O Mundo das Plantas
“A vida não é representada na Terra apenas pelos seres animados que marcham na superfície do globo, voam nos ares ou nadam nas profundezas do oceano. Compondo um mesmo conjunto, os animais formam os degraus da pirâmide sobre a qual se assenta o homem, esse compêndio superior da série zoológica; estão ligados entre si pelos mesmos caracteres: o movimento, a respiração, a alimentação, os atos da vida animal, o instinto e mesmo o pensamento para um grande número deles. Estão ligados ao homem pelas leis gerais da organização e sentimos que pertencem ao mesmo sistema de existência ao qual pertencemos. Mas há na Terra uma outra vida, bem diferente da precedente, embora seja a sua base primitiva e o elemento fundamental, uma outra vida distinta da nossa, que se perpetua paralelamente à vida animal e parece confinar-se numa espécie de isolamento em meio ao resto do mundo. É a vida das plantas, desses seres misteriosos que nos precederam na Criação e que, por muito tempo, reinaram soberanamente nos continentes sobre os quais estabelecemos mais tarde o nosso império; verdadeiras raízes de nossa própria existência, pelas quais sugamos a seiva nutritiva da terra; fontes de vida incessantemente renovadas que se irradiam na Natureza; criações que constituem um reino intermediário entre o mineral e o animal, e cujo valor e real beleza não sabemos apreciar... “...É que existe nessa lei que preside à vida, à morte, à ressurreição das plantas um caráter de grandeza, de previdência e de afeição, que o pensamento humano pressente sem poder captá-lo; é que há nesses seres misteriosos que se chamam plantas um gênero de vida latente e oculto que espanta e enche de estranha surpresa o espírito observador... “As plantas, os animais, diz um poeta alemão, são os sonhos da Natureza, dos quais o homem é o despertar. Esse pensamento profundo repercutirá em nossa alma se consentirmos em descer um instante da vida humana, e mesmo da vida animal, para observar a vida vegetal... “...E não creiais que ela sofra cegamente, como um objeto inerte, as condições de existência que lhe são impostas. Não: ela escolhe, recusa, procura, trabalha... “...Escutai, por exemplo, esta história: “Sobre as ruínas de New-Abbey, no condado de Galloway, crescia um arbusto em meio a um velho muro. Ali, longe do solo acima do qual se elevava de alguns pés o bloco de pedras, nosso pobre arbusto morria de fome, fome de Tântalo, já que ao pé do próprio muro árido se estendia a boa e nutritiva terra. “Que dizer dos surdos tremores do ser vegetal que luta contra a morte, suas torturas silenciosas e seus mudos langores galvanizados pela cobiça? Quem saberá contar aqui em particular o que se passa no organismo do nosso pobre mártir? Que atrações se estabelecerão, que faculdades se aguçarão, que imperiosas leis se revelarão, que virtudes enfim foram criadas?... O nosso arbusto existe sempre, enérgico e aventureiro se o foi, querendo viver a todo custo e, não podendo atrair a terra, marcha, imóvel, acorrentado, para esta terra longínqua, objeto de seus ardentes desejos. “Marcha? não; mas se estira, se alonga, estende um braço desesperado. Emite uma raiz improvisada pela circunstância, que é impelida para o ar livre e, reconhecida, se dirige para o solo até atingi-lo... Com que entusiasmo aí se enterra! Doravante a árvore estava salva. Nutrida por esta raiz nova, deslocou-se de um lugar para outro, deixando que morresse as que mergulhavam inutilmente nos escombros; depois, endireitando-se pouco a pouco, deixou as pedras do velho muro e viveu sobre o órgão libertador, que logo se transformou num tronco verdadeiro. “Que pensais dessa persistência? Não achais que esse instinto se parece muito com o do animal e, ousamos confessar, mesmo com a vontade humana?... “Sob essas manifestações de uma vida desconhecida, o filósofo pode abster-se de reconhecer no mundo das plantas um canto do coro universal. É um mundo de uma realidade viva, mais comovente do que se pensa, esse reino vegetal, harmônico, doce e sonhador que, nos degraus inferiores à animalidade, parece sonhar enquanto aguarda a perfeição entrevista. Sem dúvida não se deve cair no excesso de uma escola da antiguidade que, sob autoridade de Empédocles, não hesitando em conceder às plantas faculdades de escol, as havia humanizado e mesmo divinizado. Não; as plantas não são animais, nem homens: uma distância imensa as separa de nós; mas vivem uma existência que não sabemos apreciar e ficaríamos bem admirados se nos fosse permitido entrar um instante nos segredos do mundo vegetal e escutar o que podem dizer em sua língua as pequenas flores e as grandes árvores.”
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Mês Dezembro
Ano 1869