O Novo bispo de Barcelona
“Para prevenir os perigos aos quais poderíeis sucumbir, e tendo em vista a autoridade divina que nos foi dada para vo-los assinalar e deles vos afastar, de conformidade com a faculdade que nos é reconhecida pelo artigo 3o da última concordata, e de acordo com o que foi previsto pelos cânones sagrados e as leis do reino, relativas aos erros que temos assinalado e combatido, condenamos O Livro dos Espíritos, traduzido em espanhol sob o título de El Libro de los Espíritus, de Allan Kardec, como incurso nos artigos 8o e 9o da ordenação promulgada em virtude da prescrição, para este efeito, do concílio de Trento. Proibimos a sua leitura a todos os nossos diocesanos, sem exceção, e lhes ordenamos que entreguem a seus curas os respectivos exemplares que lhes caírem nas mãos, para que nos sejam enviados com a máxima segurança possível. “Dado em nossa santa visita de Mataro, a 27 de julho de 1864.” Pantaleão, bispo de Barcelona, Por ordem de S. E. S. monsenhor bispo, Don Lazaro Bauluz, secretário A proibição feita pelo bispo de Barcelona a todos os seus diocesanos, sem exceção, de se ocuparem do Espiritismo, é plagiada na do bispo de Argel. Duvidamos muito que ela tenha mais sucesso, embora seja na Espanha, porquanto nesse país, como alhures, as idéias fermentam, mesmo sob o abafador e, talvez, por causa do abafador, que as mantém em estufa quente. O auto-de-fé de Barcelona apressou a sua eclosão. O efeito visado dessa solenidade aparentemente não correspondeu à expectativa, desde que não o repetiram; mas a execução, que já não ousam fazer em público, querem fazê-la em particular. Convidando seus administrados a lhe remeter todos os livros espíritas que lhes caírem à mão, monsenhor Pantaleão certamente não teve em vista colecioná-los. Ele lhes interdita evocar os Espíritos, o que é um direito seu; mas em sua pastoral esqueceu uma coisa essencial: proibir que os Espíritos entrem na Espanha. Ele se admira de que o Espiritismo crie raízes tão facilmente no século dezenove. Devem admirar-se ainda mais de ver neste século a ressuscitação de usos e costumes da Idade Média. E, o que é mais surpreendente ainda, é que se encontrem pessoas, aliás instruídas, que compreendem tão pouco a natureza e a força da idéia, para crer que se lhe possa deter o caminho, como se retém um fardo de mercadorias na fronteira. Vós vos queixais, monsenhor, de que os incrédulos e os indiferentes fiquem surdos à voz dos pastores da Igreja, ao passo que se submetem à do Espiritismo. É que eles são mais tocados pelas palavras de caridade, de encorajamento e de consolação do que pelos anátemas. Crêem reconduzi-los por imprecações, como a pronunciada ultimamente pelo abade de Villemayor-de-Ladre, contra um pobre mestre-escola que se atreveu a contrariá-lo? Eis esta fórmula canônica, relatada pela Correspondência de Madrid, de junho de 1864, junto à qual a famosa imprecação de Camille é quase doçura. O poeta colocou-a na boca de uma pagã, mas não se atreveu a pô-la na de uma cristã. “Maldito seja Auguste Vincent; malditas as roupas que o cobrem, a terra em que pisa, a cama onde dorme, a mesa em que come; malditos sejam o pão e todos os outros alimentos de que se nutre, a fonte onde bebe e todos os líquidos que toma. “Que a terra se abra e ele seja enterrado neste momento; que tenha Lúcifer à sua direita. Ninguém possa falar com ele, sob pena de serem todos excomungados, mesmo para lhe dizer adeus; malditos sejam também seus campos, sobre os quais não cairá mais água, para que nada lhe produzam; maldita seja a égua em que ele monta, a casa em que mora e as propriedades que possui. “Malditos também sejam seus pais, os filhos que tem ou tiver, que serão em pequeno número e maus; eles irão mendigar e ninguém lhes dará esmola; e, se lhas derem, que não a possam comer. Ainda mais: que sua mulher fique viúva agora, seus filhos órfãos e sem pai.” É bem num templo cristão que se fizeram ouvir tão horríveis palavras? É bem um ministro do Evangelho, um representante de Jesus-Cristo que as pronunciou? que, por uma injúria pessoal, vota um homem à execração de seus semelhantes, a danação eterna e a todas as misérias da vida, ele, seu pai, sua mãe, seus filhos presentes e futuros, e tudo o que lhe pertence? Jesus jamais utilizou semelhante linguagem, ele que orava por seus algozes e que disse: “Perdoai aos vossos inimigos”; que diariamente nos faz repetir, na Oração Dominical: “Senhor, perdoai nossas ofensas, assim como perdoamos aos que nos têm ofendido.” Quando pronuncia a maldição contra os escribas e fariseus, chama sobre estes a cólera de Deus? Não; mas lhes prediz as desgraças que os aguardam. E vos admirais, monsenhor, dos progressos da incredulidade! Antes vos deveríeis admirar de que, em pleno século dezenove, a religião do Cristo seja tão mal compreendida pelos que são encarregados de ensiná-la. Não fiqueis, pois, surpreso se Deus envia seus Espíritos bons para lembrarem o sentido verdadeiro de sua lei. Eles não vêm para destruir o Cristianismo, mas para libertá-lo das falsas interpretações e dos abusos que nele introduziram os homens.
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Mês Setembro
Ano 1864