Capítulo 10
Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva dos demônios nas manifestações modernas.⁶⁷ “Nas suas intervenções exteriores os demônios procuram dissimular a sua presença, a fim de afastar suspeitas. Sempre astutos e pérfidos, seduzem o homem com ciladas antes de algemá-lo na opressão do servilismo. Aqui, lhe aguçam a curiosidade com fenômenos e brincadeiras pueris; além, despertam-lhe a admiração e subjugam-no pelo encanto do maravilhoso. Se o sobrenatural aparece, se o seu poder os desmascara, então se acalmam, extinguem quaisquer apreensões, solicitam confiança e provocam familiaridade. Ora se apresentam como divindades e bons gênios, ora assimilam os nomes e até os traços de homens que deixaram a Terra. Com o auxílio de tais fraudes dignas da antiga serpente, falam e são ouvidos; dogmatizam e são acreditados; misturam com suas mentiras algumas verdades e inculcam o erro debaixo de todas as formas. É nisso que consiste as pretensas revelações de além-túmulo. E é para a obtenção de tal resultado que a madeira e a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, os pés das mesas e as mãos das crianças se tornam oráculos; é por isso que a pitonisa profetiza em delírio e que o ignorante, num sono misterioso, torna-se de repente um doutor da Ciência. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e de todos os tempos, o objetivo final dessas estranhas manifestações. Os resultados surpreendentes dessas práticas ou atos, em sua maioria fantásticos e ridículos, não podendo proceder da sua virtude intrínseca, nem da ordem estabelecida por Deus, só podem ser atribuídos ao concurso das potências ocultas. Tais são, notadamente, os fenômenos extraordinários obtidos em nossos dias pelos processos aparentemente inofensivos do magnetismo e das mesas falantes. Por meio dessas operações da magia moderna, vemos a reprodução entre nós das evocações e dos oráculos, as consultas aos mortos, as curas e sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, interroga-se a madeira e ela responde; manda-se e ela obedece, e isto em todas as línguas e sobre todos os assuntos; achamo-nos em presença de seres invisíveis a usurparem os nomes dos mortos, e cujas pretensas revelações têm o cunho da contradição e da mentira; formas inconsistentes e leves, dotadas de força sobre-humana, aparecem e desaparecem de repente. Quais são os agentes secretos desses fenômenos, os verdadeiros atores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, nem se prestariam a todos os caprichos da curiosidade. As almas dos mortos, que Deus proíbe evocar, permanecem no lugar que a sua justiça lhes designa, e não podem, sem a sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos. Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do herege, do ímpio ou do crente, o que importa dizer da inocência ou do crime, não são enviados de Deus, nem apóstolos da verdade e da salvação, mas promotores do erro e agentes do inferno. Apesar do cuidado com que se ocultam sob os mais veneráveis nomes, eles se traem pela nulidade de suas doutrinas, pela baixeza dos atos e pela incoerência das palavras. Procuram apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado original, da ressurreição do corpo, da eternidade das penas, como de toda a revelação divina, a fim de subtrair às leis a sua verdadeira sanção e abrir ao vício todas as barreiras. Se as suas sugestões pudessem prevalecer, acabariam por formar uma religião cômoda para uso do socialismo e de todos a quem importuna a noção do dever e da consciência. A incredulidade do nosso século facilitou-lhes o caminho. Possam assim as sociedades cristãs, por uma sincera dedicação à fé católica, escapar ao perigo desta nova e terrível invasão!”
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Intervenção dos demônios nas modernas manifestações
Item 4