“Considerando-se que a majestade de um rei pode ser medida pelo número de seus súditos, servos e oficiais, que haverá de mais apropriado para nos dar ideia da majestade do Rei dos reis do que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a Terra, mar e abismos, e a dignidade dos que permanecem continuamente prostrados ou de pé diante do seu trono?”
Não será rebaixar a Divindade confrontar a sua glória com o fausto dos soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no espírito das massas ignorantes, falseia a opinião que se faz da sua verdadeira grandeza. Sempre Deus reduzido às mesquinhas proporções da humanidade. Atribuir-lhe, como necessidade, milhões de adoradores, continuamente prostrados ou de pé diante do seu trono é emprestar-lhe vaidade e fraqueza próprias dos orgulhosos déspotas do Oriente! O que engrandece os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e o brilho dos cortesãos? Não; é a bondade, é a justiça, é o título merecido de pais do seu povo. Perguntareis se haverá algo mais apropriado a dar-nos a ideia da grandeza e majestade de Deus do que a multidão de anjos que lhe compõem a corte... Sim, certamente que há, e essa coisa melhor consiste em representá-lo às suas criaturas soberanamente bom, justo e misericordioso, e não como um Deus encolerizado, ciumento, vingativo, inexorável, exterminador, parcial, criando para sua própria glória esses seres privilegiados, favorecidos com todos os dons e nascidos para a felicidade eterna, enquanto a outros impõe condições penosas para alcançá-la, punindo, além disso, erros momentâneos com eternos suplícios...