a verdade. Sem ela não há nada, ou só há uma arte de contrabando, de ouropéis, de contrafação. O pintor pode dar a ilusão de mostrar branco onde não pôs senão uma mistura de cores sem nome; as oposições de matizes criam uma aparência e foi assim, por exemplo, que Horace Vernet pôde fazer parecer de um branco brilhante um magnífico cavalo baio.
Mas a nota só tem um som. O encadeamento dos sons não produz uma harmonia, uma verdade senão quando as ondas sonoras se fazem o eco de uma outra verdade. Para ser músico, já não basta alinhar notas sobre um pentagrama, de maneira a conservar a justeza das relações musicais; assim só se consegue produzir ruídos agradáveis; mas é o sentimento que nasce sob a pena do verdadeiro artista, é ele que canta, chora, ri... Assobia na folhagem com o vento tempestuoso; salta com a vaga espumante; ruge com o tigre furioso!... Mas, para dar alma à música, para fazê-la chorar, rir, uivar, é preciso que ele próprio tenha experimentado esses diferentes sentimentos, dores, alegria, cólera!
É com o sorriso nos lábios e a incredulidade no coração que personificais um mártir cristão? Será um céptico do amor que fará um Romeu, uma Julieta? Será um estróina despreocupado que criaria a Margarida de Fausto? Não! É preciso inteira paixão àquele que faz vibrar a paixão!... E eis por que, quando se denigrem tantas folhas, as obras são tão raras e as verdades excepcionais: é que não se crê, é que a alma não vibra. O som que se ouve é o do ouro que tilinta, do vinho que crepita!... A inspiração é a mulher que exibe uma beleza falsa; e, como não se possui senão defeitos e virtudes falsas, só se produz um verniz, uma maquilagem musical. Arranhai a superfície e logo encontrareis a pedra.
Rossini (17 de janeiro de 1869 – Médium: Sr. Nivard) O silêncio que guardei sobre a questão que me dirigiu o mestre da Doutrina Espírita foi explicado. Era conveniente, antes de abordar esse difícil tema, recolher-me, lembrar-me e condensar os elementos que estavam em minha mão. Eu não tinha que estudar música, tinha apenas que classificar os argumentos com método, a fim de apresentar um resumo capaz de dar uma idéia de minha concepção sobre a harmonia. Esse trabalho, que não fiz sem dificuldade, está terminado, e estou pronto a submetê-lo à apreciação dos espíritas.
A harmonia é difícil de definir. Muitas vezes confundem-na com a música, com os sons resultantes de um arranjo de notas, e das vibrações dos instrumentos reprodutores desse arranjo. Mas a harmonia não é isto, como a chama não é a luz. A chama resulta da combinação de dois gases: é tangível; a luz que ela projeta é um efeito dessa combinação e não a própria chama: ela não é tangível. Aqui o efeito é superior à causa. Assim com a harmonia. Ela resulta de um arranjo musical, é um efeito igualmente superior à sua causa: a causa é brutal e tangível; o efeito é sutil e não é tangível.
Pode-se conceber a luz sem chama e compreende-se a harmonia sem música. A alma é apta a perceber a harmonia fora de todo concurso de instrumentação, como é apta a ver a luz fora de todo concurso de combinações materiais. A luz é um sentido íntimo que possui a alma; quanto mais desenvolvido esse sentido, melhor ela percebe a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma: é percebida em razão do desenvolvimento desse sentido. Fora do mundo material, isto é, fora das causas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina; nós as possuímos em razão dos esforços feitos para adquiri-las. Se comparo a luz e a harmonia, é para me fazer compreender melhor e, também, porque essas duas sublimes satisfações da alma são filhas de Deus e, por conseguinte, irmãs.
A harmonia do espaço é tão complexa, tem tantos graus que eu conheço, e muitos mais ainda, que me são ocultos no éter infinito, que aquele que estiver colocado num certo nível de percepções, é como que tomado de admiração ao contemplar essas harmonias diversas, que, se fossem reunidas, constituiriam a mais insuportável cacofonia; ao passo que, ao contrário, percebidas separadamente, constituem a harmonia particular a cada grau.
Essas harmonias são elementares e grosseiras nos graus inferiores; levam ao êxtase nos graus superiores. Tal harmonia, que choca um Espírito de percepções sutis, deslumbra um Espírito de percepções grosseiras; e quando ao Espírito inferior é dado deleitar-se nas delícias das harmonias superiores, é tomado pelo êxtase e a prece o penetra; o encantamento o arrasta às esferas elevadas do mundo moral; vive uma vida superior à sua e desejaria continuar a viver sempre assim. Mas, quando a harmonia deixa de o penetrar, desperta, ou, se se quiser, adormece. Em todo o caso, volta à realidade de sua situação, e nos lamentos que deixa escapar por ter descido, se exala uma prece ao Eterno, pedindo forças para subir.
Para ele é um grande motivo de emulação.
Não tentarei dar a explicação dos efeitos musicais que produz o Espírito agindo sobre o éter. O que é certo é que o Espírito produz os sons que quer, e não pode querer o que não sabe. Ora, aquele que compreende muito, que tem a harmonia em si, que dela está saturado, que goza, ele próprio, o seu sentido íntimo, esse nada impalpável, essa abstração que é a concepção da harmonia, age quando quer sobre o fluido universal que, instrumento fiel, reproduz o que o Espírito concebe e quer. O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito; a harmonia que este último traz em si a bem dizer se concretiza; exala-se doce e suave como o perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, ou rebenta como o raio, ou se lamenta como a brisa; é rápida como o relâmpago, ou lenta como a nuvem; é entrecortada como o soluço, ou uniforme como a relva; é desordenada como uma catarata, ou calma como um lago; murmura como um regato ou estrondeia como uma torrente. Ora tem a agreste aspereza das montanhas, ora o frescor de um oásis; é sucessivamente triste e melancólica como a noite, jovial e alegre como o dia; é caprichosa como a criança, consoladora como a mãe e protetora como o pai; é desordenada como a paixão, límpida como o amor e grandiosa como a Natureza.
Quando ela chega a este último termo, confunde-se com a prece, glorifica a Deus e leva ao deslumbramento aquele mesmo que a produz ou a concebe.
Oh! comparação! comparação! Por que se é obrigado a empregar-te? Por que se dobrar às tuas necessidades degradantes e tomar, à natureza tangível, imagens grosseiras para fazer conceber a sublime harmonia na qual se deleita o Espírito? E ainda, malgrado as comparações, não se pode dar a compreender essa abstração, que é um sentimento quando ela é causa, e uma sensação quando se torna um efeito?
O Espírito que tem o sentimento da harmonia é como o Espírito que se quitou intelectualmente; um e outro gozam constantemente da propriedade inalienável que conquistaram. O Espírito inteligente, que ensina sua ciência aos que ignoram, experimenta a felicidade de ensinar, porque sabe que torna felizes aqueles a quem instrui; o Espírito que faz ressoar no éter os acordes da harmonia que nele existe, experimenta a felicidade de ver satisfeitos os que o ouvem.
A harmonia, a ciência e a virtude são as três grandes concepções do Espírito; a primeira o deslumbra, a segunda o esclarece, a terceira o eleva. Possuídas em suas plenitudes, elas se confundem e constituem a pureza. Ó Espíritos puros que as contendes! Descei às nossas trevas e clareai nossa marcha; mostrai-nos o caminho que tomastes, a fim de que sigamos as vossas pegadas!