2ª Parte - Cap. 3: Lutas e humilhações
Saulo guardou a lição e recolheu -se pensativo. Pedro parecia -lhe muito maior agora, no seu foro íntimo. Aquela serenidade, aquele poder de compreensão dos fatos mínimos, davam -lhe idéia da sua profunda ilumi nação espiritual. De saúde refeita, antes de qualquer deliberação sobre o novo caminho a tomar, o moço tarsense desejou rever Jerusalém num impulso natural de afeição aos lugares que lhe sugeriam tantas lembranças cariciosas. Visitou o Templo, experimentando o contraste das emoções. Não se animou a penetrar no Sinédrio, mas procurou, ansioso, a Sinagoga dos cilicianos, onde presumia reencontrar as amizades nobres e afáveis de outros tempos. Entretanto, mesmo ali onde se reuniam os conterrâneos residentes em Jerusalém, foi recebido fri amente. Ninguém o con vidou ao labor da palavra. Apenas alguns conhecidos de sua família apertaram -lhe a mão secamente, evitando-lhe a companhia, de modo ostensivo. Os mais irônicos, termi nados os serviços religiosos, dirigiram -lhe perguntas, com sorrisos escarninhos. Sua conversão às portas de Damasco era glosada com ditérios acerados e deprimentes. — Não seria algum sortilégio dos feiticeiros do “Caminho”? — diziam uns. — Não seria Demétrio que se vestira de Cristo e lhe deslumbrara os olhos doentes e fatigados? — interrogavam outros. Percebeu as ironias de que estava sendo objeto. Tratavam -no como demente. Foi aí que, sem sopitar a impulsividade do coração honesto, subiu ousadamente num estrado e falou com orgulho: — Irmãos da Cilícia, estais enganados. Não estou louco. Não buscais argüir-me porque eu vos conheço e sei medir a hipocrisia farisaica. Estabeleceu-se luta imediata. Velhos amigos voci feravam impropérios. Os mais ponderados cercaram -no como se o fizessem a um doente e pediram -lhe que se calasse. Saulo precisou fazer um esfoço heróico para conter a indignação. A custo, conseguiu dominar -se e retirou-se. Em plena via pública, sentia-se assaltado por idéias escaldantes. Não seria melhor combater aberta mente, pregar a verdade sem consideração pela s máscaras religiosas que enchiam a cidade? A seus olhos, era justo refletir na guerra declarada aos erros farisaicos. E se, ao contrário das ponderações de Pedro, assu misse em Jerusalém a chefia de um movimento mais vasto, a favor do Nazareno? Não tivera a coragem de perseguir -lhe os discípulos, quando os doutores do Si nédrio eram todos complacentes? Por que não assumir, agora, a atitude da reparação, encabeçando um movi mento em contrário? Havia de encontrar alguns amigos que se lhe associassem ao esf orço ardente. Com esse gesto, auxiliaria o próprio irmão na sua tarefa dignifi cante em prol dos necessitados. Fascinado com tais perspectivas, penetrou no Templo famoso. Recordou os dias mais recuados da infância e da primeira juventude. O movimento popular no recinto já lhe não despertava o interesse de outrora. Instintiva mente, aproximou-se do local onde Estevão sucumbira. Lembrou a cena dolorosa, detalhe por detalhe. Penosa angústia assomava -lhe ao coração. Orou com fervor ao Cristo. Entrou na sala ond e estivera a sós com Abigail, a ouvir as últimas palavras do mártir do Evangelho. Compreendia, enfim, a grandeza daquela alma que o perdoara in extremis. Cada palavra do moribundo res soava-lhe agora, estranhamente, nos ouvidos. A eleva ção de Estevão fascinava-o. O pregador do “Caminho” havia -se imolado por Jesus! Por que não fazê-lo também?. Era justo ficar em Jerusalém, seguir -lhe os passos heróicos, para que a lição do Mestre fosse com preendida. Na recordação do passado, o moço tarsense mergulhava -se em preces fervorosas. Suplicava a inspiração do Cristo para seus novos caminhos. Foi aí que o convertido de Damasco, exteriorizando as faculdades espirituais, fruto das penosas disciplinas, observou que um vulto luminoso surgia inopinadamente a seu lado, falando-lhe com inefável ternura: — Retira-te de Jerusalém, porque os antigos com panheiros não aceitarão, por enquanto, o testemunho! Sob o pálio de Jesus, Estevão seguia -lhe os passos na senda do discipulado, embora a posição transcendental de sua assist ência invisível. Saulo, naturalmente, cuidou que era o próprio Cristo o autor da carinhosa advertência e, fundamente impressionado, demandou a igreja do “Caminho”, informando a Simão Pedro o que ocorrera. — Entretanto — acabou dizendo ao generoso Após tolo que o ouvia admirado —, não devo ocultar que tencionava agitar a opinião religiosa da cidade, defender a causa do Mestre, restabelecer a verdade em sua feição Integral. Enquanto o ex-pescador escutava em silêncio, como a reforçar a resposta, o novo discípulo continuava: — Estevão não se entregou ao sacrifício? Sinto que nos falta aqui uma coragem igual à do mártir, su cumbido às pedradas da minha ignorância. — Não, Saulo — replicou Pedro com firmeza —, não seria razoável pensar assim. Tenho maior experiê ncia da vida, embora não tenha cabedais de inteligência semelhantes aos teus. Está escrito que o discípulo não poderá ser maior que o mestre. Aqui mesmo, em Jerusalém, vimos Judas cair numa cilada igual a esta. Nos dias angustiosoS do Calvário, em que o S enhor provou a excelência e a divindade do seu amor e, nós, o amargo testemunho da exígua fé, condenamos o infortunado companheiro. Alguns irmãos nossos mantêm, até o presente, a opinião dos primeiros dias; mas, em contacto com a realidade do mundo, cheguei à conclusão de que Judas foi mais infeliz que perverso. Ele não acreditava na validade das obras sem dinheiro, não aceitava outro poder que não fosse o dos príncipes do mundo. Estava sempre inquieto pelo triunfo imediato das idéias do Cristo. Muitas vez es, vimo-lo altercar, impaciente, pela construção do Reino de Jesus, adstrito aos princípios políticos do mundo. O Mestre sorria e fingia não enten der as insinuações, como quem estava senhor do seu divino programa. Judas, antes do apostolado, era nego ciante. Estava habituado a vender a mercadoria e receber o pagamento imediato. Julgo, nas meditações de agora, que ele não pôde compreender o Evangelho de outra forma, ignorando que Deus é um credor cheio de mise ricórdia, que espera generosamente a todos nós , que não passamos de míseros devedores. Talvez amasse profundamente o Messias, contudo, a inquietação Fê -lo perder na oportunidade sagrada. Tão -só pelo desejo de apressar a vitória, engendrou a tragédia da cruz, com a sua falta de vigilância. Saulo ouvia assombrado aquelas considerações jus tas e o bondoso Apóstolo continuava: — Deus é a Providência de todos. Ninguém está esquecido. Para que ajuizes melhor da situação, admi tamos que fosses mais feliz que Judas. Figuremos tua vitória pessoal no feito. Concedamos que pudesses atrair para o Mestre toda a cidade. E depois? Deverias e poderias responder por todos os que aderissem ao teu es forço? A verdade é que poderias atrair, nunca, porém, converter. Como não te fosse possível atender a todos, em particular , acabarias execrado pela mesma forma. Se Jesus, que tudo pode neste mundo sob a égide do Pai, espera com paciência a conversão do mundo, por que não poderemos esperar, de nossa parte? A melhor posição da vida é a do equilíbrio. Não é justo desejar fazer nem menos, nem mais do que nos compete, mesmo porque o Mestre sentenciou que a cada dia bastam os seus tra balhos. O convertido de Damasco estava surpreso a mais não poder. Simão apresentava argumentos irretorquí veis. Sua inspiração assombrava -o. — À vista do que ocorreu — prosseguiu o ex-pescador serenamente —, importa que te vás logo que caia a noite. A luta iniciada na Sinagoga dos cilícios é muito mais importante que os atritos de Damasco. É possível que amanhã procurem encarcerar -te - Além disso, a advertência recebida no Templo não é de molde a procrastinar mos providências indispensáveis. Saulo concordou de boamente com o alvitre. Poucas vezes na vida escutara observações tão sensatas. — Pretendes voltar à Cilícia? — disse Pedro com inflexão paterna l. — Já não tenho mais aonde ir — respondeu com resignado sorriso. - Pois bem, partirás para Cesaréia. Temos ali ami gos sinceros que te poderão auxiliar. O programa de Simão Pedro foi rigorosamente cum prido. À noite, quando Jerusalém se envolvia em grande silêncio, um cavaleiro humilde transpunha as portas da cidade, na direção dos caminhos que conduziam ao grande porto palestinense. Torturado pelas apreensões constantes da sua nova vida, chegou a Cesaréia decidido a não se deter ali muito t empo. Entregou as cartas de Pedro que o recomendavam aos amigos fiéis. Recebido com simpatia por todos, não teve dificuldades em retomar o caminho da cidade natal. Dirigindo-se agora para o cenário da infância, sen tia-se extremamente comovido com as mínimas recordações. Aqui, um acidente do caminho a sugerir cariciosas lembranças; ali, um grupo de árvores envelhecidas a des pertarem especial atenção. Várias vezes, passou por cara vanas de camelos que lhe faziam relembrar as iniciativas paternas. Tão inte nsa lhe fora a vida espiritual nos últimos anos, tão grandes as transformações, que a vida do lar se lhe figurava um sonho bom, de há muito desva necido. Através de Alexandre, recebera as primeiras notícias de casa. Lamentava a partida de sua mãe, justa mente quando tinha maior necessidade da sua compreen são afetuosa; mas entregava a Jesus os seus cuidados, nesse particular. Do velho pai não era razoável esperar um entendimento mais justo. Espírito formalista, radi cado ao farisaísmo de maneira integral, certo não aprovaria a sua conduta. Atingiu as primeiras ruas de Tarso, de alma opressa. As recordações sucediam-se ininterruptas. Batendo à porta do lar paterno, pela fisionomia indiferente dos servos compreendeu como voltava trans formado. Os dois criado s mais antigos não o reconheceram. Guardou silêncio e esperou. Ao fim de longa espera, o genitor foi recebê-lo. O velho Isaac amparando -se ao cajado, nas adiantadas expressões de um reumatismo per tinaz, não dissimulou um gesto largo de espanto. É que reconhecera de pronto o filho.
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Capítulo 3
Nome do Capítulo Lutas e humilhações
Parte Segunda Parte