Capítulo 12
Após ouvir a nova amiguinha, que se colocava à nossa disposição para qualquer concurso fraterno, recomendou a Luciana e a Irene trouxessem a irmã Albina, ao passo que o padre Hipólito e eu deveríamos conduzir Dimas, Fábio e Cavalcante àquele compartimento, de onde seguiríamos para a Casa Transitória de Fabiano, em excursão de aprendizado e adestramento. Ambos os grupos partimos em direção diversa. Utilizando a volitação, com maestria, Hipólito interrogou-me, bem humorado: — Já participara você de serviço igual ao de hoje? Confessei que não, rogando-lhe esclarecimento. — É fácil, — tornou. Os que se aproximam da desencarnação, nas moléstias prolongadas, comumente se ausentam do corpo, em ação quase mecânica. Os familiares terrestres, por sua vez, cansados de vigílias, tudo fazem por rodear os enfermos de silêncio e cuidado. Desse modo, não é difícil afastá-los para a tarefa de preparação. Geralmente, estão hesitantes, enfraquecidos, semi-inconscientes, mas nosso auxílio magnético resolverá o problema. Conservar-nos-emos nas extremidades, segurando-lhes as mãos e, impulsionados por nossa energia, volitarão conosco, sem maiores impedimentos. Recebi a explicação com interesse e, em breve, penetrávamos a modesta residência de Dimas. Aliviado por injeção repousante, não encontramos dificuldade para subtraí-lo à atenção dos parentes. Notando-nos a presença, sondou-nos a disposição fraterna e perguntou: — Ó meus amigos! Será hoje o fim? Como tenho suspirado pela libertação!… — Não, meu caro, — acentuou Hipólito, sorrindo, — é preciso tolerar mais um pouco… O descanso, porém, não tardará muito. Venha conosco. Não temos tempo a perder. O ex-sacerdote recomendou-me tomar a dianteira e, de mãos dadas os três, rumamos para o Rio, em busca da moradia de Fábio. Não se registraram obstáculos e, em reduzidos instantes, tomamo-lo à nossa conta. O companheiro ligou-se, prazeroso, à pequenina caravana. Ia tomar o caminho do hospital, de modo a procurar o terceiro, quando Hipólito ponderou: — Não convém conduzir todos de uma vez. Cavalcante permanece em grave desequilíbrio, exigindo cooperação mais substancial. Em vista disso, buscá-lo-emos na segunda viagem. Lembrando-lhe os desvarios, não tive recurso senão concordar. De regresso à câmara de Adelaide, encontramos os demais à nossa espera. Irene e Luciana haviam trazido Albina para os trabalhos preparatórios. Sem perda de tempo, demandamos a grande casa de saúde, em busca de Cavalcante. Hipólito adivinhara. O doente mostrava-se muito aflito. Bonifácio, ao lado dele, cooperava devotadamente conosco, para desprendê-lo temporariamente do corpo oprimido. O enfermo, no entanto, se deixara tomar por horríveis impressões de medo, dificultando os nossos melhores esforços. Após trabalho ingente de magnetização do vago e em seguida à ministração de certos agentes anestesiantes, destinados a propiciar-lhe brando sono, retiramo-lo do corpo, que permaneceu sob os cuidados de Bonifácio. Em minutos rápidos, púnhamo-nos de regresso. Com aquiescência de Jerônimo, alguns amigos dos enfermos acompanhar-nos-iam à Casa Transitória. Dos cinco doentes, Adelaide e Fábio eram os únicos que revelavam consciência mais nítida da situação. Os demais titubeavam, enfraquecidos, baldos de noção clara do que ocorria. O Assistente organizou a corrente magnética, tomando posição guiadora. Cada irmão encarnado localizava-se entre dois de nós outros, almas libertas do Plano físico, mais experimentadas no campo espiritual. De mãos entrelaçadas, para permutar energias em assistência mútua, utilizamos intensivamente a volitação, ganhando alturas. Adelaide e Fábio, algo habituados ao desdobramento, assumiram discreta atitude de observação e silêncio. Os outros, porém, comentavam o acontecimento em altos brados. — Ó grande Deus! — Exclamava Albina, rememorando passagens bíblicas, — estaremos nós no glorioso carro de Elias? () — Dai-me forças, ó Pai de Misericórdia! — Expressava-se Cavalcante, de alma opressa, — falta-me a confissão geral! Ainda não recebi o Viático! Oh! Não me deixeis enfrentar os vossos juízos com a consciência mergulhada no mal!… Suas rogativas sensibilizavam-nos os corações. Dimas, por sua vez, balbuciava exclamações ininteligíveis, entre o assombro e a inquietude. Atravessada a região estratosférica, () a ionosfera () surgia-nos à vista, apresentando enorme diferença, por causa do afluxo intenso dos raios cósmicos em combinação com as emanações lunares. Espantado, Dimas perguntou em voz alta: — Que rio é este? Ah! Tenho medo! Não posso atravessá-lo, não posso, não posso!… O impulso magnético inicial fornecido por Jerônimo era, no entanto, excessivamente forte para sofrer solução de continuidade, ante tão débil resistência; e o grupo avançou, avançou sem recuos, até que, muito além, alcançamos o asilo de Fabiano, onde a Irmã Zenóbia nos acolheu de braços carinhosos. Congregávamo-nos todos nós: os componentes da missão socorrista — os enfermos e mais seis amigos desses últimos, detentores de elevados conhecimentos. Em pequena sala posta à nossa disposição, Gotuzo, por gentileza, aplicou vigorosos recursos fluídicos em nossos tutelados, que os receberam como crianças incapacitadas de imediato julgamento, exceção de Adelaide e Fábio, que se mantinham cônscios do fenômeno. Em seguida, o prestimoso Jerônimo tomou a palavra e dirigiu-se a eles, comentando: — Amigos, o concurso desta noite não se destina à cura do corpo grosseiro, posto agora a distância pelas necessidades do momento. Tentamos revigorar-vos o organismo espiritual, preparando-vos o desligamento definitivo, sem alarmes de dor alucinatória. Devo confessar-vos que, retomando o vaso físico, experimentareis natural piora de vossas sensações, agravando-se-vos a tortura, porque os remédios para a alma, na presente situação, intensificam os males da carne. Certificai-vos, portanto, de que as providências desta hora constituem ajuda efetiva à libertação. De retorno ao antigo ninho doméstico, encerrada esta primeira excursão de adestramento, encontrareis mais tristeza no terreno da Crosta, mais angústia nas células físicas, mais inquietude no coração, porque a vossa mente, no processo das recordações instintivas, terá fixado, com maior ou menor intensidade, o contentamento sublime deste instante. Preparai-vos, pois, para vir até nós; solucionai os derradeiros problemas terrestres e confiai na Proteção Divina! Logo após, verificou-se breve intervalo, durante o qual permaneceríamos à vontade. O Assistente fora rápido nas explicações, esclarecendo-nos que condensava os assuntos em curtas sentenças, atendendo à incapacidade mental dos beneficiários, impotentes ainda para penetrar o sentido das longas dissertações. Com efeito, os companheiros recebiam parcialmente o alentador aviso. Eram atingidos pelo socorro magnético positivo, mas as ideias que faziam do acontecimento eram muito diversas entre si. Cavalcante, com a expressão ingênua dum menino, chamou-me, em particular, indagando se estávamos no paraíso. Sentia-se aliviado, feliz. Alegria enorme banhava-lhe o coração. E, contente, reconfortado, acentuava: — Não será aqui o Céu? Não consegui fazer-lhe sentir o contrário. Albina lembrava cenas bíblicas, em suas interpretações literais do texto sagrado. Depois de fixar o nevoeiro exterior, circunspecta, perguntou a Luciana se aquela era a casa do Senhor, mencionada no , em vista da nuvem de matéria densa que cercava a paisagem. Dentre os espiritistas, Adelaide e Fábio entregavam-se à reserva feliz da oração, mas Dimas, embriagado de felicidade pelo provisório alívio, abeirou-se, curioso, do padre Hipólito e inquiriu se a zona representava alguma dependência venturosa de Marte. O ex-sacerdote esboçou largo sorriso e respondeu, complacente: — Não, meu amigo, isto aqui ainda é a Terra mesma. Estamos muito longe dos outros planetas… Trocamos inteligente olhar, que traduzia bom humor. Antes de nossas considerações, talvez desnecessárias, Jerônimo interveio, acrescentando: — O plano impressivo da mente grava as imagens dos preconceitos e dogmas religiosos com singular consistência. A transformação compulsória, pelo decesso, reintegrará a criatura no patrimônio de suas faculdades superiores. O trabalho, porém, não pode ser brusco, sob pena de ocasionar desastres emocionais de graves consequências. Urge considerar a necessidade da medida, da gradação. E, fitando-nos mais agudamente, prosseguiu: — Há, contudo, observação valiosa a destacar. Como vemos, não é a rotulagem externa que socorre o crente nas supremas horas evolutivas. É justamente a sementeira do esforço próprio, nos serviços da sabedoria e do amor, que frutifica, no instante oportuno, através de providências intercessórias ou de compensações espontâneas da lei que manda entregar as respostas do Céu “a cada um por suas obras”. ()Todo lugar do Universo, portanto, pode ser convertido em santuário de luz eterna, desde que a execução dos Divinos Desígnios seja a alegria de nossa própria vontade. Finda a colheita de preciosos ensinamentos, começamos a regressar, terminando, assim, a nossa feliz excursão. Devolvendo os enfermos aos leitos de origem, verificamos as impressões diferentes de cada um. Fábio demonstrava infinito conforto no campo íntimo. Cavalcante acordou, no organismo de carne, pensando em recorrer à eucaristia pela manhã, e Dimas, ao despertar, junto de nós, chamou a esposa e afirmou em voz fraca: — Oh! Como foi maravilhoso meu sonho de agora!
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Nome do Capítulo Excursão de adestramento