Dissertações Espíritas – A música e as harmonias celestes
E quando penso que esses Espíritos, cuja existência posso compreender, são seres finitos, átomos, em face do Senhor universal e eterno, minha razão fica confusa, pensando na grandeza de Deus e na felicidade infinita que goza em si mesmo, pelo só fato de sua pureza infinita, pois tudo quanto a criatura adquire não é senão uma parcela que emana do Criador. Ora, se a parcela chega a fascinar pela vontade, a cativar e a deslumbrar pela suavidade, a resplender pela virtude, que deve então produzir a fonte eterna e infinita de onde foi tirada? Se o Espírito, ser criado, chega a haurir em sua pureza tanta felicidade, que idéia se deve fazer da que o Criador haure em sua pureza absoluta? Eterno problema! O compositor que concebe a harmonia a traduz na grosseira linguagem chamada música; concretiza sua idéia e a escreve. O Espírito aprende a forma e toma o instrumento que lhe deve permitir exprimir a idéia. O ar posto em atividade pelo instrumento leva-a ao ouvido, que a transmite à alma do ouvinte. Mas o compositor foi impotente para exprimir inteiramente a harmonia que concebia, por falta de uma língua suficiente; por sua vez o executante não compreendeu toda a idéia escrita, e o instrumento indócil de que se serve não lhe permite traduzir tudo quanto compreendeu. O ouvido é ferido pelo ar grosseiro que o cerca, e a alma recebe, enfim, por um órgão rebelde, a horrível tradução da idéia nascida na alma do maestro. A idéia do maestro era o seu sentimento íntimo; embora corrompida pelos agentes de instrumentação e de percepção, produz, no entanto, sensações nos que escutam a sua tradução; essas sensações são a harmonia. A música as produziu: são efeitos desta última. A música é posta a serviço do sentimento para produzir a sensação. No compositor o sentimento é a harmonia; no ouvinte a sensação também é harmonia, com a diferença de que é concebida por um e recebida por outro. A música é o médium da harmonia; ela a recebe e a dá, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos. Ela a torna mais ou menos corrompida, conforme seja mais ou menos bem executada, como o refletor envia melhor ou pior luz, conforme seja mais ou menos brilhante e polido, como o médium exprime mais ou menos os pensamentos do Espírito, conforme seja mais ou menos flexível. E agora que a harmonia está bem compreendida em sua significação, que se sabe que é concebida pela alma e transmitida à alma, compreender-se-á a diferença que existe entre a harmonia da Terra e a do espaço. Entre vós, tudo é grosseiro: o instrumento de tradução e o instrumento de percepção. Entre nós tudo é sutil: vós tendes o ar, nós temos o éter; tendes o órgão que obstrui e vela; em nós a percepção é direta e nada a vela. Entre vós, o autor é traduzido; entre nós, fala sem intermediário e na linguagem que exprime todas as concepções. E, contudo, essas harmonias têm a mesma fonte, como a luz da Lua tem a mesma fonte que a do Sol; assim como a luz da Lua é o reflexo da luz do Sol, a harmonia da Terra não passa de reflexo da harmonia do espaço. A harmonia é tão indefinível quanto a felicidade, o medo, a cólera: é um sentimento. Não se a compreende senão quando se a possui, e não se a possui senão quando se a adquiriu. O homem que é jovial não pode explicar sua alegria; o que é medroso não pode explicar seu medo. Podem dizer os fatos que provocam esses sentimentos, defini-los, descrevê-los, mas os sentimentos ficam inexplicados. O fato que causa a alegria em um nada produzirá sobre outro; o objeto que ocasiona o medo produzirá a coragem de outro. As mesmas causas são seguidas de efeitos contrários; isto não se dá em física, mas se dá em metafísica. Isto sucede porque o sentimento é propriedade da alma, e as almas diferem entre si em sensibilidade, em impressionabilidade, em liberdade. A música, que é a causa secundária da harmonia percebida, penetra e transporta um e deixa o outro frio e indiferente. É que o primeiro está em condição de receber a impressão produzida pela harmonia e o segundo num estado contrário; escuta o ar que vibra, mas não compreende a idéia que ele lhe traz. Este chega ao aborrecimento e adormece, aquele ao entusiasmo e chora. Evidentemente, o homem que goza as delícias da harmonia é mais elevado, mais depurado que aquele que ela não pode penetrar; sua alma está mais apta para sentir; desprende-se mais facilmente e a harmonia a ajuda a se desprender; ela a transporta e lhe permite ver melhor o mundo moral. De onde se deve concluir que a música é essencialmente moralizadora, pois que leva a harmonia às almas e a harmonia as eleva e as engrandece. A influência da música sobre a alma, sobre o seu progresso moral, é reconhecida por todo o mundo; mas a razão dessa influência geralmente é ignorada. Sua explicação está inteiramente neste fato: a harmonia coloca a alma sob o poder de um sentimento que a desmaterializa. Tal sentimento existe num certo grau, mas se desenvolve sob a ação de um sentimento similar mais elevado. Aquele que é privado desse sentimento a ele é trazido gradativamente; também acaba por se deixar penetrar e arrastar ao mundo ideal, onde esquece, por um instante, os grosseiros prazeres, que prefere à divina harmonia. E agora, se se considerar que a harmonia sai do conceito do Espírito, deduzir-se-á que, se a música exerce uma influência feliz sobre a alma, a alma, que a concebe, também exerce sua influência sobre a música. A alma virtuosa, que tem a paixão do bem, do belo, do grande, e que adquiriu harmonia, produzirá obras-primas capazes de penetrar as almas mais encouraçadas e de comovê-las. Se o compositor estiver terra-a-terra, como expressará a virtude que desdenha, o belo que ignora e o grande que não compreende? Suas composições serão o reflexo de seus gostos sensuais, de sua leviandade, de sua indolência. Elas serão ora licenciosas, ora obscenas, ora cômicas e ora burlescas; comunicarão aos ouvintes os sentimentos que exprimirem, e os perverterão, em vez de os melhorar. Moralizando os homens, o Espiritismo exerce, assim, uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes, fazendo ouvir suas composições. Rirão menos, chorarão mais; a hilaridade dará lugar à emoção, a feiúra à beleza e o cômico à grandeza. Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo terá preparado para receber facilmente a harmonia, ouvindo música séria, sentirão um verdadeiro encanto; desdenharão a música frívola e licenciosa, que se apodera das massas. Quando o grotesco e o obsceno forem deixados pelo belo e pelo bom, desaparecerão os compositores dessa ordem, porque, sem ouvintes, nada ganharão, e é para ganhar que se corrompem. Oh! sim, o Espiritismo terá influência sobre a música! Como não seria assim? Seu advento mudará a arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força a conduzirá por toda parte onde houver homens para amar, para se elevar e para compreender. Tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas lhe pedirão suas inspirações, e ele lhas fornecerá, porque é rico, porque é inesgotável. O Espírito do maestro Rossini, em nova existência, virá continuar a arte que considera como a primeira de todas; o Espiritismo será o seu símbolo e o inspirador de suas composições. Rossini
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Mês Março
Ano 1869