O navio de Adramítio da Mísia, em que viajavam o Apóstolo e os companheiros, no dia imediato tocou em Sídon, repetindo -se as cenas comovedoras da véspera. Jú lio permitiu que o ex-rabino fosse ter com os amigos, na praia, verificando -se as despedidas entre exortações de esperanças e muitas lágrimas. Paulo de Tarso ganhou ascendência moral sobre o comandante, marinheiros e guardas. Sua palavra vibrante conquista ra as atenções gerais. Falava de Jesus, não como de uma personalidade inatingível, mas como de um mestre amoroso e amigo das criaturas, a seguir de perto a evolução e redenção da Humanidade terrena desde os seus primórdios. Todos desejavam ouvir-lhe os conceitos, relativamente ao Evan gelho e quanto à sua projeção no futuro dos povos. A embarcação freqüentemente deixava divisar pai sagens gratíssimas ao olhar do Apóstolo. Depois de costear a Fenícia, surgiram os contornos da ilha de Chipre — de cariciosas recordações. Nas proximidades de Panfília exultou de íntima alegria pelo dever cumprido, e assim chegou ao porto de Mira, na Lícia. Foi aí que Júlio resolveu tomar passagem com os companheiros numa embarcação alexandrina, que se di rigia para a Itália. Dess e modo, a viagem continuou, mas com perspectivas desfavoráveis. O navio levava excesso de carga. Além de grande quantidade de trigo, tinha a bordo duzentas e setenta e seis pessoas. Aproximava -se o período difícil para os trabalhos de navegação. Os ventos sopravam de rijo, contrariando a rota. Depois de lon gos dias, ainda vogavam na região do Caldo. Vencendo dificuldades extremas, conseguiram tocar em alguns pontos de Creta. Observando os obstáculos da jornada e obedecendo à própria intuição, o Apóstolo, confiado na amizade de Júlio, chamou -o em particular e sugeriu o inverneio em Kaloi-Limenes. O chefe da coorte tomou o alvitre em con sideração e apresentou-o ao comandante e ao piloto, os quais o houveram por descabível. — Que significa isso, centurião? — perguntou o capitão, enfático, com um sorriso algo irônico. — Dar crédito a esses prisioneiros? Pois estou a ver que se trata de algum plano de fuga, maquinado com sutileza e prudência... Mas, seja como for, o alvitre é inaceitável, não só pela confianç a que devemos ter em nossos recursos profissionais, como porque precisamos atingir o porto de Fênix, para o repouso necessário. O centurião desculpou-se como pôde, retirando -se um tanto vexado. Desejaria protestar, esclarecendo que Paulo de Tarso não era u m simples réu comum; que não falava por si só, mas também por Lucas, que igualmente fora marítimo dos mais competentes. Não lhe convinha, porém, comprometer sua brilhante situação militar e polí tica, em antagonismo com as autoridades provincianas. Era melhor não insistir, sob pena de ser mal compreen dido pelos homens de sua classe. Procurou o Apóstolo e fê -lo sabedor da resposta. Paulo, longe de magoar-se, murmurou calmamente: — Não nos entristeçamos por isso! Estou certo de que os óbices hão de ser muito maiores do que possamos suspeitar. Haveremos, porém, de lograr algum proveito, porque, nas horas angustiosas, recordaremos o poder de Jesus, que nos avisou a tempo. A viagem continuou entre receios e esperanças. O próprio centurião estava agora convencido da inoportunidade da arribada em Kaloi -Limenes, porque, nos dois dias que se seguiram ao conselho do Apóstolo, as condições atmosféricas melhoraram bastante. Logo, po rém, que se fizeram ao mar alto, rumo a Fênix, um furacão imprevisto caiu de súb ito. De nada valeram providências improvisadas. A embarcação não podia en frentar a tempestade e forçoso foi deixá-la à mercê do vento impetuoso, que a arrebatou para muito longe, envolta em denso nevoeiro. Começaram, então, padeci mentos angustiosos para aquelas criaturas insuladas no abismo revolto das ondas encapeladas. A tormenta pa recia eternizar-se. Havia quase duas semanas que o vento rugia incessante, destruidor. Todo o carregamento de trigo foi alijado, tudo que representava excesso de peso, sem u tilidade imediata, foi tragado pelo monstro insaciável e rugidor! A figura de Paulo foi encarada com veneração. A tripulação do navio não podia esquecer o seu alvitre. O piloto e o comandante estavam confundidos e o prisioneiro tornara-se alvo de respeito e consideração unâni mes. O centurião, principalmente, permanecia constan temente junto dele, crente de que o ex rabino dispunha de poderes sobrenaturais e salvadores, O abatimento moral e o enjôo espalharam o desânimo e o terror. O Apóstolo generoso, no entanto, acudia a todos, um por um, obrigando -os a se alimentarem e confortando -os moralmente. De quando a quando, soltava o verbo elo quente e, com a devida permissão de Júlio, falava aos companheiros da hora amarga, procurando identificar as questões es pirituais com o espetáculo convulsivo da Natureza: — Irmãos! — dizia em voz alta para a assembléia estranha, que o ouvia transida de angústia — eu creio que tocaremos breve a terra firme! Entretanto, assumamos o compromisso de jamais olvidar a lição terrí vel desta hora. Procuraremos caminhar no mundo qual ma rinheiro vigilante, que, ignorando o momento da tempestade, guarda a certeza da sua vinda. A passagem da existência humana para a vida espiritual assemelha -se ao instante amarguroso que estamos vivendo neste barco, há muitos dias. Não ignorais que fomos avisados de todos os perigos, no último porto que nos convidava estagiar, livres de acidentes destruidores. Buscamos mar alto, de própria conta. Também Cristo Jesus nos concede os celestes avisos no seu Evangelho de Luz, mas, freqüentemente optamos pelo abismo das expe riências dolorosas e trágicas. A ilusão, como o vento sul, parece desmentir as advertências do Salvador, e nós continuamos pelo caminho da nossa imaginação vi ciada; entretanto, a tempesta de chega de repente. É preciso passar de uma vida para outra, a fim de retificarmos o rumo iniludível. Começamos por alijar o car regamento pesado dos nossos enganos cruéis, abando namos os caprichos criminosos para aceitar plenamente a vontade augusta de Deus. Reconhecemos nossa insignificância e miséria, alcança -nos um tédio imenso dos erros que nos alimentavam o coração, tal como sen timos o nada que representamos neste arcabouço de madeiras frágeis, flutuante no abismo, tomados de singular enjôo, que nos provoca náuseas extremas! O fim da existência humana é sempre uma tormenta como esta, nas regiões desconhecidas do mundo interior, por que nunca estamos apercebidos para ouvir as advertências divinas e procuramos a tempestade angustiosa e destruidora, pelo roteiro de nossa própria autoria. A assembléia amedrontada ouvia -lhe os conceitos, empolgada de inominável pavor. Observando que todos se abraçavam, confraternizando -se na angústia comum, continuava: — Contemplemos o quadro dos nossos sofrimentos. Ve de como o perigo ensina a fraternidade imediata. Es tamos aqui, patrícios romanos, negociantes de Alexandria, plutocratas de Fenícia, autoridades, soldados, pri sioneiros, mulheres e crianças... Embora diferentes uns dos outros, perante Deus a dor nos irmana os sentimentos para o mesmo fim de salvação e restabelecimento da paz. Creio que a vida em terra firme seria muito diferente, se as criaturas lá se compreendessem tal como acontece aqui, agora, nas vastidões marinhas. Alguns sopitavam o despeito, ouvin do a palavra apostolar, mas a grande maioria acercava-se, reconhecendo-lhe a inspiração superior e desejosa de confugir-se à sombra da sua virtude heróica. Decorridos catorze dias de cerração e tormenta. o barco alexandrino atingiu a ilha de Malta. Enorme, geral alegria; mas, o comandante, ao ver afastado o perigo e sentindo-se humilhado com a atitude do Apóstolo durante a viagem, sugeriu a dois soldados o assassínio dos prisioneiros de Cesaréia, antes que pudessem evadir-se. Os prepostos do centurião ass umiram a paternidade desse alvitre, mas Júlio se opôs, terminantemente, deixando perceber a transformação espiritual que o feli citava agora, à luz do Evangelho redentor. Os presos que sabiam nadar atiraram -se à água corajosamente; os de mais agarravam-se aos botes improvisados, buscando a praia. Os naturais da Ilha, bem como os poucos romanos que lá residiam a serviço da administração, acolheram os náufragos com simpatia; mas, por numerosos, não havia acomodação para todos. Frio intenso enregelava os mais resistentes. Paulo, todavia, dando mostras do seu valor e experiência no afrontar intempéries, tratou de dar o exemplo aos mais abatidos, para que se fizesse fogo, sem demora. Grandes fogueiras foram acesas rapi damente para aquecimento dos desabrigados; mas, quando o Apóstolo atirava um feixe de ramos secos à labareda crepitante, uma víbora cravou -lhe na mão os dentes venenosos. O ex-rabino susteve-a no ar com um gesto sereno, até que ela caísse nas chamas, com estu pefação geral. Lucas e Timóteo aproxi maram-se aflitos. O chefe da coorte e alguns amigos estavam desolados. É que os naturais da Ilha, observando o fato, davam alarme, asseverando que o réptil era dos mais venenosos da região, e que as vítimas não sobreviviam mais que horas. Os indígenas, impressionados, afastavam -se discretamente. Outros, assustadiços, afirmavam: — Este homem deve ser um grande criminoso, pois, salvando -se das ondas bravias, veio encontrar aqui o castigo dos deuses. Não eram poucos os que aguardavam a morte do Apóstolo, cont ando os minutos; Paulo, no entanto, aque cendo-se como lhe era possível, observava a expressão fisionômica de cada um e orava com fervor. Diante do prognóstico dos nativos da Ilha, Timóteo aproximou -se mais intimamente e buscou cientificá-lo do que diziam a seu respeito. O ex-rabino sorriu e murmurou: — Não te impressiones. As opiniões do vulgo são muito inconstantes, tenho disso experiência própria. Es tejamos atentos aos nossos deveres, porque a ignorância sempre está pronta a transitar da maldição ao elo gio e vice-versa. É bem possível que daqui a algumas horas me considerem um deus.