2ª Parte - Cap. 9: O prisioneiro do Cristo
Com efeito, quando viram que ele não acusara nem mesmo a mais leve impressão de dor, os indígenas pas saram a observá-lo como entidade sobrenatural. Já que se mantivera inden e ao veneno da víbora, não poderia ser um homem comum, antes algum enviado do Olimpo, a que todos deveriam obedecer. A esse tempo, o mais alto funcionário de Malta, Públio Apiano, chegara ao local e ordenava as primeiras providências para socorrer os náufr agos, sendo eles conduzidos a vastos galpões desabitados, próximo de sua residência, lá recebendo caldos quentes, remédio e roupas. O preposto imperial reservou os melhores cômodos da própria moradia para o comandante do navio e o cen turião Júlio, atento ao prestígio dos respectivos cargos, até que pudessem obter novas acomodações na Ilha. O chefe da coorte, no entanto, sentindo -se agora extremamente ligado ao Apóstolo dos gentios, solicitou ao gene roso funcionário romano acolhesse o ex -rabino com a deferência a que fazia jus, ao mesmo tempo que elogiava as suas virtudes heróicas. Ciente da elevada condição espiritual do convertido de Damasco e ouvindo os fatos maravilhosos, que lhe atribuíam no capítulo das curas, lembrou comovidamente ao centurião: — Ainda bem! Lembrança preciosa a vossa, mesmo porque, tenho aqui meu pai enfermo e desejaria experi mentar as virtudes desse santo varão do povo de Israel!... Convidado por Júlio, Paulo aquiesceu desassombrado e assim compareceu em casa de Públio. Lev ado à presença do ancião enfermo, impôs lhe as mãos calosas e enrugadas, em prece comovedora e ardente. O velhinho que ardia e se consumia em febre letal, experimentou imediato alívio e rendeu graças aos deuses de sua crença. Tomado de surpresa, Públio Ap lano viu-o levantar-se procurando a destra do benfeitor para um ósculo santo. O ex rabino, no entanto, valeu -se da situação e, ali mesmo, exaltou o Divino Mestre, pregando as verdades eternas e esclarecendo que todos os bens provinham do seu coração misericordioso e justo e não de criaturas pobres e frágeis, quanto ele. O preposto do Império quis conhecer o Evangelho imediatamente. Arrancando das dobras da túnica, em frangalhos, os pergaminhos da Boa Nova, único patrimônio que lhe ficara nas mãos, depois da tempestade, Paulo de Tarso passou a exibir os pensamentos e ensinos de Jesus, quase com orgulho. Públio ordenou que o do cumento fosse copiado, e prometeu interessar-se pela situação do Apóstolo, utilizando suas relações em Roma, a fim de lhe conseguir a liberdade. A notícia do feito espalhou -se em poucas horas. Não se falava de outra coisa, senão do homem providencial que os deuses haviam mandado à Ilha, para que os doentes fossem curados e o povo recebesse novas revelações. Com a complacência de Júlio , o ex-rabino e os companheiros obtiveram um velho salão do administrador, onde os serviços evangélicos funcionaram regularmente, durante os meses do inverno rigoroso. Multidões de enfermos foram curados. Velhos misérrimos, na clari dade dos tesouros do C risto alcançaram novas esperan ças. Quando voltou a época da navegação, Paulo já havia criado em toda a Ilha uma vasta família cristã, cheia de paz e nobres realizações para o futuro. Atento aos imperativos da sua comissão, Júlio re solveu partir com os prisioneiros no navio “Castor e Pólux”, que ali invernara e se destinava à Itália. No dia do embarque, o Apóstolo teve a consolação de aferir o interesse afetuoso dos novos amigos do Evan gelho, recebendo, sensibilizado, manifestações de frater nal carinho. A bandeira augusta do Cristo também ali ficara desfraldada, para sempre. O navio demandou a costa italiana debaixo de ven tos favoráveis. Chegados a Siracusa, na Sicília, amparado pelo ge neroso centurião, agora devotado amigo, Paulo de Tarso aproveitou os três dias de permanência na cidade, em pregações do Reino de Deus, atraindo numerosas criatu ras ao Evangelho. Em seguida, a embarcação penetrou o estreito, tocou em Régio, aproando daí a Pouzzoles (Putéoli), não longe de Vesúvio. Antes do desembarque, o centurião aproximou-se do Apóstolo, respeitosamente, e falou: — Meu amigo, até agora estiveste sob o amparo da minha amizade pessoal, direta; daqui por diante, po rém, temos de viajar sob os olhares indagadores de quantos habitam nas proximidades da metró pole e há que considerar vossa condição de prisioneiro... Notando-lhe o natural constrangimento, mescla de humildade e respeito, Paulo exclamou: — Ora esta, Júlio, não te incomodes! Sei que tens necessidade de algemar-me os pulsos para a exata exe cução de teus deveres. Apressa-te a fazê-lo, pois não me seria lícito comprometer uma afeição tão pura, qual a nossa. O chefe da coorte tinha os olhos molhados, mas, retirando as algemas da pequena bolsa, acentuou: — Disputo a alegria de ficar convosco. Quisera se r, como vós, um prisioneiro do Cristo!... Paulo estendeu a mão, extremamente comovido, per manecendo ligado ao centurião, sob o olhar carinhoso dos três companheiros. Júlio determinou que os prisioneiros comuns fossem instalados em prisões gradeadas e que Paulo, Timóteo, Aristarco e Lucas ficassem em sua companhia, numa pensão modesta. Em face da humildade do Apóstolo e de seus colaboradores, o chefe da coorte parecia mais generoso e fraternal. Desejoso de agradar ao velho discípulo de Jesus, mandou sindica r, imediatamente, se em Pouzzoles havia cristãos e, em caso afirmativo, que fossem à sua presença, para conhecerem os trabalhadores da semeadura santa. O soldado incumbido da missão, dai a poucas horas, trazia consigo um generoso velhinho de nome Sexto Flá cus, cuja fisionomia transbordava a mais viva alegria. Logo à entrada, aproximou -se do velho Apóstolo e osculou -lhe as mãos, regou-as de lágrimas, em transportes de espontâneo carinho. Estabeleceu-se, imediatamente, consoladora palestra de que Paulo de Tarso participava comovido. Flácus informou que a cidade tinha há muito a sua igreja; que o Evangelho ganhava terreno nos corações; que as cartas do ex rabino eram tema de meditação e estudo em todos os lares cristãos, que reconheciam em suas atividades a mis são de um mensageiro do Messias salvador. Tomando a velha bolsa arrancou, ali mesmo, a cópia da epístola aos romanos, guardada pelos confrades de Pouzzoles com especial carinho. Paulo tudo ouvia gratamente impressionado, pare cendo-lhe que chegava a um mundo novo. Júlio, por sua vez, não cabia em si de contente. E, dando largas ao seu entusiasmo natural, Sexto Flácus expediu recados aos companheiros. Aos poucos, a modesta estalagem enchia-se de caras novas. Eram padei ros, negociantes e artífices que vinh am, ansiosos, apertar a mão do amigo da gentilidade. Todos queriam beber os conceitos do Apóstolo, vê -lo de perto, beijar-lhe as mãos. Paulo e companheiros foram convidados a falar na igreja àquela mesma noite e, cientes de que o centu rião pretendia partir para Roma no dia imediato, os sinceros discípulos do Evangelho, em Pouzzoles, rogaram a Júlio permitisse a demora de Paulo entre eles, ao menos por sete dias, ao que o chefe da coorte atendeu de bom grado. A comunidade viveu horas de júbilo imenso. Sexto Flácus e os companheiros expediram dois emissários a Roma, para que os amigos da cidade imperial tivessem conhecimento da vinda do Apóstolo dos gentios. E, cantando louvores no coração, os crentes passaram dias de ilimitada ventura. Decorrida a semana de trabalhos frutuosos, felizes, o centurião fez ver a necessidade de partir. A distância a vencer excedia de duzentos quilôme tros, com sete dias de marcha consecutiva e fatigante. O pequeno grupo partiu acompanhado de mais de cinqüenta cristãos de Pouzzoles, que seguiram o ex -rabino até Fórum de Ápio, em cavalos resistentes, montando carinhosa guarda aos carros dos guardas e prisioneiros. Nessa localidade, distante de Roma quarenta e poucas milhas, aguardava o Apóstolo dos gentios a primeira representação d os discípulos do Evangelho na cidade imperial. Eram anciães comovidos, cercados por alguns companheiros generosos, que, por pouco, carregavam o ex -rabino nos braços. Júlio não sabia como disfarçar a surpresa que lhe ia nalma. Jamais viajara com um pri sioneiro de tamanho prestígio. De Fórum de Ápio a caravana demandou o sítio denominado “As Três Ta vernas”, acrescida agora do grande veículo que levava os anciães romanos, e sempre rodeada de cavaleiros for tes e bem dispostos. Nessa região, singularmente nom eada, em vista do grande conforto de suas hospedarias, outros carros e novos amigos esperavam Paulo de Tarso com sublimes demonstrações de alegria. O Apóstolo, agora, contemplava as regiões do Lácio empolgado por emoções suaves e doces. Tinha a impressão de haver aportado a um mundo diferente da sua Ásia cheia de combates acerbos. Com permissão de Júlio, a figura mais representa tiva dos anciães romanos tomara assento junto de Paulo, naquele jubiloso fim de viagem. O velho Apolodoro, depois de certificar-se da simpatia do chefe da coorte pela doutrina de Jesus, tornou-se mais vivo e minucioso no seu noticiário verbal, atendendo às perguntas afetuosas do Apóstolo dos gentios. — Vindes a Roma em boa época — acentuava o velhinho em tom resignado —; temos a impressão de que nossos sofrimentos por Jesus vão ser multiplicados. Estamos em 61, mas há três anos que os discípulos do Evangelho começaram a morrer nas arenas do circo pelo nome augusco do Salvador. — Sim — disse Paulo de Tarso solicitamente. Eu ainda não havia sido preso em Jerusalém, quando ouvi referências às perseguições indiretas, movidas aos adeptos do Cristianismo pelas autoridades romanas. — Não são poucos — acrescentou o ancião — os que têm dado seu sangue nos espetáculos homicidas. Nossos c ompanheiros têm caído às centenas, aos apupos do povo inconsciente, estraçalhados pelas feras ou nos postes do martírio... O centurião, muito pálido, interrogou: — Mas como pode ser isso? Há medidas legais que justifiquem esses feitos criminosos? — E quem poderá falar em justiça no governo de Nero?
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Capítulo 9
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