Nosso orientador sediara-nos a tarefa na Casa Transitória de Fabiano, deliberando, porém, que as nossas atividades na Crosta tomassem como ponto de referência o lar coletivo de Adelaide, onde, realmente, os fatores espirituais eram mais valiosos.
— Aqui, — esclarecera-nos de início, — nos sentiremos à vontade. A organização é campo propício às melhores semeaduras do espírito e oferece-nos tranquilidade e segurança. Permaneceremos em comunicação contínua com o abrigo de Fabiano, para onde conduziremos os recém-desencarnados e condensaremos todas as atividades possíveis, concernentes aos outros amigos, nesta amorosa fundação. De fato, aquele refúgio de fraternidade legítima era, sem dúvida, vasto celeiro de bênçãos. Diversas entidades amigas operavam na instituição, prestando assistência e cuidados. Encontrava ali um dos raros edifícios da Crosta, de tão largas proporções, sem criaturas perversas da Esfera invisível. Semelhando-se à Casa Transitória, de onde vínhamos, a vigilância funcionava severa. Fôramos defrontados por vários sofredores, criaturas de bons sentimentos, que penetravam o asilo com prévia autorização. Enquanto o Assistente se demorava em palestra com o dedicado Bezerra, tivemos permissão para visitar as dependências. O padre Hipólito, Luciana e eu, em companhia de Irene, jovem colaboradora espiritual da casa, pusemo-nos em ação. Em todos os compartimentos havia luz de nosso Plano, indicando a abundância dos pensamentos salutares e construtivos de todas as mentes que ali se entrelaçavam na mesma comunhão de ideal. Chegados à sala das reuniões populares, nossa nova amiguinha explicou:
— Esta é a região do abrigo que nos força a serviço mais árduo. Receptáculo das emanações mentais e dos pedidos silenciosos de toda gente que nos visita, em assembleias públicas, depois de cada sessão, somos obrigados a minuciosas atividades de limpeza. Como sabem, os pensamentos exercem vigoroso contágio e faz-se imprescindível isolar os prestimosos colaboradores de nossa tarefa, livrando-os de certos princípios destruidores ou dissolventes. Tentando intensificar a conversação esclarecedora, aduzi:
— Calculo a extensão dos afazeres… Há suficiente pessoal na cooperação?
— Sim, — respondeu, — a legião dos colaboradores não é pequena. Somos levados a servir, dia e noite, em turmas alternadas. Temos seções de assistência aos adultos e às criancinhas. Vislumbrava ali, porém, tão grande número de trabalhadores de nosso Plano que, por momentos, graves reflexões me afloraram ao cérebro. Tanta gente a contribuir, apenas no sentido de amparar algumas dezenas de crianças desfavorecidas no campo material? Estabelecia paralelo entre a fundação de Adelaide e a Casa Transitória de Fabiano, notando singular diferença. Lá, os rigorosos serviços de sentinela, o gesto de energia, a atenção do pessoal, verificavam-se em virtude das necessidades inadiáveis de certa quantidade de infelizes desencarnados, para os quais a caridade constituía lâmpada acesa, indispensável à transformação interior. Aqui, porém, via somente criaturinhas tenras que reclamavam de imediato, acima de qualquer outra medida, leite e pão, primeiras letras e bons conselhos. Valeria, assim, o dispêndio de tanta energia de nossa Esfera? Mesmo assim, a delicada colaboradora, apreendendo-me as indagações íntimas, ponderou:
— Cumpre-nos reconhecer, todavia, que esta obra não se dedica exclusivamente às necessidades do estômago e do intelecto da infância desamparada. Os imperativos da evangelização preponderam aqui sobre os demais. Para infundir espiritualidade superior à mente humana urge aproveitar realizações como esta, já que é muito difícil obter espontâneo arejamento da esfera sentimental. Valemo-nos da casa, venerável em seus fundamentos de solidariedade cristã, como núcleo difusor de ideias salutares. A fundação é muito mais de almas que de corpos, muito mais de pensamentos eternos que de coisas transitórias. O diretor, o cooperador e o abrigado, recebendo as responsabilidades inerentes ao programa de Jesus, instintivamente se convertem nos instrumentos vivos da Luz de Mais Alto. Satisfazendo necessidades corporais, solucionamos problemas espirituais. Entrelaçando deveres e dividindo-os com os nossos irmãos encarnados, no setor de assistência, conseguimos criar bases mais sólidas à semeadura das verdades imorredouras. Realmente, as outras escolas religiosas não se esqueceram de materializar a bondade em obras de alvenaria. A Igreja Católica Romana dispõe de institutos avançados, sob o ponto de vista material, abrigando a infância desfavorecida; entretanto, aí, as concepções espirituais não se desenvolvem, acanhadas que ficam nos moldes tirânicos dos dogmas obsoletos. O trabalho, pois, na maioria dos casos, circunscreve-se ao simples armazenamento de pão efêmero. As Igrejas Protestantes possuem, por sua vez, grandes colégios e congregações, distribuindo valores educativos com a juventude; todavia, suas organizações se baseiam, quase sempre, mais na letra dos conceitos evangélicos que nos conceitos evangélicos da letra… Irene sorriu, fez ligeiro intervalo e continuou:
— Não desejamos menosprezar os serviços admiráveis dos aprendizes do Evangelho nos variados campos religiosos. Todos são respeitáveis, se levados a efeito pelo devotamento do coração. Desejamos apenas destacar os valores iluminativos. Nos primórdios da obra cristã, não faltavam prestigiosas providências da política imperial de Roma, a fim de que os famintos e esfarrapados recebessem trigo e agasalho e até mesmo preceptores seletos, filiados a famosos centros culturais de gregos e egípcios. Porém, no intuito de incentivar a obra de legítima iluminação do espírito, Simão Pedro e os companheiros de apostolado obrigaram-se a longo programa de socorro aos infortunados de toda sorte. Nem todos os seguidores do Evangelho procediam das altas camadas sociais do Judaísmo, como Gamaliel, o venerando rabino que encontrou o Mestre pelo intelecto desenvolvido. A maioria dos necessitados entraria em contato com Jesus através da sopa humilde ou do teto acolhedor. Lavando leprosos, tratando loucos, assistindo órfãos e velhinhos desamparados, os continuadores do Cristo davam trabalho a si próprios, dedicavam-se aos infelizes, esclarecendo-lhes a mente, e ofereciam lições de substancial interesse aos leigos da fé viva. Como não ignoram, estamos fazendo no Espiritismo evangélico a recapitulação do Cristianismo. O padre Hipólito aprovou, benévolo:
— Sim, inegavelmente; precisamos estimular a formação de serviços que libertem o raciocínio para voos mais altos.
— Dentro de nosso esforço, — prosseguiu Irene, com lhaneza, — o imperativo primordial consiste na iluminação do espírito humano com vistas à eternidade. Urge, no entanto, compreender que, para a obtenção do desiderato, é imprescindível “fazer alguma coisa”. Onde todos analisam, admiram ou discutem não se levantam obras úteis para atestar a superioridade das ideias. Por isso, nossos Mentores da Vida Divina apreciam o servo pela dedicação que manifeste à responsabilidade. O necessitado, o beneficiário, o crente e o investigador virão sempre aos nossos centros de organização da doutrina. E toda vez que exercitem o serviço cristão pela mediunidade ativa, pela assistência fraterna, pelos trabalhos de solidariedade comum, quaisquer que sejam, apresentam caracteres mais positivos de renovação, porque a responsabilidade na realização do bem, voluntariamente aceita, transforma-os em traços animados entre dois mundos — o que dá e o que recebe. Como veem, a luz divina prevalece sobre a benemerência humana, porque esta, sem aquela, pode muitas vezes degenerar em personalismo devastador, compreendendo-se, todavia, em qualquer tempo, que a fé sem obras é irmã das obras sem fé. Continuou Irene, em sua brilhante argumentação, ensinando-nos, vivaz, a ciência da fraternidade e do entendimento construtivo. Ouvindo-a, percebi, acima de toda preocupação individualista, que a difusão da luz espiritual na Crosta Terrestre não é ação milagrosa, mas edificação paciente e progressiva. As casas de benemerência social, sobre as águas pesadas do pensamento humano, funcionam como grandes navios de abastecimento à coletividade faminta de luz e necessitada de princípios renovadores. Passei a ver o estômago dos pequeninos em plano secundário, porque era a claridade positiva do Evangelho que inundava agora minhalma, convidando-me à contemplação feliz do futuro maior. Caíra a noite e continuávamos em companhia da estimada irmã que nos apresentava a instituição, comentando-lhe, com oportunidade e sabedoria, o salutar programa. Observamos os serviços espirituais que se preparavam, ante a noite próxima. Aqui, eram cuidadosas preceptoras desencarnadas que reuniriam as crianças nos momentos de sono físico, em ensinos benéficos; acolá, eram benfeitores diversos a buscarem irmãos para experiências e dádivas preciosas, nos Círculos de nossa movimentação. Refundi minha apreciação inicial, enxergando mais uma vez, naquele instituto, abençoada escola de espiritualidade superior, pelo ensejo de semeadura divina que proporcionava aos missionários da luz. Decorrido longo tempo, já noite fechada, o Assistente Jerônimo convocou-nos ao serviço. Irene acompanhou-nos à câmara de Adelaide, onde o nosso dirigente se encontrava em conversação com outros amigos. Foi breve nas determinações.