As doutrinas sobre o demônio, que por tanto tempo prevaleceram, haviam de tal maneira exagerado o seu poder que fizeram, por assim dizer, que Deus fosse esquecido; por toda parte surgia o dedo de Satanás, bastando para tanto que o fato observado ultrapassasse os limites do poder humano. Até as coisas melhores, as descobertas mais úteis, sobretudo as que pudessem tirar o homem da ignorância e alargar o círculo de suas ideias, foram consideradas muitas vezes como obras diabólicas. Os fenômenos espíritas de nossos dias, mais generalizados e mais bem observados à luz da razão e com o auxílio da Ciência, confirmaram, é verdade, a intervenção de inteligências ocultas, mas agindo dentro de leis naturais e revelando, por sua ação, uma nova força e leis até então desconhecidas. A questão reduz-se, portanto, em saber de que ordem são essas inteligências.
Enquanto não se possuía do mundo espiritual senão noções incertas e sistemáticas, os equívocos eram possíveis; mas hoje, que observações rigorosas e estudos experimentais esclareceram a natureza, a origem e o destino dos Espíritos, bem como o seu modo de ação e o papel que desempenham no universo, a questão se resolve por fatos. Sabemos, agora, que essas inteligências ocultas são as almas dos que viveram na Terra. Sabemos também que as diversas categorias de Espíritos bons e maus não constituem seres de espécies diferentes, assinalando apenas os seus diversos graus de adiantamento. Segundo a posição que ocupam em virtude do desenvolvimento intelectual e moral, os seres que se manifestam apresentam os mais vivos contrastes, o que não os impede de terem saído da grande família humana, do mesmo modo que o selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.