Capítulo 2
Acrescentemos ainda o fato de que tudo nos costumes tem concorrido para que se lamente a perda da vida terrena e se tema a passagem da Terra ao céu. A morte é cercada de cerimônias lúgubres, que mais infundem terror do que provocam a esperança. Se descrevem a morte, é sempre com aspecto repelente e nunca como sono de transição; todos os seus emblemas lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo e descarnado; nenhum simboliza a alma se desembaraçando radiosa dos grilhões terrenos. A partida para esse mundo mais feliz só se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgraça houvesse atingido os que partem; dizem-lhes eternos adeuses como se jamais devessem revê-los. O que se lastima por eles é a perda dos gozos mundanos, como se não fossem encontrar maiores gozos no além-túmulo. Que desgraça, dizem, morrer tão jovem, rico e feliz, tendo diante de si a perspectiva de um futuro brilhante! A ideia de um futuro melhor apenas toca de leve o pensamento, porque não tem nele raízes. Tudo concorre, assim, para inspirar o terror da morte, em vez de inspirar esperança. Por certo será preciso muito tempo ainda para que o homem se desfaça desses preconceitos, o que acabará se dando à proporção que a sua fé se for firmando e à medida que ele conceber uma ideia mais sensata da vida espiritual.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Temor da morte
Tema Causas do temor da morte
Item 8