1ª Parte - Cap. 9: Abigail cristã
Isso demonstra que o Cristo é um roteiro para todos, constituindo-se em consolo para os que choram e orien tação para as almas criteriosas, chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupações do bem. Saulo estava impressionado com aquela cla reza de raciocínio. Mas a conversação exigira da enferma maior esforço e conseqüente fadiga. A respiração tornara-se difícil, e não tardou que o sangue lhe borbotasse do peito em prolongada hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e humildade, comovia e exasperava profun damente o noivo. Compreendeu que seria impiedoso atacar perante a noiva aquele Jesus que lhe cumpria perseguir até ao fim. Não queria crer que a sua Abigail estivesse nas vésperas da morte. Preferia encarar o futuro com otimismo. Restabelecida, fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não toleraria a intromis são do Cristo no santuário doméstico. No esforço in trospectivo, entretanto, concluiu que precisava dar uma trégua aos seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos problemas essenciais da sua própria tranqüilidade. A jovem enferma, após a crise que durara minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e lúci dos. Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resignação, Saulo de Tarso experimentou enternec edoras comoções íntimas. Seu temperamento arrebatado entregava-se facilmente às impressões extremadas. Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos úmidos. Desejou acariciá-la como se o fizesse a uma criança. — Abigail — murmurou ternamente —, não falemos mais de idéias religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esqueçamos tudo para consolidar as melhores esperanças. E as palavras lhe borbulhavam ardentes de emo ção. O carinho que evidenciavam era sintoma do arre pendimento e das aspirações nobres e sinceras que lhe trabalhavam, agora, no espírito angustiado. Entretanto, como se fora presa de singular abatimento depois do esforço despendido, a jovem de Corinto estava lânguida, receando prosseguir no colóquio, em virtude dos acessos de tosse que a ameaçavam freqüentemente. O noivo, preocupado, compreendeu a situação e, apertando -lhe as mãos transparentes, beijou -as enternecido. — Precisas repousar — disse com inflexão cari nhosa —, não te preocupes por minha causa. Dar -te-ei de minhas próprias forças. Breve estarás restabelecida. E, depois de envolvê-la num olhar cheio de gratidão e infinita ternura, rematava: — Voltarei a ver-te todas as noites que possa afas tar-me de Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no j ardim, para que a Natureza abençoe os nossos sonhos, sob as vistas de Deus. — Sim, Saulo — disse pausadamente —, Jesus nos concederá o melhor. De qualquer modo, no entanto, esta rás no meu coração, sempre, sempre... O doutor da Lei ia despedir -se, mas refletiu que a noiva nada lhe dissera com referência ao irmão. A ge nerosidade daquele silêncio impressionava -o. Preferia ser acusado, discutir o feito com as suas penosas circunstân cias, para que também se justificasse. Mas, em vez de reprimendas, encontrava carícias, em vez de exprobraçÕes, uma tranqüilidade generosa, com que a meiga jovem sabia ocultar as profundas feridas que lhe iam nalma. — Abigail — exclamou algo hesitante —, antes de partir, quisera saber francamente se me desculpaste pela morte de Es tevão. Nunca mais pude falar te das contingências que me levaram a tão triste desfecho; no entanto, estou convicto de que tua bondade olvidou minha falta. — Por que te recordas disso? — respondeu-lhe esforçando-se por manter a voz firme e clara. — Minhalma está agora tranqüila. Jeziel está com o Cristo e morreu legando-te um pensamento amistoso. Que poderia eu reclamar de minha parte, se Deus tem sido tão misericordioso para comigo? Ainda agora, estou agradecendo ao Pai justo, de todo o coração, a dádiva da tua presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não me dei xasse morrer sem te rever e ouvir.. Saulo calculou a extensão daquela generosidade es pontânea e teve os olhos úmidos. Despediu-se. A noite fresca estava repleta de sugestões para o seu espírito. Nunca meditara nos insondáveis desígnios do Eterno, como naquele momento em que recebera tão profundas lições de humildade e amor, da mulher amada. Experi mentava na alma opressa o embate de duas forças antagônicas, que lutavam entre si para a pos se do seu coração generoso e impulsivo. Não compreendia Deus senão como um senhor po deroso e inflexível. À sua vontade soberana, dobrar -se-iam todas as preocupações humanas. Mas começava a perquirir o motivo de suas dolorosas inquietudes. Por que não encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela gente miserável do “Caminho” entregava -se às algemas do cárcere, sorridente e tranqüila. Homens enfermos e valetudinários, isentos de qualquer esperança do mundo, suportavam -lhe as perseguições com louvores no coração. O próprio Estevão, cuja morte lhe servira de exemplo inesquecível, aben çoara-o pelos sofrimentos recebidos por amor ao carpin teiro de Nazaré. Aquelas criaturas desamparadas goza vam de uma tranqüilidade que ele desconh ecia, O quadro da noiva doente não lhe saía dos olhos. Abigail era sen sível e afetuosa, mas lembrava sua ansiedade feminina, a intensidade de suas preocupações de mulher, quando, eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no adorável recanto da estrada de Jope. Aquele Jesus desconhecido proporcionara -lhe forças ao coração. Se era inconteste que a enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente era o rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva falara -lhe como que tocada de novas inspirações; aqueles olhos pareciam con templar interiormente a paisagem de outros mundos. Essas reflexões não lhe deram ensejo à admiração da Natureza. Reentrando em Jerusalém, guardou a impres são de que despertava de um sonho. À sua frente de senhavam-se as linhas majestosas do grande santuário. O orgulho de raça falava-lhe mais forte ao espírito. Era impossível conferir superioridade aos homens do “Cami nho”. Bastou a visão do Templo para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que desejava. A seu ver, a serenidade dos discípulos do Cristo provinha, natural mente, da ignorância que lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam aos galileus eram, apenas, criaturas que o mundo desclassificara pela decadência física, pela educação fa lha, pelo supremo abandono. O homem de responsabilidade, por certo, não poderia encontrar a paz a preço tão vil. Figurarase-lhe haver resolvido o pro blema. Continuaria a luta. Contava com o breve restabelecimento da noiva; logo que possível desposaria Ab igail e, com fácilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos quão peri gosos engodos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito do seu lar, feliz, prosseguiria na perseguição de quantos esquecessem a Lei, trocando -a por outros princípios. Esses raciocínios lhe acalmaram, de certo modo, as inquietações. Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias golpeava lhe a alma com uma notícia grave: Abigail piorara, estava agonizante! Incontinenti, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a bem -amada ao perigo iminente. Ruth e o marido estavam desolados. Desde a ma drugada, a enferma caíra em penosa prostração. Os vômitos de sangue sucediam -se ininterruptos. Dirse-ia que só esperava a visita do noivo para morrer. Saulo escutou -os, lívido como cera. Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava embalsamado, trazendo a mensagem das flores do pomar e do jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e carinho sas que lhes haviam dado a vida. Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos translúcidos. O tom de marfim do semblante abatido acentuara -se rapidamente. O peito arfava -lhe precípite, o coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a derradeira agonia. Saulo aproximou -se angustiado. Pela primeira vez na vida, sentia-se trémulo diante do irremediável. Aquele olhar, aquela palidez de mármore, aquela aflição tocada de angústia. anuncia vam-lhe o desenlace. Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento inesperado, tomou-lhe as mãos flácidas, banhadas do suor frio dos moribundos. — Como foi isso, Abigail? — dizia perturbado —ainda ontem, deixei-te tão esperançado... Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!... Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram -se. Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as últimas idéias, Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as mãos de beijos ardentes. A agonia dolorosa parecia-lhe o sofrimento injustificável, que o céu houvera enviado a um anjo. Ele, que trazia o espírito res secado pela hermenêutica das leis humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez. Lendo -lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho com dificuldade infinita. Conhecia S aulo e comprovara-lhe a rigidez do caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo do bem-amado, mas demonstrava, igual mente, o alvorecer de uma vida nova para o seu espírito. — Não chores, Saulo — murmurou dificilmente a morte não é o fim de tudo... — Quero-te comigo em toda a vida — replicou o rapaz desfeito em lágrimas. — E, contudo, é preciso morrer para vivermos ver dadeiramente acrescentava a agonizante, cortando as palavras com a respiração opressa. — Jesus nos ensinou que a semente caindo na terra fica só, mas se morrer dá muitos frutos!... Não te rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu convívio material! Se nos uníssemos pelo matrimônio, talvez tivéssemos muitas alegrias; teríamos um lar com os nossos filhos; mas destruindo nossas esperanças de uma felicidade passa geira na Terra, Deus nos multiplica os sonhos genero sos... Enquanto esperarmos a união indissolúvel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrarás ao Eterno, em esforços sublimes e redentores...
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Capítulo 9
Nome do Capítulo Abigail cristã
Parte Primeira Parte