religiosa da juventude? Se seus argumentos não triunfam sobre a incredulidade, é que não são bastante peremptórios. O Espiritismo não vai fazer concorrência com ela: faz o que a Igreja não faz; dirige-se àqueles aos quais ela é impotente para reconduzir, e consegue lhes dar fé em Deus, na sua alma e na vida futura. Que dizer de um médico que, não podendo curar um doente, se opusesse a que este aceitasse os cuidados de outro médico que o pudesse salvar?
É verdade que ele não preconiza um culto à custa do outro, não lança anátema a ninguém, sem o que seria bem-vindo para aquele cuja causa exclusiva tivesse abraçado; mas é justamente por ser portador de uma contra-senha, à qual todos podem responder: “Fora da caridade não há salvação”, que ele vem fazer cessar o antagonismo religioso, que fez derramar mais sangue que as guerras de conquista.
“Depois de haver ensaiado a adivinhação e o sonambulismo pelo magnetismo animal, sem nada obter, senão a reprovação dos homens sensatos; depois de ter visto caírem em descrédito as mesas girantes, desenterraram o cadáver infecto desse Espiritismo, com o absurdo da transmigração das almas, desprezando os artigos do nosso símbolo, tais como os ensina a Igreja, quiseram substituí-los por outros que os anulam, admitindo uma imortalidade da alma, um purgatório e um inferno muito diferentes dos que nos ensina nossa fé católica.”
Observação – Isto é muito justo. O Espiritismo não admite um inferno onde há labaredas, tridentes, caldeiras e lâminas de navalhas; também não admite que seja uma felicidade para os eleitos levantar as tampas das caldeiras para aí ver fervendo os danados, talvez um pai, uma mãe ou um filho; não admite que Deus se compraza em ouvir, por toda a eternidade, os gritos de desespero de suas criaturas, sem ser tocado pelas lágrimas dos que se arrependem, nisto mais cruel que aquele tirano que mandou construir um respiradouro, pondo em comunicação as masmorras do palácio com o seu quarto de dormir, a fim de dar-se ao prazer de ouvir os gemidos de suas vítimas. Enfim, o Espiritismo não admite que a suprema felicidade consista numa contemplação perpétua, que seria uma perpétua inutilidade, nem que Deus tenha criado as almas para lhes dar apenas alguns anos, ou alguns dias de existência ativa e, em seguida, arrojá-las para sempre nas torturas ou numa inútil beatitude. Se esta é a pedra angular do edifício, tem razão a Igreja para temer as idéias novas. Não é com tais crenças que ela tapará o abismo escancarado da incredulidade.
“Com isto, como disse muito a propósito o sábio bispo de Argel, tudo quanto os incrédulos puderam fazer foi mudar a face, para arrastar essa porção de crentes, cuja fé, simples e pouco esclarecida, facilmente se presta a tudo o que é extraordinário e, ao mesmo tempo, conseguir opor um novo obstáculo à conversão dessas almas sepultadas na indiferença religiosa que, vendo que querem reduzir o Cristianismo a um mosaico de superstições, acabaram blasfemando contra ele e o seu autor.”
Observações – Eis uma coisa muito singular! É o Espiritismo que impede a Igreja de converter as almas sepultadas na indiferença religiosa. Mas, então, por que ela não as converteu antes do aparecimento do Espiritismo?
Nesse caso, ele é mais poderoso que a Igreja. Se os indiferentes se ligam a ele de preferência, é que, aparentemente, o que ele dá lhes convém mais.
“Para que os homens de pouca fé não se escandalizem lendo as doutrinas de O Livro dos Espíritos, e não creiam, um só instante, que elas estejam em harmonia com todos os cultos e com todas as crenças, inclusive a fé católica, como pretende Allan Kardec, nós lhes lembraremos que as Escrituras Santas as condenam como loucura, dizendo pela boca do Eclesiastes: ‘As adivinhações, os augúrios e os sonhos são coisas vãs, e o coração sofre essas quimeras; todas as vezes que não forem enviados pelo Altíssimo, desconfiai deles; porque os sonhos entristecem os homens e os que neles se apóiam são caídos.’ (Ecles., 36:5, 7.)22 “Jesus-Cristo censura os seus discípulos por terem acreditado na visão de um fantasma, ao vê-lo andar sobre as águas, e não quer que se assegurem disto senão pelos sinais que lhes dá da realidade de sua pessoa. (Lucas, 24:39.)
22 N. do T.: Capítulo inexistente (36) em Eclesiastes. O espírito dessa passagem bíblica, embora sem corresponder exatamente à letra, pode ser encontrado em Jeremias, 27:9.
“Como intérpretes da palavra divina, a Igreja e os Santos Pais têm repelido constantemente esses meios enganadores, pelos quais se crê que os Espíritos se comunicam com os homens, e a razão esclarecida também os repele, pois, compreendendo que, por si só e sem o auxílio da fé, ela não pode abarcar as coisas nem as verdades que se referem ao passado na ordem sobrenatural.
Como poderia atingir, por si mesma, num estado de transporte ou arrastada por uma imaginação ardente, aquilo que só se pode verificar de uma maneira, num lugar e em circunstâncias imprevistas?”
“Se, pois, em outras ocasiões, elevamos a voz contra esse materialismo ímpio e essa incredulidade sistemática, que nega a imortalidade da alma separada do corpo nos diferentes estados aos quais a divina justiça a destina para a eternidade, hoje nos vemos obrigados a protestar contra essa comunicação ativa, atribuída à evocação dos mortos, que pretende revelar o que só é perceptível à infinita penetração divina.
“Meus irmãos e meus diletos filhos, não vos deixeis arrastar por estas fábulas vãs, que encerram os erros e as preocupações dos povos bárbaros e ignorantes, e todas as invenções absurdas das criaturas cujo espírito, enfraquecido pela falta da verdadeira fé e pela superstição, abjuram a religião revelada pelo filho de Deus, degrada a razão humana e afasta a pureza da alma. Longe de nossos bem-amados diocesanos e, sobretudo, desses leitores, tidos, com justa razão, como esclarecidos e civilizados, de acreditarem nesses contos de sonhadores, tais como Allan Kardec, homens de imaginação exaltada e delirante! Longe de vós, pois, essa crença anticristã, que faz saírem dos túmulos os fantasmas, os Espíritos errantes; longe de vós essa superstição introduzida em nossa religião pelos pagãos convertidos ao Cristianismo, e que os escritos de seus sábios apologistas logo expulsaram.”
Observação – Os espíritas jamais fizeram os fantasmas saírem dos túmulos, e isto por uma razão muito simples: nos túmulos só existem os despojos mortais, que se destroem e não ressuscitam. Os Espíritos estão por toda parte no espaço, felizes por estarem livres e desembaraçados do corpo que os fazia sofrer, razão pela qual não se prendem aos seus restos, deles se afastando, em vez de o buscarem. O Espiritismo sempre repeliu a idéia de que as evocações fossem mais fáceis junto aos túmulos, de onde não se pode fazer sair o que lá não está. Só no teatro se vêem estas coisas.
“Tende cuidado para que vossos filhos, levados pela curiosidade juvenil, não leiam semelhantes produções e não se impressionem com as suas figuras, que têm feito perder o bom-senso a um bom número de pessoas, que hoje gemem nas casas de alienados, vítimas do Espiritismo.
“Envidai todos os esforços, meus filhos e meus irmãos, para conservar pura a doutrina que nos ensina o divino Mestre.
Confiai e buscai apoio unicamente na sua santa palavra, no que concerne ao vosso futuro. E sabendo que é à Providência divina, sempre sábia, que cabe conduzir o homem através das vicissitudes desta vida, para experimentar a sua fé e avivar a sua esperança, sem querer sondar vossa sorte futura, buscai assegurá-la por meio das boas obras; são elas que certificam a vossa vocação de filhos de Deus, chamados à herança do Pai Celeste.”
Observação – Em vez de interferir na curiosidade dos filhos, não se estaria estimulando a dos pais, que esta pastoral não deixa de suscitar? Quanto à loucura, é sempre a mesma história, que começa a ser singularmente usada, e cujo resultado não foi mais feliz que o dos supostos fantasmas. Como são feitas experiências de todos os lados, ainda mais na intimidade das famílias do que em público, e encontrando-se os médiuns por toda parte, em todas as camadas da sociedade e em todas as idades, cada um saberá informar-se quanto ao verdadeiro estado de coisas; é por isto que os esforços feitos para desfigurar o Espiritismo não dão resultado. O número daqueles que falsas alegações conseguem ludibriar é muito fraco e, destes, querendo ver por si mesmos, muitos reconhecem a verdade. Como persuadir uma multidão de que é noite, quando todos podem ver que é dia claro? Esta faculdade de controle prático, dada a todos, é um dos caracteres especiais do Espiritismo; é o que constitui a sua força.
Já não se dá o mesmo com as doutrinas puramente teóricas, que podem ser combatidas pelo raciocínio. O Espiritismo baseia-se em fatos e observações que, incessantemente, cada um tem à mão.
Toda a argumentação do Sr. bispo de Barcelona assim se resume: As manifestações dos Espíritos são fábulas, imaginadas pelos incrédulos para destruir a religião; só se deve crer no que dizemos, porque somente nós estamos de posse da verdade; não examineis nada além, a fim de não serdes seduzidos.