O impulso dado pelas leis da Natureza, assim como os limites que elas estabelecem, são sempre bons, porque a Natureza é a obra da sabedoria divina. A resistência a essas leis é um ato de liberdade e essa resistência sempre desencadeia o mal. Sendo o homem livre para observar ou infringir essas leis, no que toca a sua pessoa, é, pois, livre de fazer o bem ou o mal. Se pudesse ser fatalmente levado a fazer o mal, e não podendo essa facilidade vir senão de um poder superior a ele, Deus seria o primeiro a transgredir suas leis.
Quem é aquele a quem muitas vezes aconteceu dizer: “Se eu não tivesse agido como agi em tal circunstância, não estaria na posição em que estou; se tivesse que recomeçar, agiria de outra maneira?” Não era reconhecer que era livre para fazer ou não fazer? que estava livre para fazer melhor outra vez, se se apresentasse ocasião? Ora, Deus, que é mais sábio que ele, prevendo os erros nos quais pode cair, o mal uso que pode fazer de sua liberdade, dá-lhe indefinidamente a possibilidade de recomeçar pela sucessão de suas existências corporais, e ele recomeçará até que, instruído pela experiência, não mais se engane de caminho.
O homem pode, pois, conforme a sua vontade, apressar o termo de suas provas, e é nisto que consiste a liberdade.
Agradeçamos a Deus por não nos ter fechado para sempre o caminho da felicidade, decidindo a nossa sorte definitiva após uma existência efêmera, notoriamente insuficiente para alcançarmos o topo da escada do progresso, e por nos haver dado, pela fatalidade mesma da reencarnação, os meios de adquirir incessantemente, renovando as provas nas quais fracassamos.
A fatalidade é absoluta para as leis que regem a matéria, porque a matéria é cega; não existe para o Espírito, ele próprio chamado para reagir sobre a matéria, em virtude de sua liberdade.
Se as doutrinas materialistas fossem verdadeiras, elas seriam a mais formal consagração da fatalidade; porque se o homem fosse apenas matéria, não poderia ter iniciativa. Ora, se lhe concedeis a iniciativa, seja no que for, é que é livre; e se é livre, é que tem em si algo além da matéria. Sendo o materialismo a negação do princípio espiritual, é, por isso mesmo, a negação da liberdade e, contradição bizarra! os materialistas, os mesmos que proclamam o dogma da fatalidade, são os primeiros a tirar partido de sua liberdade; a reivindicá-la como um direito na sua mais absoluta plenitude, junto aos que a restringem, e isto sem suspeitar que é reclamar o privilégio do Espírito, e não da matéria.
Aqui se apresenta outra questão. A fatalidade e a liberdade são dois princípios que parecem excluir-se. A liberdade da ação individual é compatível com a fatalidade das leis que regem o conjunto, e esta ação não vem perturbar sua harmonia? Alguns exemplos tomados dos fenômenos mais vulgares da ordem material tornarão evidente a solução do problema.
Dissemos que as chances do acaso se equilibram com surpreendente regularidade. Com efeito, é um resultado muito conhecido no jogo do vermelho e preto que, a despeito de sua irregularidade de saída a cada lançamento, as cores são em número igual ao cabo de certo número de jogadas; isto é, em cem jogadas, haverá cinqüenta vermelhas e cinqüenta negras; em mil, quinhentas de uma e quinhentas da outra, aproximadamente. Dá-se o mesmo com os números pares e ímpares e com todas as chances ditas duplas. Se, em vez de duas cores, houver três, haverá um terço de cada; se forem quatro, um quarto, etc. Muitas vezes a mesma cor sai por série de duas, três, quatro, cinco, seis vezes seguidas; num certo número de jogadas, haverá tantas séries de duas vermelhas, quanto de duas pretas, tanto de três vermelhas quanto de três pretas, e assim por diante; mas as jogadas de duas serão metade menos numerosas que as de uma; as de três, um terço das de uma; as de quatro, um quarto, etc.
Nos dados, como estes têm seis faces, jogando-o sessenta vezes, chegar-se-á a dez vezes um ponto, dez vezes dois pontos, dez vezes três pontos e assim com os outros.
Na antiga loteria de França, havia noventa números colocados numa roda; tiravam-se cinco de cada vez. Os registros de vários anos constataram que cada número tinha saído na proporção de um nonagésimo e cada dezena na proporção de um nono.
A proporção é tanto mais exata quanto mais considerável o número de jogadas. Em dez ou vinte jogadas, por exemplo, pode ser muito desigual, mas o equilíbrio se estabelece à medida que aumenta o número de jogadas, e isto com uma regularidade matemática. Sendo isto um fato constante, é bem evidente que uma lei numérica preside a essa repartição, quando abandonada a si mesma e que nada vem forçá-la ou entravá-la. O que se chama acaso está, pois, submetido a uma lei matemática ou, melhor dizendo, não há acaso. A irregularidade caprichosa que se manifesta em cada jogada, ou num pequeno número de lances, não impede a lei de seguir o seu curso, donde se pode dizer que há nessa repartição uma verdadeira fatalidade; mas essa fatalidade, que preside ao conjunto, é nula, ou pelo menos inapreciável, para cada lance ou jogada isolada.
Estendemo-nos um pouco no exemplo dos jogos, porque é um dos mais admiráveis e fáceis de verificar, pela possibilidade de multiplicar os fatos à vontade, em curto espaço de tempo; e como a lei ressalta do conjunto dos fatos, foi esta multiplicidade que permitiu reconhecê-la, sem o que é provável que ainda a ignorassem.
A mesma lei pôde ser observada com precisão nas chances de mortalidade. A morte, que parece ferir indistintamente e às cegas, não segue menos, em seu conjunto, uma marcha regular e constante, segundo a idade. Sabe-se perfeitamente que, em mil indivíduos de todas as idades, em um ano morrerão tantos de um a dez anos, tantos de dez a vinte anos, tantos de vinte a trinta anos, e assim por diante; ou, então, que após um período de dez anos, o número dos sobreviventes será de tantos de um a dez anos, de tantos de dez a vinte anos, etc. Causas acidentais de mortalidade podem perturbar momentaneamente esta ordem, como no jogo a saída de uma longa série da mesma cor rompe o equilíbrio; mas se, em vez de um período de dez anos e de um número de mil indivíduos, estende-se a observação a cinqüenta anos e cem mil indivíduos, o equilíbrio será restabelecido.
De acordo com isto, é permitido supor que todas as eventualidades que parecem ser efeito do acaso, assim na vida individual, como na dos povos e da Humanidade, são regidas por leis numéricas, e o que falta para as reconhecer é poder abarcar de um golpe de vista uma massa bastante considerável de fatos, e um lapso de tempo suficiente.
Pela mesma razão, nada haveria de absolutamente impossível que o conjunto de fatos de ordem moral e metafísica fosse igualmente subordinado a uma lei numérica, cujos elementos e as bases, até agora, nos são totalmente desconhecidos. Em todo o caso, vê-se, pelo que precede, que essa lei ou, se se preferir, essa fatalidade do conjunto, de modo algum anularia o livre-arbítrio. É o que nos tínhamos proposto demonstrar. Não se exercendo o livre-arbítrio senão sobre os pontos isolados de detalhe, não entravaria a realização da lei geral, como a irregularidade da saída de cada número não entrava a repartição proporcional desses mesmos números sobre um certo número de saídas. O homem exerce o seu livre-arbítrio na pequena esfera de sua ação individual; esta pequena esfera pode estar na confusão, sem que isto a impeça de gravitar no conjunto segundo a lei comum, assim como os pequenos redemoinhos causados nas águas de um rio pelos peixes que se agitam, não impedem a massa das águas de seguir o curso forçado que lhe imprime a lei de gravitação.
Tendo o homem o seu livre-arbítrio, a fatalidade não participa de suas ações individuais; quanto aos acontecimentos da vida privada, que por vezes parecem atingi-lo fatalmente, têm duas fontes bem distintas: uns são conseqüência direta de sua conduta na existência presente; muitas pessoas são infelizes, doentes, enfermas por sua falta; muitos acidentes são resultado da imprevidência; ele não pode queixar-se senão de si mesmo, e não da fatalidade ou, como se diz, de sua má estrela. Os outros são completamente independentes da vida presente e, por isto mesmo, parecem devidos a uma certa fatalidade; mas, ainda aqui, o Espiritismo nos demonstra que essa fatalidade é apenas aparente, e que certas situações penosas da vida têm sua razão de ser na pluralidade das existências. O Espírito as escolheu voluntariamente na erraticidade, antes de sua encarnação, como provações para o seu adiantamento; elas são, pois, produto do livre-arbítrio, e não da fatalidade. Se algumas vezes são impostas, como expiação, por uma vontade superior, é ainda em razão das más ações voluntariamente cometidas pelo homem numa precedente existência, e não como conseqüência de uma lei fatal, pois ele poderia tê-las evitado, agindo de outro modo.