2ª Parte - Cap. 3: Lutas e humilhações
Ouvindo-o, o antigo pescador de Cafarnaum chegou quase a chorar. Com extrema dedicação, satisfez -lhe o pedido e, assim, foi ele conduzido ao interior, onde se acomodou entre lençóis muito alvos. Pedro fez mais: compreendendo a profunda significação daquele desejo, trouxe ao convertido de Damasco os singelos pergaminhos que o mártir utilizava diariamente no estudo e meditação da Lei, dos Profetas e do Evangelho. Ape sar da febre, Saulo regozijou -se. Tomado de profunda comoção, nas passagens prediletas dos pergaminhos sa grados, leu o nome de “Abigail”, grafado diversas vezes. Ali estavam frases peculiares à dialética da noiva amada, datas que coincidiam, perfeitamente, com as suas revelações íntimas, quando ambos se entretinham a falar do passado, no pomar de Zacarias. A palavra “Corinto” era repetida muitas vezes. Aqueles documentos pareciam ter uma voz. Falavam -lhe ao coração, de um grande e santo amor fraternal. Ouvia -a em silêncio e guardou as conclusões avaramente. Não revelaria a ningu ém suas íntimas dores. Bastavam aos outros os grandes erros da sua vida pública, os remorsos, as retificações que, apesar de verificadas em campo aberto, raros ami gos conseguiam compreender. Observando-lhe a atitude de constante meditação, Pedro desdobrou -se na tarefa de assistência fraternal. Eram as palavras amigas, os co mentários acerca do poder de Jesus, os caldos suculen tos, as frutas substanciosas, a palavra de bom ânimo. Por tudo isso, sensibilizava -se o doente, sem saber como traduzir sua gratidã o imperecível. Entretanto, notou que Tiago, filho de Alfeu, re ceoso, talvez, dos seus antecedentes, não se dignava dirigir -lhe uma palavra. Arvorado em rígido cumpridor da Lei de Moisés, dentro da igreja do “Caminho”, era percebido, de vez em quando, pelo moço tarsense, qual sombra impassível a deslizar, balbuciando preces silen ciosas, entre os enfermos. A princípio, sentiu quanto lhe doía aquele desinteresse; mas logo considerou a necessidade de humilhar se diante de todos. Nada fizera, ainda, que pudess e positivar suas novas convicções. Quando dominava no Sinédrio, também não perdoava as adesões de última hora. Logo que entrou a convalescer, já plenamente identificado com a afeição de Pedro, pediu-lhe conselhos sobre os planos que tinha em mente, encarecendo a máxima franqueza, para que pudesse enfrentar a situa ção, por mais duras que lhe fossem as circunstâncias. — De minha parte — disse o Apóstolo ponderadamente — não me parece razoável permaneceres em Je rusalém, por enquanto, neste período de renovação. Para falar com sinceridade, há que considerar teu novo estado dalma como a planta preciosa que começa a germinar. É necessário dar liberdade ao germe divino da fé. Na hipótese da tua permanência aqui, encontrarias, diariamente, de um lado os sacerdote s intransigentes em guerra contra o teu coração; e de outro, as pessoas incompreensíveis, que falam nas extremas dificuldades do perdão, embora conheçam, de sobra, as lições do Mestre nesse sentido. Não deves ignorar que a perseguição aos simpatizantes do “Caminho” deixou traços muito profundos na alma popular. Não raro, aqui chegam pessoas mutiladas, que amaldiçoam o movimento. Isso para nós, Saulo, está num passado que jamais voltará; contudo, essas criaturas não o poderão compreender assim, de pronto. E m Jerusalém estarias mal colocado. O germe de tuas novas convicções encontraria mil ele mentos hostis e talvez ficasses à mercê da exasperação. O rapaz ouviu as advertências ralado de angústia, sem protestar. O Apóstolo tinha razão. Em toda a cidade encont raria críticas soezes e destruidoras. — Voltarei a Tarso... — disse com humildade —, é possível que meu velho pai compreenda a situação e ajude meus passos. Sei que Jesus abençoará meus esforços. Se é preciso recomeçar a existência, recome çá-la-ei no lar de onde provim... Simão contemplou-o com ternura, admirado daquela transformação espiritual. Diariamente, ambos reatavam as palestras amisto sas. O convertido de Damasco, inteligência fulgurante, revelava curiosidade insaciável a respeito da personalidade do Cristo, dos seus mínimos feitos e mais sutis ensinamentos. Outras vezes, solicitava ao ex -pescador todos os informes possíveis sobre Estevão, regozijando-se com as lembranças de Abigail, embora guardasse avaramente os pormenores do seu romance da moci dade. Inteirou-se, então, dos pesados trabalhos do pregador do Evangelho quando no cativeiro; da sua dedicação a um patrício de nome Sérgio Paulo; da fuga em miserável estado de saúde, no porto palestinense; do ingresso na igreja do “Caminho” como indigente, das primeiras noções do Evangelho e conseqüente iluminação em Cristo Jesus. Encantava-se, ouvindo as narrativas simples e amorosas de Pedro, que revelava sua veneração ao mártir evitando melindrá -lo na sua condição de verdugo repeso. Logo que pôde levantar-se da cama, foi ouvir as pregações naquele mesmo recinto onde insultara o irmão de Abigail, pela primeira vez. Os expositores do Evangelho eram, mais freqüentemente, Pedro e Tiago. O primeiro falava com profunda prudência, embora se valesse de maravilhosas expressões simbólicas. O segundo, entretanto, parecia torturado pela influência judaizante. Tiago dava a impressão de reingresso na maioria dos ouvintes, nos regulamentos farisaicos. Suas preleções fugiam ao padrão de liberdade e de amor em Jesus-Cristo. Revelava-se encarcerado nas concepções estrei tas do judaísmo dominante. Longos períodos de seus discursos referiam -se às carnes impuras, às obrigações para com a Lei, aos imperativos da circuncisão. A assembléia também parecia completamente m odificada. A igreja assemelhava se muito mais a uma sinagoga comum. Israelitas, em atitude solene, consultavam pergaminhos e papiros que continham as prescrições de Moi sés. Saulo procurou, em vão, a figura impressionante dos sofredores e aleijados que vira no recinto, quando ali esteve pela primeira vez. Curiosíssimo, notou que Simão Pedro atendia -os numa sala contígua, com grande bon dade. Aproximou-se mais e pôde observar que, enquanto a pregação reproduzia a cena exata das sinagogas, os aflitos se suce diam ininterruptamente na sala humilde do ex-pescador de Cafarnaum. Alguns saíam conduzindo bilhas de remédio, outros levavam azeite e pão. Saulo impressionou-se. A igreja do “Caminho” pare cia muito mudada. Faltava-lhe alguma coisa. O ambiente geral era d e asfixia de todas as idéias do Nazareno. Não mais encontrou ali a grande vibração de fraterni dade e de unificação de princípios pela independência espiritual. Depois de aturadas reflexões, tudo atribuía à falta de Estevão. Morto este, extinguira -se o esforço do Evangelho livre; pois fora ele o fermento divino da renovação. Somente agora se capacitava da grandeza da sua elevada tarefa. Quis pedir a palavra, falar como em Damasco, zurzir os erros de interpretação, sacudir a poeira que se adensava sobre o im enso e sagrado idealismo do Cristo, mas lembrou as ponderações de Pedro e calou -se. Não era justo, por enquanto, verberar o procedimento de outrem, quando não dera obras de si mesmo, por teste munhar a própria renovação. Se tentasse falar, podia ouvir, talvez, reprimendas justas. Além disso, notava que os conhecidos de outros tempos, freqüentadores agora da igreja do “Caminho”, sem abandonar, de modo algum, seus princípios errôneos, olhavam -no de soslaio, sem dissimular desprezo, considerando -o em perturbação mental. No entanto, era com esforço supremo que sopi tava o desejo de terçar armas, mesmo ali, para restauração da verdade pura. Após a primeira reunião, procurou oportunidade de estar a sós com o ex pescador de Cafarnaum, a fim de se inteirar das inov ações observadas. — A tempestade que desabou sobre nós — explicou Pedro generosamente, sem qualquer alusão ao seu pro cedimento de outrora — levou-me a sérias meditações. Desde a primeira diligência do Sinédrio nesta casa, notei que Tiago sofrera profundas transformações. Entregou -se a uma vida de grande ascetismo e rigoroso cum primento da Lei de Moisés. Pensei muito na mudança das suas atitudes, mas, por outro lado, considerei que ele não é mau. É companheiro zeloso, dedicado e leal. Calei -me para mais tarde concluir que tudo tem uma razão de ser. Quando as perseguições apertaram o cerco a atitude de Tiago, embora pouco louvável, quanto à liberdade do Evangelho, teve seu lado benéfico. Os dele gados mais truculentos respeitaram -lhe o devocionismo moisaico e suas amizades sinceras no judaísmo nos permitiram a manutenção do patrimônio do Cristo. Eu e João tivemos horas angustiosas, na consideração desses problemas. Estaríamos sendo insinceros, falsearíamos a verdade? Ansiosamente rogamos a inspiração do Mest re. Com o auxílio de sua divina luz, chegamos a criteriosas conclusões. Seria justo lutar a videira ainda tenra com a figueira brava? Se fôssemos atender ao impulso pessoal de combater os inimigos da independência do Evangelho, esqueceríamos fatalmente, a obra coletiva. Não é lícito que o timoneiro, por testemunhar a excelência de conhe cimentos náuticos, atire o barco contra os rochedos, com prejuízo de vida para quantos confiaram no seu esforço. Consideramos, assim, que as dificuldades eram muitas e precisávamos, enquanto mínima fosse a nossa possibili dade de ação, conservar a árvore do Evangelho ainda tenra, para aqueles que viessem depois de nós. Além do mais, Jesus ensinou que só conseguimos elevados objetivos neste mundo, cedendo alguma coisa de nós m esmos. Por intermédio de Tiago, o farisaísmo acede em caminhar conosco. Pois bem: consoante os ensina mentos do Mestre, caminharemos as milhas possíveis. E julgo mesmo que, se Jesus assim nos ensinou, é porque na marcha temos a oportunidade de ensinar alguma coisa e revelar quem somos Enquanto Saulo o contemplava com redobrada admi ração pelos judiciosos conceitos emitidos, o Apóstolo re matava: — Isso passa! A obra é do Cristo. Se fosse nossa, falharia por certo, mas nós não passamos de simples e imperfe itos cooperadores.
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Capítulo 3
Nome do Capítulo Lutas e humilhações
Parte Segunda Parte