Desde que lhe vi a resignação santificada, fiz o propósito de não m e referir aos seus novos pontos de vista em matéria de crença religiosa. E como Saulo estivesse engolfado em profundas cismas, sem saber o que responder, o bom homem re matou: —Vem comigo, verás com os próprios olhos!... O rapaz seguiu-lhe os passos, cambaleando. As idéias baralhavam -Se-lhe no cérebro dolorido. Aquelas notícias inesperadas envenenavam -lhe o coração. Reclinada no leito, assistida pela afeição maternal de Ruth, a moça de Corinto estampava no rosto um profundo abatimento. Muito magra, a epide rme adquirira a cor do marfim, mas o olhar lúcido denotava absoluta calma espiritual. Carinhosa serenidade estam pava-se-lhe na fisionomia entristecida. De vez em quando, renovava-se a dispnéia com prolongada aflição, vol tandose então para a janela abe rta, como se dali espe rasse remédio ao seu cansaço, através das brisas frescas que chegavam do seio generoso da Natureza. Ao vê-la, Saulo não dissimulou o seu espanto. A jovem, por sua vez, recebendo a jubilosa surpresa, to mou-se de sincera e transbordan te alegria. Saudações afetuosas se trocaram entre ambos, en quanto os olhos traduziam a saudade angustiosa com que haviam esperado aquele momento. O futuro rabino acariciou -lhe as mãos mimosas, que pareciam agora modeladas em cera translúcida. Falaram da e sperança que os alentara, constante, antes do reencontro. Notando que eles desejavam ficar sós, para confidenciar mais à vontade, Zacarias e Ruth retiraram -se discretamente. — Abigail! — exclamou Saulo comovidíssimo, logo que se viram a sós — abdiquei o meu orgulho e a minha vaidade de homem público para vir até aqui, perguntar se me perdoaste, se me não esqueceste! — Esquecer-te? — respondeu ela de olhos úmidos. Por mais rude e longa que seja a estação de sol ardente, a folha do deserto não poderá esquecer a chuva benéfica que lhe deu vida. Não me fales, igualmente, em perdão, pois acaso poderá alguém perdoar -se a si mesmo? E nós, Saulo, pertencemo -nos um ao outro para a eternidade. Não me disseste, muitas vezes, que eu era o coração do teu cérebro? Ouvindo o timbre caricioso daquela voz amada, o jovem de Tarso comovia se nas entranhas do próprio ser arrebatado e ardente. Aquela humildade e aquele tom de ternura penetravam -lhe o coração, reconquistando -lhe o discernimento para o caminho reto. Guardando, entre as suas, as mãos pálidas da noiva, exclamou com um lampejo de alegria nos olhos: — Por que dizes que “eras o coração”, se ainda és e sê -lo-ás para sempre? Deus abençoará nossas espe ranças. Realizaremos nosso ideal. Voltei para levar-te comigo. Teremos um lar, serás nele a rainha!... Dominada por indefinível alegria, a noiva, que o contemplava com lágrimas, murmurou: — Desconfio, Saulo, que os lares da Terra não foram feitos para nós!... Deus sabe quanto desejei, ardente mente, ser a mãe carinhosa de teus filhos; como conservei o ideal acima de todas as circunstâncias, para aformo sear tua existência com o meu carinho! Desde menina, em Corinto, vi mulheres que desbaratavam os tesouros do Céu, simbolizados no amor do esposo e dos filhinhos; e pensei que o S enhor me concederia o mesmo patrimônio de esperanças divinas, pois aguardava as bênçãos do santuário doméstico para glorificá-lo de todo o coração. Para exaltá -lo, idealizei a vida do homem amado, que me auxiliaria a erguer o altar da prole; e, assim que m e chegaste, organizei vastos planos de uma vida santa e venturosa, na qual pudéssemos honrar a Deus. Saulo escutava comovido. Nunca lhe observara ta manha largueza de raciocínio e lucidez, naquele tom de ternura tranqüila. Mas o Céu — prosseguiu resignada — retirou-me as possibilidades de semelhante ventura na Terra. Nos meus primeiros dias de solidão, visitava os lugares ermos, como a procurar -te, requisitando o socorro do teu afeto. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que nunca mais voltari as; a noite amiga aconselhava -me a esquecer; o luar, que me ensinaste a bem querer, agravava as minhas recordações e amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava com lágri mas nos olhos, filhas do desespero do coração. Embalde pr ocurava tua palavra confortadora. Sentia -me profundamente só. Para lembrar e seguir tuas advertências, recordava que me chamaste a atenção, à última vez que nos encontramos, para a amizade de Zacarias e de Ruth. É verdade que não tenho outros amigos mais f iéis e generosos que eles; entretanto, não lhes poderia ser mais pesada na vida, além do que sou. Evitei, então, con fiar-lhes minhas angústias. Nos primeiros meses da tua ausência, amarguei sem consolo a minha grande desdita. Foi quando surgiu aqui um vel hinho respeitável, chamado Ananias, que me deu a conhecer as luzes sagradas da nova revelação. Conheci a história do Cristo, o Filho de Deus Vivo; devorei o seu Evangelho de redenção, edi fiquei-me nos seus exemplos. Desde essa hora, compreen di-te melhor, conhecendo a minha própria situação. Súbito acesso de tosse cortou -lhe a narrativa. As palavras da noiva caíam -lhe no coração como gotas de fel. Nunca experimentara dor moral tão aguda. Verificando a sinceridade natural, o carinho doce daquelas confissões, sentia-se pungido de acerbos remorsos. Como pudera abandonar, assim, a escolhida de sua alma, olvidando -lhe a fidelidade e o amor? Onde encontrara tamanha dureza de espírito para esquecer deveres tão sagrados? Agora, vinha encontrá -la exânine, desiludida de realizar na Terra os sonhos da juventude. Além de tudo, o carpinteiro odiado parecia tomar -lhe o lugar no coração da noiva adorada. Naquele momento, não experimentava apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e os adeptos, mas sentia ciúmes dele na alma caprichosa. De que poderes podia dispor o nazareno obscuro e martirizado na cruz, para conquistar os sentimentos mais puros da noiva carinhosa? — Abigail — disse comovido —, abandona as idéias tristes que poderiam envenenar os sonhos de nossa mo cidade. Não te entregues a ilusões. Renovemos nossas esperanças. Breve estarás restabelecida. Sei que me per doaste a morte de teu irmão, e minha família te receberá em Tarso com júbilos sinceros! Seremos felizes, muito felizes!... Seus olhos pareciam pairar nu ma região de sonhos deliciosos, procurando reavivar no coração amado os seus projetos de felicidade terrena. Ela, porém, misturando sorrisos e lágrimas, acres centava: — Francamente, querido, eu também desejaria re viver!... Ser tua, entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o céu da tua existência; tudo isso constitui meu ideal de mulher!... Ah! se pudesse, buscaria os teus parentes com amor, haveria de con quistá-los para o meu coração, ao preço de um grande afeto; mas, pressinto que os planos de Deus são diferen tes, no que concerne aos nossos destinos. Jesus cha mou-me para a sua família espiritual... — Ai de mim! — exclamou Saulo cortando -lhe a palavra — em toda parte, topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo! Não repitas semelhante coisa. Deus não seria justo se te seqüestrasse ao meu afeto. -Quem poderia, então, como esse Cristo, interpor -se aos nossos votos? Mas Abigail fixou-o com um gesto súplice e falou: — Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor incl inarmonos com paciência aos sagrados desígnios? Não alimentemos dúvidas prejudiciais. Este leito é de meditação e de morte, O sangue, várias vezes, já me golfou prenunciando o fim. Mas nós cremos em Deus e sabemos que esse fim é apenas corporal. Nossa alm a não morrerá, amar-nos-emos eternamente... — Não concordo — respondia ele extremamente aflito —, essas presunções são fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fanático nazareno que morreu na cruz, entre a humilhação e a covardia. Nunca assim foste, melancólica e desalentada; somente os sortilégios galileus podiam convencer-te de tais absurdos funestos. Mas, procura raciocinar por ti mesma! Que te deu o crucificado senão tristeza e desolação? — Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convic ta da impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um mestre vulgar de sortilégios, foi o Messias dispensador de consolação e vida. Sua influência renovou-me as forças, saturou -me de bom ânimo e verdadeira compreensão dos desígnios supremos. Seu Evangelho de perdão e amor é o tesouro di vino dos sofredores e deserdados do mundo. O jovem não conseguia dissimular a irritação que lhe vagava na alma. — Sempre o mesmo refrão — disse confuso — invariavelmente, a afirmativa de ter vindo para os infeli zes, para os doentes e infortunados. Mas, as tribos de Israel não se compõem apenas de criaturas dessa es pécie. E os homens valorosos do povo escolhido? E as famílias de tradições respeitáveis? Estariam fora da influência do Salvador? — Tenho lido os ensinamentos de Jesus — respondeu a moça com firmeza — e suponho compreender as tuas objeções. O Cristo, cumprindo a sagrada palavra dos profetas, revela -nos que a vida é um conjunto de nobres preocupações da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos cami nhos retos. Não podemos conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, senão como Pai desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valo rosos a que te referes, os forros de enfermidades e so frimentos, na posse das bênçãos reais de Deus, deviam ser fil hos laboriosos, preocupados com o rendimento da tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da feli cidade de seus irmãos. Mas, no mundo, temos contra nossas tendências superiores o inimigo que se instala em nosso próprio coração. O egoísmo ataca a saúde, o ciúme prejudica o mandato divino, como a ferrugem e a traça que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando nos descuidamos. São poucos os que se recor dam da proteção divina, nos dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham à revelia do aguilhão.