Várias vezes já nos perguntaram o que pensamos da concordância dos números, e se cremos no valor dessa ciência.
Nossa resposta é bem simples: até o momento nada pensamos a respeito, porque com ela jamais nos ocupamos. Bem que temos visto alguns casos de concordâncias singulares entre as datas de certos acontecimentos, mas em pequeníssimo número para delas tirar uma conclusão, mesmo aproximada. A bem dizer, não vemos a razão de tal coincidência; mas, porque não se compreende uma coisa, isto não é motivo para que ela não exista. A Natureza não disse a sua última palavra, e o que hoje é utopia, amanhã pode ser verdade. É possível que, entre os fatos, exista uma certa correlação, que não suspeitamos, e que poderia traduzir-se por números. Em todo o caso, não se poderia dar o nome de ciência a um cálculo tão hipotético quanto o das relações numéricas, no que concerne à sucessão dos acontecimentos. Uma ciência é um conjunto de fatos bastante numerosos para deles se deduzirem regras, e susceptíveis de demonstração. Ora, no estado atual dos nossos conhecimentos, seria de absoluta impossibilidade dar dos fatos desse gênero uma teoria qualquer, nem nenhuma explicação satisfatória. Não é, pois, ou, se preferirem, não é ainda uma ciência, o que não implica a sua negação.
Há fatos sobre os quais temos uma opinião pessoal; no caso de que se trata, não temos nenhuma, e se nos inclinássemos para um lado, seria antes para a negativa, até prova em contrário.
Baseamo-nos em que o tempo é relativo; não pode ser apreciado senão em termos de comparação e os pontos de referência estabelecidos na revolução dos astros, e esses termos variam conforme os mundos, porque fora dos mundos o tempo não existe: não há unidade para medir o infinito. Assim, não parece haver uma lei universal de concordância para a data dos acontecimentos, já que o cômputo da duração varia conforme os mundos, a menos que haja, sob esse aspecto, uma lei particular para cada mundo, destinada à sua organização, como há uma para a duração da vida de seus habitantes.
Seguramente, se tal lei existir, um dia será reconhecida.
O Espiritismo, que assimila todas as verdades, quando estas são constatadas, não repelirá esta; mas como, até o presente, essa lei não é atestada por um número suficiente de fatos, nem por uma demonstração categórica, com ela nos devemos preocupar tanto menos quanto ela só nos interessa de maneira muito indireta. Não dissimulamos a gravidade dessa lei, se é que ela existe, mas como a porta do Espiritismo estará sempre aberta a todas as idéias progressivas, a todas as aquisições da inteligência, ele se ocupa com as necessidades do momento, sem temer ser ultrapassado pelas conquistas do futuro.
Tendo sido a questão exposta aos Espíritos num grupo muito sério do interior, e por isto mesmo geralmente bem assistido, foi respondido: “Há, certamente, no conjunto dos fenômenos morais, como nos fenômenos físicos, relações fundadas sobre os números.
A lei da concordância das datas não é uma quimera; é uma das que vos serão reveladas mais tarde, e vos darão a chave das coisas que vos parecem anomalias. Porque, crede-o bem, a Natureza não tem caprichos; marcha sempre com precisão e com segurança. Aliás, esta lei não é tal qual imaginais; para a compreender na sua razão de ser, no seu princípio e na sua utilidade, necessitais adquirir idéias que ainda não possuís, e que virão a seu tempo. No momento, este conhecimento seria prematuro, razão por que não vos é dado; seria, pois, inútil insistir. Limitai-vos a recolher os fatos; observai sem nada concluir, com receio de vos enganar. Deus sabe dar aos homens o alimento intelectual à medida que estão em condição de o suportar. Trabalhai sobretudo no vosso adiantamento moral, o mais essencial, porque é por este que merecereis possuir novas luzes.”
Somos da mesma opinião. Pensamos, até, que haveria mais inconvenientes do que vantagens em vulgarizar prematuramente uma crença que, em mãos ignorantes, poderia degenerar em abuso e em práticas supersticiosas, por falta do contrapeso de uma teoria racional.
O princípio da concordância das datas é, pois, inteiramente hipotético; mas se nada é ainda permitido afirmar a este respeito, a experiência demonstra que, na Natureza, muitas coisas estão subordinadas a leis numéricas, susceptíveis do mais rigoroso cálculo. Este fato, de grande importância, talvez possa um dia lançar luz sobre a primeira questão. É assim, por exemplo, que as chances do acaso estão submetidas, no seu conjunto, a uma periodicidade de admirável precisão; a maior parte das combinações químicas, para a formação dos corpos compostos, dão-se em proporções definidas, isto é, precisa-se de um número determinado de moléculas de cada um dos corpos elementares, e que uma molécula a mais ou a menos muda completamente a natureza do corpo composto. (Vide A Gênese, cap. X, no 7 e seguintes); a cristalização se opera sob ângulos de uma abertura constante; em Astronomia, os movimentos e as forças seguem progressões de um rigor matemático, e a mecânica celeste é tão exata quanto a mecânica terrestre; dá-se o mesmo com a reflexão dos raios luminosos, calóricos e sonoros; é sobre cálculos positivos que são estabelecidas as chances de vida e de mortalidade nos seguros.
É certo, pois, que os números estão em a Natureza e que leis numéricas regem a maior parte dos fenômenos de ordem física. Dá-se o mesmo nos fenômenos de ordem moral e metafísica? É o que seria presunção afirmar, sem dados mais certos do que os que se possuem. Esta questão, aliás, levanta outras que têm a sua seriedade, e sobre as quais julgamos útil apresentar algumas observações de um ponto de vista geral.
Desde que uma lei numérica rege os nascimentos e a mortalidade dos indivíduos, não poderia dar-se o mesmo, embora em escala mais vasta, com as individualidades coletivas, tais como as raças, os povos, as cidades, etc? As fases de sua marcha ascendente, de sua decadência e de seu fim, as revoluções que marcam as etapas do progresso da Humanidade, não estariam sujeitas a uma certa periodicidade? Quanto às unidades numéricas para o cômputo dos períodos humanitários, se não são os dias, nem os anos, nem os séculos, poderiam ter por base as gerações, como alguns fatos tenderiam a fazer supor.
Aí não está um sistema; é ainda menos uma teoria, mas uma simples hipótese, uma idéia fundada numa probabilidade, e que um dia, talvez, possa servir de ponto de partida para idéias mais positivas.
Mas, dirão, se os acontecimentos que decidem a sorte da Humanidade, de uma nação, de uma tribo, têm prazos regulados por uma lei numérica, será a consagração da fatalidade e, então, em que se torna o livre-arbítrio do homem? Estará o Espiritismo laborando em erro, quando diz que nada é fatal, e que o homem é o senhor absoluto de suas ações e de sua sorte?
Para responder a esta objeção, há que tomar a questão de mais alto. Antes de mais, digamos que o Espiritismo jamais negou a fatalidade de certas coisas e que, ao contrário, sempre a reconheceu; mas ele diz que essa fatalidade não entrava o livre-arbítrio. Eis o que é fácil demonstrar.
Todas as leis que regem o conjunto dos fenômenos da Natureza têm conseqüências necessariamente fatais, isto é, inevitáveis, e essa fatalidade é indispensável à manutenção da harmonia universal. O homem, que sofre essas conseqüências, está, pois, em alguns aspectos, submetido à fatalidade, em tudo quanto não dependa de sua iniciativa. Assim, por exemplo, deve morrer fatalmente; é a lei comum, à qual não pode subtrair-se e, em virtude dessa lei, pode morrer em qualquer idade, quando chegar a sua hora; mas, se apressa voluntariamente a sua morte, pelo suicídio ou por seus excessos, age em virtude de seu livre-arbítrio, porque ninguém o pode constranger a fazê-lo. Deve comer para viver: é a fatalidade; mas se comer além do necessário, pratica um ato de liberdade.
Em sua cela, o prisioneiro é livre de mover-se à vontade, no espaço que lhe é concedido; mas as paredes que não pode transpor são para ele a fatalidade que lhe restringe a liberdade.
Para o soldado a disciplina é uma fatalidade, pois o obriga a atos independentes de sua vontade, mas não é menos livre em suas ações pessoais, pelas quais é responsável. Assim é com o homem na Natureza. A Natureza tem as suas leis fatais, que lhe opõem uma barreira, mas aquém da qual ele pode mover-se à vontade.
Por que Deus não deu ao homem inteira liberdade?
Porque Deus é como um pai previdente, que limita a liberdade dos filhos ao nível de seu raciocínio e do uso que dela podem fazer. Se o homem já se serve tão mal da que lhe é concedida, se não sabe governar-se a si mesmo, que seria se as leis da Natureza estivessem à sua disposição, e se não lhe opusessem um freio salutar?
O homem pode, pois, ser livre em suas ações, malgrado a fatalidade que preside ao conjunto; é livre em certa medida, no limite necessário para lhe deixar a responsabilidade de seus atos. Se, em virtude dessa liberdade, ele perturba a harmonia pelo mal que faz, se interpõe um obstáculo à marcha providencial das coisas, é o primeiro a sofrer por isto, e como as leis da Natureza são mais fortes que ele, acaba sendo arrastado na corrente; então sente necessidade de voltar para o bem e tudo retoma o seu equilíbrio.
Assim, a volta ao bem é ainda um ato livre, embora provocado, mas não imposto, pela fatalidade.